Indecisão - "Eu não sei qual carreira seguir"

Indecisão - "Eu não sei qual carreira seguir"

Atualizado: Segunda-feira, 12 Dezembro de 2011 as 9:15

Quando o Ensino Médio estava perto de chegar ao fim, todos os alunos da classe de Gustavo Ablung, de 19 anos, já haviam decidido a profissão que teriam e, com convicção, fizeram inscrição no vestibular das universidades mais concorridas. Gustavo, no entanto, não teve tanta segurança, e se inscreveu no curso de administração "para não ficar sem fazer nada", mesmo sabendo que esse não é o curso que vai deixá-lo feliz e realizado.

Não conseguir descobrir a própria vocação no final da adolescência pode até parecer uma falha aos olhos de alguns pais e colegas de classe, mas chegar ao final do colégio sem saber o que fazer da vida é comum, natural e, às vezes, até positivo. "Assumir que não está preparado para escolher e que precisa tomar uma providência quanto a isso é um cenário supersaudável", afima a psicóloga Valéria Linard, responsável pelo programa de Aconselhamento Profissional Gratuito da Universidade São Judas.

De acordo com a especialista, para decidir a carreira é preciso autoconhecimento, coragem para tomar decisões e acesso a informações. E, quando falta algum desses tópicos aos 18 anos, a solução mais simples – e menos indicada – é apelar para a família. "Os pais percebem essa indecisão e tentam dirigir o filho. Os jovens, então, escolhem o que foi apontado pela família ou por profissionais bem sucedidos que conhecem", diz a psicóloga, "eles fazem uma escolha pautada na decisão dos outros".

Ouvir a opinião da família em vez de buscar a resposta dentro de si fez com que a publicitária Tathiana Boldrini, de 27 anos, passasse anos em empregos que, embora pagassem bons salários, deixavam-na frustrada. Depois de formada e com dificuldade para conseguir emprego na área, Tathiana foi assistente de professor em uma escola de inglês e assistente administrativo em uma empresa de advocacia. "A área jurídica foi um grande divisor de águas. Eu reconheci que não estava feliz e decidi correr atrás de um emprego na minha área", conta, "abri mão de um trabalho em uma empresa que pagava um salário alto, mas não me agradava, e sofri muita pressão da família, que me dizia que eu precisava achar alguma coisa, me esforçar e ganhar bem".

Para não se frustrar lá na frente, depois de formada e com um diploma em mãos, a designer Mariana Nóbrega não se abalou quando chegou ao fim do Ensino Médio sem uma resposta quando questionavam o que ela queria fazer da vida. "Fiquei um ano e meio sem saber o que queria. Fiz um semestre de cursinho, prestei vestibular para rádio e TV, passei e não fiz o curso", conta.

Segundo ela, o período de autodescoberta aconteceu, principalmente, porque os pais nunca tentaram pressioná-la para que tomasse uma decisão e entrasse logo em uma faculdade. "Meus pais eram muito tranqüilos e sabiam que às vezes você precisa de um tempo. Eles davam valor ao que eu aprendia na escola, e não às notas que eu tirava, e aos sites que eu fazia em casa", conta ela, cujo principal hobby era o webdesign.

Mariana só encontrou um rumo para a vida profissional quando um amigo da mãe viu os sites que produzia e a indicou para trabalhar como assistente de arte em uma revista. Hoje, a designer é feliz profissionalmente e admite a sorte que teve por receber tal ajuda, mas não se arrepende do tempo que deu a si mesma até encontrar a resposta que precisava.

Gustavo, que passa agora pela mesma indecisão de Mariana, está preocupado com o ano que vem: "Se eu não entrar na faculdade no ano que vem vou ficar dois anos atrasado". Mas, para Valéria Linard, esse período de busca é importante quando o jovem não consegue tomar uma decisão. "A gente vê pessoas que terminaram a faculdade e são frustradas, ou começam um curso e param. Então, se colocar na balança, acho que essa ‘perda’ de seis meses ou um ano é, na verdade, um ganho".

Portanto, aos que chegaram às portas do vestibular e continuam em dúvida, a psicóloga recomenda buscar orientação. "É preciso primeiro saber o que ele faz bem e observar o que outras pessoas elogiam nele, porque pensar sozinho e olhar para si é a parte mais difícil", aconselha. "Depois, o adolescente precisa aceitar que tomar decisões implica em desagradar outras pessoas", diz a psicóloga, explicando que não há problema em dizer não a alguém para buscar a própria felicidade. "E, então, o jovem deve buscar informações sobre carreiras que o interessam e saber como é o dia-a-dia dos profissionais da área, para então tomar a decisão".

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