Jovens se preocupam mais com a profissão do que com o vestibular

Jovens se preocupam mais com a profissão do que com o vestibular

Atualizado: Sexta-feira, 15 Abril de 2011 as 10:31

Para um adolescente, vestibular significa rito de passagem. É o primeiro momento em que ele enfrenta, para valer, a concorrência do mundo lá fora. A geração atual encara esse fenômeno de maneira um pouco diferente da anterior. Antigamente, o que importava era passar e, com isso, mostrar para pais, professores e colegas do que se era capaz. Por isso, muitos adolescentes escolhiam o curso não apenas visando à carreira, mas sobretudo em função do status da faculdade. Havia mais mérito em ser aprovado num curso de medicina, concorridíssimo, do que em um de letras, em que as vagas geralmente sobravam. Era altíssimo o índice de jovens que se arrependiam depois e mudavam de faculdade.

O adolescente ficou mais pragmático. Informa-se melhor sobre a carreira desde o colegial. Escolhe mais em função das chances de ascensão profissional e menos pelo glamour da profissão. Alguns chegam ao requinte de decidir por um curso tendo como parâmetro as possibilidades de pós-graduação. "Pelo nível de informação que recebe, o adolescente amadurece mais cedo e tem uma visão de mundo mais ampla", afirma o professor José Coelho Sobrinho, um dos coordenadores da Fuvest, entidade responsável pelo vestibular da Universidade de São Paulo. "Os jovens da minha geração só conheciam medicina, engenharia e direito."

Sandra Garrido, paulistana de 18 anos que prestará o vestibular para publicidade nos próximos meses, é um típico exemplo da postura da nova geração. Antes de escolher a faculdade, visitou várias. Deixou de lado as públicas, que tinham mais renome, e optou por uma particular, mais voltada para o mercado e com laboratórios mais modernos. "A universidade pública se apóia no passado e às vezes não tem noção do que está ocorrendo hoje", acha Sandra. Desde antes do vestibular, a profissão é uma das maiores preocupações do adolescente. Pesquisas apontam que a maior fonte de felicidade para o jovem não é o dinheiro nem o amor. O sucesso profissional é o que conta para 47% deles.

Grande parte dos jovens é obcecada por informações sobre carreiras e cursos. Os colégios estão percebendo isso. Muitos promovem visitas guiadas a faculdades e locais de trabalho. Tudo para atender a essa demanda. "A escola ficou muito mais cara, e seus usuários são cada vez mais exigentes", diz Mauro de Salles Aguiar, diretor do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, que oferece esse tipo de serviço aos alunos.

Seria ingênuo, no entanto, achar que os adolescentes dificilmente erram na escolha da profissão ou trocam de faculdade. "Escolha profissional é questão de maturidade, e aos 18 anos o jovem pode ou não estar preparado", acha o professor Coelho. Há vários fatores que atrapalham. Um deles diz respeito à forma de testar o conhecimento. O vestibular permanece sendo um modelo que concentra a avaliação de anos de estudo num único fim de semana. Basta uma dor de cabeça ou uma noite maldormida para colocar tudo a perder. Outro motivo está ligado à oferta de cursos, que é muito variada e acaba gerando dúvida e confusão. Há ainda um problema relacionado à estrutura da universidade, que não ajuda quem erra e quer mudar de curso. "As faculdades americanas e européias oferecem em geral os dois primeiros anos básicos, jogando a especialização para mais adiante", lembra Ruy de Mathis, psicoterapeuta que há 23 anos promove testes de orientação vocacional. "No Brasil, o adolescente só tem uma bala na agulha: ou erra ou acerta."É exatamente por essa razão que uma boa dose de angústia resiste, ainda que num grau menor do que antigamente.

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