Jovens se prostituem por crack e dinheiro

Jovens se prostituem por crack e dinheiro

Atualizado: Segunda-feira, 30 Maio de 2011 as 1:10

Todo mundo vê, mas quase nada é feito para evitar: adolescentes viciadas em crack entregam-se sexualmente nas ruas por R$ 20 a R$ 30. O dinheiro entra rápido no bolso de traficantes ou cafetões. São redes do sexo fortalecidas pela falta de prevenção ou ação. Cenas que tornaram-se banais.

A noite começa a cair na Comunidade Chico Mendes, parte continental de Florianópolis. O bairro é um dos que mais sofrem com a violência na Capital. A menina de 16 anos se prepara para sair de casa. Leva no bolso apenas um isqueiro e alguns trocados.

São 21h e ela aparece na Rua Gerôncio Thives, em São José, a poucos quarteirões dali. O movimento é grande na saída do shopping e nos pontos de ônibus.

A via tem um posto da Polícia Militar e também câmeras de vigilância eletrônica instaladas. Mas os policiais parecem ter se acostumado com a presença das meninas.

De moletom surrado e calça jeans baixa, a morena que sonha ser pediatra segue pela calçada. Exagera nos anéis nas duas mãos. Não abre mão das pulseiras nem da correntinha no pescoço.

Basta o primeiro carro apontar, diminuir a velocidade e o motorista baixar o vidro para ela deixar de lado qualquer inocência. O jeito frágil, então, contrasta com o aspecto falante e a vivência na área.

Enquanto busca clientes, que não tardam a chegar, a menina conta: acabou de fumar pedra. E foi mais de uma. Mas não admite ser viciada. Diz que o dinheiro que ganha vai também para comida, roupas e para o aluguel do quarto onde mora.

De dia, comércio. À noite, prostituição

De dia, a Gerôncio Thives é ponto de comércio, com bares e lojas. À noite e de madrugada, de prostituição infantil, comércio, consumo de droga e de cafetões - homens ou mulheres que tiram proveito da "atividade" de meninas e adultas, que também marcam presença. Não há notícia da ação policial por ali.

- Muitas gurias têm cafetão. Eu não tenho - diz a garota, desinibida e entediada com a rua vazia no passar das horas.

A região é conhecida como submundo do sexo e também como a área das casqueiras (como são chamadas as usuárias de crack). A exploração sexual e as drogas não são os únicos problemas. Há risco de violência, pois em busca de dinheiro algumas das meninas costumam cometer pequenos furtos de clientes (carteiras ou celulares) para, em seguida, trocar por crack.

A adolescência roubada das garotas do mundo do sexo pago segue pela noite de São José na Avenida das Torres, no Bairro Roçado. E também na Josué di Bernardi, no Bairro Campinas.

Há lugares ainda em beira de rodovias. Há casos em que termina em tragédia. Foi assim com a menina Renata de Souza Geremias, 11 anos, assassinada na noite de 13 de maio, em Tijucas, na Grande Florianópolis, por um homem que lhe ofereceu carona.

A garota costumava ficar na entrada da cidade e perto da BR-101, onde era explorada sexualmente em troca de R$ 30. As abordagens do Conselho Tutelar e da polícia até aconteceram, mas não impediram que voltasse às ruas.

A maioria das crianças e adolescentes retorna aos pontos impulsionada pelo vício da droga ou porque a família é desestruturada, evidenciando a problemática nesse tipo de atendimento. Se pegos, homens que saem com essas garotas com menos de 18 anos podem ser autuados em flagrante por exploração sexual de menores.

O que dizem

Conselho Tutelar

A reportagem conversou na sexta-feira com duas conselheiras tutelares de São José. Elas não quiseram se identificar. Ambas disseram ter conhecimento da exploração sexual infantil na Rua Gerôncio Thives. Uma das dificuldades relatadas é o limite geográfico com Florianópolis e a competência para agirem. Isso porque algumas adolescentes ficam na rua em São José, mas moram em Florianópolis, onde, segundo elas, o atendimento à família deve ser feito. Disseram ainda que a maioria das garotas não quer se tratar

Polícia Militar

O comandante do 7º Batalhão da PM em São José, tenente-coronel Paulo Romualdo Weiss, garantiu que a corporação tem atuado no combate à exploração sexual e que a implantação da Delegacia da Mulher na cidade melhorou o atendimento dos casos. Ele afirmou que as garotas migram de locais, o que dificulta a fiscalização. Weiss disse que a existência de câmeras tem ajudado. São nove em funcionamento e outras 21 devem ser ativadas. Espera que até o final do ano 60 estejam instaladas.

Polícia Civil

Assim como a promotora Priscilla Linhares, a delegada regional de São José, Sandra Mara Pereira, disse que faltam políticas públicas na área e que o atendimento social deixa a desejar, principalmente de apoio às famílias. Indagada dos cafetões e traficantes, reconheceu dificuldade da polícia em agir porque as adolescentes não costumam colaborar com informações dos exploradores. "Elas têm medo", lamenta, informando que a Polícia Civil está fazendo um levantamento sobre os locais na cidade e fará um estudo dos casos antes de atuar.

Assistência Social

O secretário de Assistência Social, Paulo Roberto Vieira, afirmou que é equivocada a suposta ausência de ações públicas contra a exploração sexual infantil em São José. Disse que há programa de atendimentos com instituições conveniadas. Viera negou a existência de impasse geográfico com a Capital como dificultador do atendimento. Segundo ele, os conselhos tutelares devem trocar informações. Vieira anunciou a criação, até agosto, de uma casa de passagem para jovens com psicólogos e assistentes sociais, numa parceria com o governo federal.

Por: Diogo Vargas

veja também