Jovens europeus são vigiados pelos pais com recursos de alta tecnologia

Jovens europeus são vigiados pelos pais com recursos de alta tecnologia

Atualizado: Terça-feira, 26 Outubro de 2010 as 4:04

Recentemente, o governo de Milão, na Itália, enviou nada menos que quinhentas mil cartas aos pais de alunos da cidade, alertando para eventuais mudanças no comportamento de seus filhos. Que tipo de mudanças? Por exemplo: se pela segunda ou terceira vez seu filhão de 16 anos diz que perdeu (ou que roubaram) seu iPhone caríssimo, pode ser que na verdade ele esteja pagando por "favores especiais" que algumas colegas de escola lhe fazem. O alerta deveu-se à constatação de que muitas adolescentes têm se prostituindo dentro das escolas, em troca do último modelo de iPod, de roupas de marca e até recargas de celular. A notícia causou escândalo, mas a dor de cabeça de pais e filhos não parava por aí.

Ocupados em manter o emprego e o padrão de vida em tempos de crise econômica, os pais do novo milênio também estão às voltas com aprender termos como "bullying" (quando um garoto encrenqueiro, sozinho ou em grupo, sai apavorando a garotada menor) e "binge drinking" (quando a galera bebe até cair, nas baladas). Pesquisas revelam que 18% dos jovens italianos já foram vítimas de bullying escolar, e que o abuso de álcool entre o pessoal de 18 a 24 anos é de 22%. Mais um termo que está deixando os pais malucos? É o "enjo kosai", expressão vinda do Japão, que designa as garotas que saem com homens de meia-idade em troca de pequenas compensações em dinheiro ou presentes. Na Itália, a coisa já virou preocupação social.

Já no Reino Unido, uma pesquisa de 2009 da ATL, uma associação de professores britânicos, aponta que 12% dos jovens entre 14 e 17 anos admitem já terem portado arma branca, e que um quarto dos professores já sofreu agressão física. Os culpados aparecem aos montes. No caso da Itália, seriam os cortes no ensino público (que provocam, por exemplo, a falta de funcionários para monitorar os alunos), a televisão e até o mau exemplo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi (de 74 anos) – não é segredo seu affair escandaloso com uma garota de 17. A exclusão social, essa não se pode culpar, pois a garotada em questão não corresponde ao perfil de pobre e carente. Trata-se de adolescentes bem-nascidos a quem, em teoria, não falta nada.

Um publicitário de Roma não sabe o que "deu errado" na educação liberal de Gaya, sua filha de 14 anos. A "gothic lolita", como se autodefine, matou aula um ano inteiro para se encontrar com os amigos "emos", "sin queens" e "brutals", numa praça da cidade. Gaya acabou reprovada no colégio, como boa parte da tribo que se réune na praça com ela. "Ela trata mal a família e chega a roubar dinheiro em casa", entrega o pai, angustiado. Orgulhosamente pacifista e politicamente correto, ele lamenta ter de tomar atitudes drásticas com a garota, e admite ter tido vontade de lhe dar uns safanões. "O jeito é mandá-la para um colégio interno", sentencia.

Mercado aquecido

Para ajudar os pais desesperados, detetives particulares têm trocado as tradicionais investigações de traição conjugal para se ocupar bem mais em descobrir onde e como os jovens de boa família estão passando seu tempo e gastando (ou ganhando) dinheiro. Na Itália, basta uma olhada na lista telefônica ou num site de buscas: são inúmeros os anúncios que propõe tecnologia e técnicas avançadas para "controllo giovani", ou seja, para investigar a garotada. "Temos diversos recursos, mas muitos nos procuram pedindo interceptação telefônica e coisas que, por lei, não podemos fazer", confidencia um detetive da capital italiana. "Alguns pais parecem ver muito filme na tevê". O custo desse tipo de investigação varia entre 500 e 1500 euros a diária (entre 1169 e 3509 reais).

Mas e quanto ao direito da garotada à privacidade? "Meus pais confiam em mim", assegura Arianna, 17, baladeira assumida. "Mas se eu estivesse dando problemas, seria justo que eles usassem de todos os meios para me ajudar. Eu faria o mesmo com meus filhos". Giacomo, 19, admite que, por várias vezes, bebeu mais do que devia, com os amigos da mesma idade. Da última vez, foi pego porque os pais instalaram, sem que ele soubesse, um aplicativo de "parental control" em seu computador, para descobrir por onde ele andava. "Quando tinha minha idade, meu pai foi morar com um tio, no norte da Itália, e aprontou bastante. Não vejo motivos para ele investigar minha vida", justifica-se, rindo. À parte o cinismo, os bloqueadores de acesso a certos sites da internet tornaram-se grandes aliados dos pais.

Certas situações parecem saídas de filmes como "Blade Runner". Há pouco tempo, uma empresa britânica vendia jaquetas com GPS embutido e bateria de 15 horas, muito útil para o caso de o filho replicante dormir fora de casa. Era possível seguir seus deslocamentos através do Google Earth, com indicações precisas de latitude e longitude. A jaqueta chegava a custar 780 libras, mais 20 mensais pela taxa do serviço. Total: mais ou menos R$ 2.100.

Os fabricantes, contudo, acostumados a produzir acessórios para militares e empresas de segurança, não tinham considerado que adolescente, em geral, costuma largar ou esquecer suas coisas. Assim, muitos pais tiveram prejuízo com seu investimento em espionagem tecnológica e a jaqueta deixou de ser fabricada. De olho nesse mercado, a mesma empresa resolveu diversificar e está investindo em uniformes escolares feitos em kevlar, uma fibra sintética resistente a esfaqueamentos, prática crescente entre os jovens problemáticos ingleses. "Em pouco tempo, os pedidos dobraram", contabiliza o gerente da empresa.

Mea culpa

A vigilância high-tech sobre os filhos é um mercado que cresce na mesma proporção em que cresce a incapacidade dos pais em pensar soluções melhores para o problema. "Nenhum filho gosta de ser vigiado", diz a psicóloga Lucia Grecco. "Os pais deveriam estabelecer acordos claros com eles, e não enveredar pelo caminho fácil de comprar-lhes proteção ou de saber deles através de meios tecnológicos". Ela cita Giacomo, aquele que foi flagrado pelos pais no meio de uma bebedeira. "Eles instalaram um dispositivo de vigilância em seu computador, mas muitas vezes nem se deram conta de que ele chegava bêbado em casa", aponta.

É possível que, no caso da garotinha inglesa Madelaine McCann, desaparecida em Portugal, há quase três anos, um aparelho como o child tracker pudesse ter ajudado. Quando a criança se afasta de uma área determinada, ele emite um sinal. De qualquer forma, episódios como esse não deveriam levar a uma busca paranóica de parafernália eletrônica.

Par a professora Grazia Dell’Acqua, os pais de nossos tempos estão diante de uma elaboração idealizada de família, muito consenciosa, em que os pais não são pais, mas companheiros de aventura dos filhos. "Livraram-se do modelo patriarcal de família, e não colocaram nada no lugar. Muitos se sentem culpados por estar sempre fora de casa, e por ter medo de enfrentar o conflito com os adolescentes", explica.

Enquanto isso, aenta a não perder o filão dos pais desesperados e com dinheiro para gastar, a fábrica de material militar, aliás, de apetrechos para a garotada, adverte, em seu site: "Cuidado com imitações baratas".

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