Jovens garotas vencem em feira do Google

Jovens garotas vencem em feira do Google

Atualizado: Quinta-feira, 28 Julho de 2011 as 11:15

Quando era ainda aspirante a inventora e cientista, Shree Bose tentou fazer espinafre azul na segunda série. Na quarta série, construiu uma lata de lixo guiada por controle remoto. Na oitava, inventou um dormente de estrada de ferro feito de plástico reciclado e poeira de granito – conquista que a levou a ficar entre os 30 melhores em uma competição nacional de ciências para estudantes do ensino médio.

No segundo colegial, Bose, uma garota de 17 anos em Fort Worth, atacou o câncer de ovário e essa pesquisa a fez ganhar o grande prêmio e US$ 50 mil na Feira de Ciências do Google, na semana passada.

Para a pesquisa vencedora, Bose focou em um medicamento de quimioterapia, a cisplatina, que é normalmente tomada por mulheres que tenham câncer no ovário. O problema é que as células do câncer tendem a adquirir resistência à cisplatina com o passar do tempo, e Bose procurou encontrar uma maneira de contra-atacar essa tendência.

Ela descobriu a resposta em uma proteína celular energética conhecida como AMPK, ou proteína quinase ativada por amp. Ela observou que a AMPK era pareada com a cisplatina no começo do tratamento e a combinação diminuía a eficácia da cisplatina. Mas quando adicionada mais tarde, quando as células cancerígenas já estivessem se tornando resistentes, a AMPK trabalhava para manter a eficácia da cisplatina, permitindo que ela continuasse matando células malignas ao menos nas culturas celulares em laboratório.

“Isso abriu muitas novas avenidas para a pesquisa”, diz Bose. Sua pesquisa foi supervisionada pela Dra. Alakananda Basu do Centro de Ciência da Saúde, na Universidade do Norte do Texas, em Forth Worth.

Mais de 10 mil estudantes de 91 países se inscreveram na feira de ciências, que a foi a primeira do Google. As inscrições, submetidas pela internet, foram reduzidas a 60 semifinalistas e depois, a 15 finalistas, que apresentaram suas descobertas a um júri no sede do Google no Vale do Silício, na semana passada.

A pesquisa de Bose foi nomeada a melhor na categoria de 17 a 18 anos e a melhor da mostra no geral. Seu prêmio inclui US$ 50 mil para estudos de faculdade, uma viagem de 10 dias para as ilhas Galápagos e uma outra viagem para visitar o laboratório de física de partículas CERN, na Suíça.

As garotas varreram os prêmios das três categorias de idades da competição, um contraste com as gerações passadas, quando as mulheres eram largamente excluídas do mundo da ciência.

“Pessoalmente, acho isso incrível, porque durante toda a minha vida ouvi que a ciência era um campo masculino”, diz Bose.

“Isso apenas começa a mostrar que as mulheres estão colocando um pezinho na ciência e estou empolgada de poder representar talvez uma pequena parte nisso”. Ela vai começar seu último ano de colegial no terceiro trimestre do ano.

“No final, estamos com o sentimento de 'Yeah, poder feminino!”, diz Naomi Shah, de Portland, Oregon, que venceu a categoria etária de 15 aos 16 anos, com um estudo sobre os efeitos da qualidade do ar em pulmões, particularmente nas pessoas que tenham asma. Shah recrutou 103 'cobaias’ para testes, realizou medições de qualidade do ar 24 horas por dia em suas casas e locais de trabalho e fez com que cada um assoprasse em um aparelho que media a força da respiração.

Lauren Hodge de Dallastown, na Pensilvânia, venceu a categoria de 13 a 14 anos, por pesquisar se marinadas podem reduzir a quantidade de compostos causadores de câncer, produzidos pelo ato de grelhar a carne. Ela descobriu que suco de limão e açúcar mascavo cortam drasticamente o nível de cancerígenos, enquanto molho de soja os aumenta.

Vint Cerf, vice-presidente de ideias e novos projetos do Google e um dos juízes, disse que o sexo não teve papel algum na escolha dos vencedores.

“Essa foi uma avaliação neutra para gênero, de todo o trabalho que foi feito”, diz ele. Mesmo assim, “Eu fiquei secretamente muito feliz de ver isso acontecer”, diz Cerf. “Isso é apenas um lembrete de que as mulheres são completamente capazes de fazer o mesmo trabalho, ou um trabalho de melhor qualidade, que os homens”.

As mesas do gênero não estão inteiramente viradas entre os cientistas novatos. Hoje em dia, os competidores em feiras de ciências estão bastante divididos entre rapazes e garotas, disseram tanto Bose quanto Shah, e nove dos 15 finalistas da Feira de Ciências do Google foram rapazes.

“Eu acho que isso foi, tipo, pura coincidência”, comentou Shah sobre a hegemonia feminina, “porque todos os 15 finalistas tinham grandes projetos”.

Talvez desmentindo um pouco a noção de que os estudantes dos Estados Unidos estejam ficando para trás em ciências, os americanos dominaram as colocações mais altas. Os três projetos vencedores foram americanos, como também o foram três quartos dos finalistas. E quase 60 por cento das inscrições vieram de americanos.

Cerf diz que uma característica em comum entre os finalistas foi que todos haviam explorado entusiasticamente a ciência durante anos, com o encorajamento dos pais.

Para Bose, foi o espinafre azul que a fez começar. “Eu realmente havia decidido que as crianças não queriam comer vegetais porque eles eram verdes, então a minha fantástica ideia para a feira de ciências foi transformar o espinafre em uma planta azul”, lembra-se.

Ela repetidamente injetou corante culinário azul em uma planta de espinafre e, algumas semanas depois, levou para a escola um vegetal murcho e manchado – ela havia se esquecido de regá-lo – e explicou que as crianças comeriam espinafre alegremente se ele pelo menos fosse azul.

“Parece um estranho começo, mas depois daquilo eu percebi que ciência é legal, e é uma coisa que eu quero fazer”, diz Bose, que espera conseguir um doutorado e uma graduação em medicina, para que possa tratar pacientes e pesquisar novas curas, ao mesmo tempo. “E de lá pra cá, tem sido cada vez melhor”.

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