Jovem demais para morrer

Jovem demais para morrer

Atualizado: Segunda-feira, 20 Junho de 2011 as 9:30

A sistematização das bases de dados do Subsistema de Informação sobre Mortalidade em relatórios anuais é uma valiosa contribuição à cidadania no Brasil. Os "mapas da violência", como esses documentos são intitulados, são produzidos, com muita competência, por Julio Jacobo Waiselfisz. Disponibilizados na íntegra na internet, esse material se constitui em uma importante ferramenta para a reflexão e o planejamento na área de segurança pública.

O "Mapa da violência 2011: Os jovens do Brasil", lançado em março e disponibilizado na internet, aporta informações gravíssimas sobre a evolução das taxas de homicídios no Nordeste. Na região, essa taxa, quando medida para cada 100 mil habitantes, passou de 18,5 para 32,1, o que se traduz em um crescimento, em dez anos, de nada menos que 73,9%. Essa nova taxa traduz um crescimento dos homicídios em todos os estados da região, com exceção de Pernambuco, onde, em que pese uma alvissareira diminuição de 13,8, ainda se convive com 50,7 homicídios para cada 100 mil habitantes. No Rio Grande do Norte, em 1998, essa taxa era de 8,5 homicídios para cada 100 mil habitantes. Dez anos depois, a taxa pulou para 23,2, expressando um crescimento de 172,8%.

Julio Jacobo Waiselfisz desagregou os dados e procurou apreender a evolução dos homicídios na população de 15 a 24 anos. O quadro por ele apresentado indica que não é de todo exagerado se afirmar que está a ocorrer no Nordeste um genocídio silencioso da população jovem. Em 2008, enquanto no Brasil a taxa de homicídios nessa faixa de idade era de 52,9 para cada 100 mil, no Nordeste era de 63,8, o que nos coloca em primeiro lugar, no país, em assassinato de jovens.

A imprensa nacional, quando do lançamento do "Mapa", destacou a interiorização da violência. Há referentes para isso, mas se faz necessário uma análise mais cuidadosa no que diz respeito às capitais nordestinas. Enquanto no conjunto, a taxa de homicídios regrediu 17% no período da comparação (1998-2008), na nossa região, pelo contrário, tivemos um crescimento de 65,2%. Em Natal, essa situação se traduziu em aumento de 16,2 para 31,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. Se levarmos em conta apenas os jovens, a capital do Rio Grande do Norte pulou de 32,2 para 73,2 homicídios para cada 100 mil habitantes.

O trabalho de Julio Jacobo Waiselfisz capta, com precisão, a dimensão étnica desse genocídio, trabalhando com dados mais restritos (2002, 2005 e 2008). Para ficarmos apenas no Rio Grande do Norte, aqui, enquanto a taxa de homicídios entre os jovens brancos passou de 7,9 para cada 100 mil habitantes, em 2002, para 12,8 em 2008, entre os negros, no mesmo período, saltou de 21,4 para 63,2.

No domingo passado, o matutino Novo Jornal publicou matéria escrita pelo jornalista Anderson Barbosa destacando dados coletados pela Subcoordenadoria de Estatística e Análise Criminal da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Rio Grande do Norte. Um dado mereceu destaque: 199 homicídios ocorreram em Natal nos cinco primeiros meses de 2011. Se esse padrão não for invertido, no final do ano, a capital do Rio Grande do Norte alcançará a nada invejável taxa de 50 homicídios para cada 100 mil habitantes, o que, de acordo com o "Mapa da Violência 2011", a colocaria entre as sete capitais mais violentas do país.

Você há de se perguntar sobre o impacto da revelação desses números na vida social e política local. A resposta, tão estarrecedora quanto os números revelados, é: quase nenhum. O que interessa aos atores políticos locais é saber quem irá ganhar com o desastre administrativo que tem sido a gestão da Prefeita Micarla de Souza (PV). E, para quem está de costas para a política provinciana, a conversa que vale a pena é aquela a respeito das chances do ABC, até aqui invicto na segundona, ascender à elite do futebol brasileiro em 2012.

Com professores em greve, as escolas, os únicos espaços que os jovens das zonas periféricas tinham para uma sociabilidade distinta daquela que os leva alimentar as estatísticas da morte, continuarão fechadas (já estão há dois meses). Em greve, em período idêntico, também estão os policiais civis, o que indica que aqueles homicídios não serão investigados. E o Governo do Estado, impossibilitado de conceder os aumentos reivindicados pelas categorias, já que se encontra nos limites de gastos impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, joga todas as suas fichas na destruição do Estádio Machadão e construção de um novo elefante branco local, o Arena das Dunas. Tudo em nome da Copa.

Enquanto isso, em lugares distantes da periferia natalense, jovens negros continuarão sendo assassinados. Suas mortes anônimas serão atribuídas pelas autoridades locais, em entrevistas tão rituais quanto tediosas, ao tráfico de drogas. No Nordeste, uma geração de negros não será condenada a cem anos de solidão. Essa geração desaparecerá antes. Bem antes. Jovem demais.

Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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