Joinville-SC realiza série de reportagens sobre comportamento dos jovens na cidade

Joinville-SC realiza série de reportagens sobre comportamento dos jovens na cidade

Atualizado: Segunda-feira, 16 Agosto de 2010 as 1:34

Muito do que se imagina sobre juventude existe na cabeça de adolescentes e jovens de Joinville. Apego aos amigos e à internet, prioridade para a carreira, informação sobre sexo, consciência de que drogas podem complicar a vida e o exemplo da mãe batalhadora. Mas há um tanto que surpreenderia pais.

Em pesquisa que será divulgada no fim de agosto, adolescentes e jovens da cidade expressaram o que pensam sobre família, sexo, drogas, trabalho e lazer. O levantamento inédito encomendado pelo Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) reuniu respostas de 497 jovens entre 12 e 21 anos de todos os bairros. A pesquisa tem de ser interpretada com esse porém: dependeu da sinceridade dos adolescentes.

Pelas respostas, parece que a família permanece do modelo tradicional. Pais casados, núcleo familiar de pai-mãe-irmãos e ideais que valorizam o trabalho. Casamento, filhos e desejo de enriquecer não move os entrevistados. Para a maioria, ter um emprego satisfatório é o que mais vale.

- A família em Joinville ainda mostra característica proletária. Mas a situação na cidade é desigual -, avalia o presidente do CMDCA, Humberto Gonçalves Correia Jr.

Em bairros como Paranaguamirim e Guanabara, sustentar a família é o sonho.

Há discrepâncias em meio a tantas opiniões certinhas. Em relação aos 33% que admitiram ter usado drogas (incluídos cigarro e álcool), a maconha é mais citada que o tabaco.

Mais de 20% já fumaram maconha, contra 5% dos que afirmaram ter provado cigarro. Os de 15 a 17 anos tiveram percentual mais alto de contato com a droga ilícita – 25,3% entre os que admitiram uso de drogas.

A faixa é a em que mais figuram entrevistados que se disseram a favor da maconha (2,2%; outros 10% são neutros). E quem revelou ter experimentado drogas, as usa com frequência. A maioria, em todos os grupos, diariamente - no de 12 a 14 anos, 63%, acima do percentual que coube ao cigarro.

Em todas as idades, os amigos são os "ouvidos" mais procurados nas conversas sobre sexo (menos para as meninas jovens, que buscam as mães). Mas 29% dos garotos de 12 a 14 anos não abrem a boca. Tânia Crescêncio, do Centro de Testagem e Aconselhamento da Prefeitura, acha que pais têm de evitar os extremos.

- São liberais a ponto de verem filmes pornográficos com os filhos ou não falam sobre o assunto. Falta o meio termo.

A Unidade Sanitária de Joinville oferece um preservativo menor, para adolescentes em formação. Proteção não seria problema. Falta saber se adolescentes aceitam tratamento diferenciado; ou sabem usar o preservativo.

- Muitos jovens deixam para aprender a pôr a camisinha na hora.

Avó é o exemplo

Os 45 anos que separam Júlia Caroline Borba da avó, Maria de Lourdes Terres Borba, rendem conflitos, mas elas aprenderam a contorná-los com bom humor.

Júlia, que faz 13 anos em outubro, fala rápido. Em geral, dona Lourdes perde parte da história. Também não têm o mesmo gosto para roupas. Lourdes desistiu de dar presentes de surpresa para a neta.

- Agora, a levo sempre junto -, conta a aposentada de 58 anos.

Júlia tem horário para voltar para casa (18 horas) e não pode dormir na casa dos amigos. É o zelo da avó, do qual a adolescente reclama, mas diz compreender. Às vezes.

- Tem dias que ela grita para eu entrar em casa e finjo que não escuto -, admite.

Júlia considera a avó Lourdes pessoal essencial na vida dela

Foto:Jessé Giotti

Lourdes toma conta de Júlia desde que ela era bebê, numa casa no Adhemar Garcia. E, apesar do choque de geração, está bem colocada na lista das pessoas mais importantes na vida de Júlia, da qual também fazem parte uma tia e o marido dela.

O bairro na zona Sul de Joinville se mostrou exceção: é onde os adolescentes mais se espelham no exemplo de pessoas que não são os pais, amigos ou namorados.

Futuro com sustento

Quando tinha 11 anos, Douglas Maciel dos Santos escreveu em uma redação sobre a própria vida o que mais gostaria de conquistar no futuro: uma situação econômica estável o suficiente para nunca passar necessidade. E que o permitisse ajudar a mãe e os irmãos.

Hoje, Douglas tem 13 anos e estuda com afinco para ser engenheiro civil.

- Na redação, contei como foi quando meu pai deixou a gente, todo aquele tempo difícil -, conta.

Ainda permanece firme na ideia de nunca depender de doações ou malabarismos para que os filhos não passem fome. Assim a mãe dele, Ivonete Maciel dos Santos, de 36 anos, vem levando a vida.

Desempregada há seis meses, Ivonete está grávida do sexto filho e mora há nove anos em uma casa cedida no bairro Paranaguamirim. A ideia simples de "futuro feliz" de Douglas é comum no bairro onde ele mora. Em vez de acompanhar o sonho em Joinville (um emprego que traga satisfação), os jovens do Paranaguamirim manifestaram o desejo de garantir o sustento da família.

(Acima da) média

Em vários aspectos, Dafne Beatrice Bittencourt, de 15 anos, pode ser considerada uma adolescente de Joinville. Em dúvida entre três faculdades, ela quer ter um emprego que a faça feliz.

Dinheiro e casamento - com o restante do pacote, que inclui filhos - são por último.

- Quero ver meu trabalho, a faculdade, antes de me preocupar com isso. E gostando do trabalho, o dinheiro vem junto.

O que mais adora é sair com os amigos. Mas não dispensa internet, a segunda forma de lazer preferida em Joinville. Nos fins de semana, sai do MSN apenas quando a fome bate.

A mãe é o porto seguro e o exemplo de Dafne.

- Ela tenta ser legal e ao mesmo tempo me impor horários, como qualquer mãe.

Dafne também considera que álcool e cigarro, mesmo legalizados, são drogas.

- Destroem a vida das pessoas da mesma forma que as outras drogas.

Aqui, vai o lado "do contra" de Dafne: careta, nunca passou nem perto de nada disso.

- Até para eu tomar um golinho de vinho, já é difícil a minha mãe deixar.

Por: Camille Cardoso

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