"Humor é falar mal de alguém", diz comediante Fabio Porchat

"Humor é falar mal de alguém", diz comediante Fabio Porchat

Atualizado: Quarta-feira, 6 Abril de 2011 as 10:27

Fabio Porchat fala quase initerruptamente. Gesticula e mexe nos cabelos – lisos e louros, que teimam em cair na teste - a cada minuto. Sua agitação se traduz, também, em suas múltiplas tarefas como ator e roteirista. Aos 27 anos, Porchat é tido como um dos talentos da "geração stand up", que se alastra pelo País, a partir de vídeos de sucesso da internet.

Atualmente dando aulas de stand up na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), na zona sul do Rio, Porchat mantém uma agenda cheia.

Às quintas-feiras, ele se apresenta em São Paulo, com o espetáculo "Fora do normal", no teatro Procópio Ferreira. Às sextas e sábados, no Rio, com o grupo de stand up "Comédia em Pé". No dia 17 de abril estreia também no Rio, sob sua direção e roteiro, a peça "Ninguem leu Guerra e Paz". Já em cartaz na cidade há dois meses, "Velha é a mãe", com Louise Cardoso, tem sua roteirização. Além disso, na televisão, ele assina os textos do "Esquenta", programa de auditório da Regina Casé que volta à grade em junho, e do "Junto e Misturado", ambos da TV Globo. Haja piada!

iG: Por que resolveu dar aulas de comédia?

Fabio Porchat: Gosto do tema, acho que vale falar sobre stand up. A ideia é que, juntos, possamos aqui investigar este novo tipo de humor para o brasileiro em geral. Instigar as pessoas a fazerem o mesmo.

iG: Dá para aprender numa sala de aula a ser engraçado?

Fabio Porchat: Não ensino a ser engraçado, mas ajudo as pessoas a descobrirem e apurarem o seu lado de humor. Não ensino o "timing" da comédia, isso ela tem que trazer de casa.

iG: Qual é o seu texto de maior sucesso?

Fabio Porchat: É o que reclamo das atendentes de telemarketing. Tem mais de meio milhão de acessos no YouTube. A associação das atendentes de telemarketing já me ligou... Aliás, toda semana uma associação qualquer manda email lá para o Zorra Total reclamando de uma piada. Enfermeira, advogado, anão .. até funkeiro reclama de piada. Todas as associações do mundo já me mandaram email criticando  alguma coisa.

iG: Está difícil fazer humor com esta onda do "politicamente correto"?

Fabio Porchat: Sim, está muito difícil porque existe uma patrulha grande. Principalmente com a internet. A internet veio dar voz a todo mundo. E todo mundo acha que é dono da verdade, que pode escrever e opinar sobre tudo. Por que, ao invés de vir me criticar com comentários chatos nas redes sociais, o sujeito não investe todo seu ódio contra o Maluf? Aposto que o mundo seria bem melhor.

iG: Você já foi processado por alguém que se sentiu ofendido com alguma piada?

Fabio Porchat: Nunca. Acredito que possamos fazer piada sobre tudo, tudo mesmo. Em São Paulo não se pode fazer piada com o acidente da TAM (que matou 154 pessoas em 2007). Quando fiz, senti o auditório todo em silêncio. Já li na internet piadas como "o dia está arrastado hoje igual ao João Hélio" (menino que foi arrastado por um carro dirigido por assaltantes, em 2007, no Rio). É uma piada? É uma piada. Humor é falar mal de alguém.

iG: Por quê?

Fabio Porchat: Posso até fazer uma piada falando bem de alguém, mas não passa de cinco minutos. Depois perde a graça. Alguém precisa cair no buraco para o público rir, sempre foi assim! A gente tende, erradamente, a pensar que se tem que falar o que a plateia quer ouvir. Não é. Texto do stand up não é improviso. Assim como não entendo o sujeito que vai ao teatro querendo ver uma comédia com o argumento de que "não está a fim de pensar". Ué, não quer pensar? Então morre, infeliz (risos).

iG: Quando uma piada não dá certo?

Fabio Porchat: É muito difícil prever. O ideal é você conhecer o público para o qual está falando. Tenho um número no qual falo assim: "Natal é uma cidade linda, adoro Natal... tem gente bonita a beça... Mas tem um lugar de Natal que só tem gente feia, nossa! Aliás, aquele lugar nem deveria se chamar Natal, deveria ser Halloween". É claro que não dá para contar isso em Natal.

iG: Você citou o acidente da TAM. Fazer piada com tragédias não é pesado demais? Teve um humorista (Gilbert Gottfried) que foi demitido porque fez piada com o tsunami no Japão.

Fabio Porchat: Já fiz shows no Japão para comunidades brasileiras e começava o texto falando que estava num país seguro. É claro que agora eu não poderia fazer este tipo de comentário. Não dá para regular o que deve ser dito. Não vou brincar com o sujeito que está nadando numa quimioterapia, mas nem por isso tenho que ignorar o fato.

iG: Qual é o papel da internet na divulgação de stand ups?

Fabio Porchat: A internet é a principal causadora desse sucesso que se alastrou pelo País. O nosso público-alvo é o jovem de 12 a 30 anos, justamente aquele que vê vídeos na internet todo dia.

Por: Valmir Moratelli

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