Homicídio é a 1ª causa de óbito entre jovens no Ceará

Homicídio é a 1ª causa de óbito entre jovens no Ceará

Atualizado: Segunda-feira, 13 Junho de 2011 as 9:21

Estampados nos principais programas de TV e jornais impressos, os casos de homicídio no Ceará aumentam progressivamente. O pior dessa história é que quase todos envolvem adolescentes ou pessoas muito jovens. Para se ter uma ideia dessa realidade, em 2009, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), foram registradas 387 mortes por homicídio na faixa etária entre dez e 19 anos, no Ceará. No ano passado, os números aumentaram para 428 óbitos.

Ainda de acordo com as estatísticas da Sesa, quando se trata de jovens na faixa etária entre 20 e 39 anos, a situação é ainda mais grave. Em 2009, foram 1.333 homicídios, já em 2010, a Secretaria registrou 1.433 óbitos. Dessa maneira, eles continuam ocupando o primeiro lugar entre as causas de óbitos de jovens no Ceará. Em segundo, estão os acidentes de trânsito, principalmente, os que envolvem motocicletas.

Segundo o diretor clínico do Instituto Doutor José Frota (IJF), Messias Simões, os casos de violências urbanas, geralmente acontecem durante os fins de semana. "De quinta a domingo, 60% dos casos atendidos na unidade são proveniente de violência. No trânsito, a maior demanda são os acidentes de moto", ressalta.

Ainda de acordo com ele, as lesões por arma branca e de fogo tendem a ser em sua maioria fatais, pois são realizadas de maneira proposital, diferente dos acidentes de trânsito, que existe a culpa, mas, muitas vezes, não existe o dolo.

Segundo ele, essa é uma das principais razões dos homicídios ultrapassarem a violência no trânsito em quantidade de óbitos. "Em um acidente de trânsito, na maioria das vezes, o culpado não quiz ocasionar, mas no homicídio já existe uma estratégia pensada".

Segundo Messias Simões, em relação aos feridos provenientes do interior do Estado, são dois casos de ferimento por arma de fogo para um de arma branca. Na Capital, a estatística aumenta, a cada oito feridos por arma de fogo, é atendido um por arma branca no IJF.

Causas

Para o titular da Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa no Ceará, delegado Rodrigues Júnior, a situação é bem mais complexa. Segundo ele, não existe só um vilão, são vários os fatores que ocasionam esse crescimento de homicídios entre os jovens cearenses.

Para o delegado, um dos principais fatores é a condição socioeconômica do indivíduo, causada pela má distribuição de renda no Estado.

"A maioria desses jovens vive em ambientes sem saneamento básico, atendimento precário da saúde, sem segurança, e sem educação. Todos esse fatores reunidos, geralmente, levam os jovens para o mundo do crime", destaca o delegado. Ainda segundo Rodrigues Júnior, a ausência de políticas públicas voltadas para a juventude colabora bastante para que esse jovem se envolva mais facilmente com drogas, álcool, roubos e pequenos furtos.

Rodrigues Júnior faz um apelo para que as autoridades voltem os olhos para esse problema que só vem aumentando. "Faltando as necessidades básicas, falta também oportunidade e opções de vida. Os jovens pensam que vão encontrar uma vida mais fácil no mundo do crime e acabam achando a morte".

Acidentes de trânsito

Na segunda posição, entre as causas externas de óbitos de adolescentes e jovens no Ceará, está a violência nas estradas. Os dados da Sesa revelam que em 2009, foram registrados 154 mortes na faixa etária entre dez e 19 anos. Em 2010, o número subiu para 197 óbitos. Os dados aumentam na faixa etária de 20 a 39 anos. Em 2009, foram registradas 747 mortes e em 2010, houve um crescimento bastante significativo. A Secretaria registrou 931 óbitos no trânsito.

Para se ter uma ideia, só no IJF, no ano passado, foram atendidos 3.658 jovens entre 20 e 40 anos, em decorrência de acidentes de motocicleta. De janeiro a março desse ano, foram 953 atendimentos na mesma faixa etária. Segundo Messias Simões, cerca de 65% dos acidentes de trânsito na Capital envolve motocicletas. No interior o número chega a 55%

SAÚDE

Há carência de médicos no Ceará

Eles pedem privacidade, silêncio e não querem que os adultos interfiram na vida deles. Quando os pais falam em consulta médica, são poucos os que aceitam ser observados por um "estranho". Segundo o hebeatra, medico e terapeuta de adolescentes e jovens, Almir Castro Neves, além da resistência cultural entre os adolescentes em frequentarem os consultórios, há uma carência de especialistas na área. Segundo ele, são apenas cinco hebeatras para atender todo o Estado.

Conforme o médico, o atendimento de adolescentes é diferenciado e feito por etapas. A primeira consulta é feita com a presença dos pais, em seguida somente com o jovem e só na terceira etapa, depois que ele adquire confiança, são realizados os exames. Contudo, segundo ele, o Sistema Único de Saúde (SUS) não possue salas preparadas para esse tipo de atendimento (privativo) e nem existem programas específicos de saúde voltados para eles.

Solução

Ainda segundo Almir Castro, a solução para esse problema é a criação de um sistema de captação de adolescentes por área, em cada município, da mesma forma como é feito com os bebês. Assim, ele acrescenta que dessa forma não há tanta necessidade de médicos especialistas, mas os próprios médicos do Programa de Saúde da Família poderiam exercer esse papel.

Conforme Castro, o adolescente, precisa frequentar o consultório médico, pelo menos de quatro em quatro meses, para verificar peso, pressão arterial, vacinação e até o comportamento social. "Na nossa cultura, geralmente, o jovem é considerado um indivíduo sadio, ou seja, eles só procuram médico quando estão muito doentes. Mas, a prevenção ainda é o melhor remédio", diz o especialista.

Para Neves, a maioria das doenças aparecem por falta de prevenção e cuidados justamente na faixa etária entre dez e 19 anos. Segundo ele, nos últimos 20 anos, ocorreram muitas mudanças sociais, que possivelmente, provocaram um aumento significativo no número de adolescente doentes. "Aumentou o sedentarismo entre os jovens, abandono dos alimentos naturais, excesso de alimentos gordurosos com efeitos cancerígenos, como refrigerantes, hambúrguer e batata frita", diz.

Projetos

No Ceará, a Secretaria da Saúde do Estado desenvolve três projetos nas áreas prioritárias de atenção às saúde de jovens e adolescentes. O Projeto Espaço Jovem desenvolve o protagonismo juvenil nas decisões de atividades e ações, promovendo o atendimento na família e na comunidade, com ações de promoção de saúde e informações para o desenvolvimento saudável e para a cidadania.

O Projeto Saúde e Prevenção da Escola, do Ministério da Saúde, promove a integração entre saúde e educação, com o objetivo principal de promoção da saúde sexual e reprodutiva para reduzir a vulnerabilidade de jovens e adolescentes às Doenças Sexualmente Transmissíveis, à Aids e à gravidez não planejada. E o projeto Saúde do Adolescente na Atenção Primária está fortalecendo as atividades dos serviços de atenção ao adolescentes no Programa Saúde da Família e unidades básicas de saúde, com a utilização de protocolos de atendimento de acordo com as normas operacionais da Secretaria da Saúde. Os programas envolvem jovens e adolescentes dos 12 aos 19 anos, cerca de 20% da população do CE.

A opinião do especialista

Jovens e Sociedade

Para uma avaliação de comportamento de risco na adolescência, é necessário, antes de tudo, haver um entendimento da dimensão psicossocial, na qual o jovem está inserido. Vivemos um período de intensa pressão socioeconômica, no qual os adolescentes fazem parte de uma população ativa profissionalmente, muitas vezes com grande parte de contribuição na renda familiar. Por outro lado, a violência intra e extra familiar tem atingido proporções alarmantes, e os jovens podem ser tanto vítimas como agressores.

A avaliação deve incluir características do próprio adolescente, de sua família e da sociedade na qual está inserido, através de seus variados grupos de referência (amigos, escola, trabalho, áreas de saúde, justiça, nível socioeconômico, inserção cultural e políticas governamentais). Diagnósticos clínicos, ainda que considerados de bom prognóstico, podem estar associados à maior grau de sofrimento entre jovens. Estudos indicam associação entre ideação, comportamento suicida e doença clínica, com frequência de até três vezes frente a relatos em adolescentes do país.

A presença de patologias crônicas durante a adolescência pode, independentemente das manifestações próprias da doença, interferir diretamente no comportamento dos jovens. Entre as principais alterações, observam-se uma interrupção na consolidação do processo de separação parental, modificações da imagem corporal, limitação nas atividades de grupo de iguais e dificuldades no desenvolvimento da identidade. Todos esses aspectos podem manifestar-se através de comportamento de risco devido à consequente baixa autoestima, segregação do grupo, ausência escolar, disfunção sexual e sintomas depressivos. Principalmente na fase inicial da adolescência, por não ter estabelecido adequadamente sua imagem corporal, o jovem pode apresentar dificuldades em considerar prioritárias atitudes de cuidado com sua saúde física, limitando, muitas vezes, sua adesão a tratamentos clínicos, orientação alimentar e atividade física, ainda que os sinais e sintomas apresentados possam ser evidentes aos adultos. Devemos motivar os adolescentes a procurarem acompanhamento profissional, pois é na consulta de rotina que se deve avaliar o padrão de sexualidade do adolescente, uso de álcool e drogas, violência doméstica e outras questões relevantes a sua saúde física e mental. A prevenção é o caminho mais certo, mais fácil, mais econômico e eficaz.

Zenilce Vieira Bruno - Psicóloga, pedagoga e sexóloga

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