Igrejas alternativas atraem jovens descolados

Igrejas alternativas atraem jovens descolados

Atualizado: Segunda-feira, 14 Março de 2011 as 3:56

A edição 21 da revista Cristianismo Hoje traz um artigo sobre os “evangélicos alternativos”. Escrito por Brett McCraken, autor do livro Hipster Christianity, e adaptado para publicação na edição brasileira pelo jornalista Carlos Fernandes, o artigo incluiu o Projeto 242 e a Caverna de Adulão como expressões nacionais deste movimento de igrejas alternativas. Abaixo está a entrevista completa concedida pelo Sandro Baggio, pastor no Projeto 242, por e-mail para a revista e que foi parcialmente citada no artigo.

O Projeto 242 tem uma proposta alternativa em relação aos métodos convencionais de comunhão cristã e evangelismo. Como pode ser resumida sua atuação? A proposta do Projeto 242 é viver a tensão de ser uma comunidade conservadora teologicamente e liberal culturalmente. Mantemos as crenças essenciais do Cristianismo, tais como na Trindade, Criação, Queda, Redenção, além dos cinco solas da Reforma, mas procuramos comunicar e viver estas crenças dentro do contexto cultural e urbano no qual estamos inseridos.

Você conhece o modelo de cristianismo hipster, atualmente em curso na América? Há algum ponto de interseção entre o trabalho de vocês e este modelo? Conheço sim o que tem sido chamado de cristianismo hipster, comprei o livro do Brett McCraken sobre o assunto em novembro passado. No Projeto 242 não estamos tentando ser hipster, modernos ou descolados. Não é esta nossa motivação. Para ser sincero, tenho medo de que possamos nos tornar no “point cristão da hora”, na igreja do momento, na bola da vez. Não estamos atrás de um modismo, mas de um estilo de vida que têm atravessado 2 mil anos, às vezes se adaptando a cultura, outras contestando-a e subvertendo-a, mas sempre fundamentado na vida, obra e mensagem revolucionárias de Jesus Cristo. Portanto, creio que a única interseção entre nós e as igrejas hipsters é que, possivelmente, compartilhamos de uma linguagem cultural e artística parecida, contextualizada à cultura jovem global.

Os movimentos cristãos de perfil mais alternativo muitas vezes atuam de forma crítica em relaçao à Igreja chamada institucionalizada. Falando em termos gerais, de que maneira você enxerga esse processo? É possível uma vida cristã plena fora da Igreja? Por outro lado, não considera legítimo que pessoas que tenham sérias críticas ao modelo convencional (inclusive, gente que foi vítima de igrejas ou líderes centralizadores/abusadores) busquem esse tipo de vivência cristã? A melhor crítica que tenho a oferecer em relação à igreja institucionalizada são os 13 anos de existência do Projeto 242. Minha crítica não são meros argumentos, mas a experiência de vida de uma comunidade que tem procurado reverter em sua prática aquilo que ela enxerga como errado no Cristianismo atual. Tanto eu como boa parte dos membros do Projeto 242 também já nos frustramos com certas experiências eclesiásticas, já cruzamos pelo caminho de lideranças manipuladoras e abusadoras da boa fé, mas não acreditamos que o isolamento seja a melhor resposta. Não existe o seguir Jesus sem comunidade, sem igreja. Isso vai contra a natureza do Deus que é Trino.

Como o seu ministério se relaciona com as outras iniciativas do mesmo gênero? Existe algum fórum de comunhão ou fraternidade, além de canais de colaboração? O Projeto 242 é parte da associação de igrejas Steiger, uma organização missionária internacional dedicada a alcançar jovens secularizados, apontando-os para um relacionamento com Jesus Cristo e ajudando-os a cumprir com o chamado de Deus para suas vidas. Além disso buscamos manter amizades com outras comunidades que partilham dos mesmos interesses que nós para trocar experiências e aprender uns com os outros.

Que tipo de pessoa procura o Projeto 242? Quantas pessoas estão envolvidas diretamente no trabalho? O Projeto 242 existe para pessoas que não se encaixam em certas estruturas eclesiásticas com tradicionalismo rígido e liturgias conservadoras ou pessoas que desejam conhecer mais sobre Deus e Jesus, mas fogem das igrejas tipo templo-teatro-mercado da fé. Somos uma comunidade de pouco mais de 100 pessoas que se reúnem para os cultos e se identificam como membros.

O movimento cristão hipster surgiu nos Estados Unidos na esteira de outros movimentos cristãos, como o Jesus Movement e o evangelismo dos anos 1980, e, de forma direta, é uma reação à moda das megaigrejas. Falando em termos de Brasil, de que modo você, particularmente, tem visto as últimas tendências evangélicas (teologia da prosperidade, movimento de louvor e adoração, evangelismo explosivo)? Muitas das tendências evangélicas modernas no Brasil são frutos do pior que o evangelicalismo norte-americano já produziu. Vejo com tristeza o fato de que boa parte do Igreja Brasileira se parece muito com o que foi dito do Cristianismo Africano: tem 20km de extensão e 2 centímetros de profundidade. Minha esperança é que pequenas iniciativas de comunidades comprometidas mais com o Evangelho de Jesus do que com o sucesso ministerial a qualquer custo, possam ajudar a mudar este cenário.

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