Marcelo Adnet: "não dá para fazer uma lei de humor"

Marcelo Adnet: "não dá para fazer uma lei de humor"

Atualizado: Terça-feira, 20 Setembro de 2011 as 8:48

Marcelo Adnet é um artista completo: atua, canta, faz piadas e, inclusive, dubla. Em “O Zelador Animal”, comédia que estreia no dia 7 de outubro, o comediante da MTV interpreta as vozes de cinco personagens. E ele adorou o desafio: “tem que compor o personagem todo, como no cinema ou no teatro”, conta.

Um desavisado que conversar com o comediante Marcelo Adnet pela primeira vez talvez nem perceba que está perante um dos principais nomes do humor brasileiro atual. Sério e pontual, Adnet responde às perguntas com calma e simplicidade, focando sempre no trabalho e, quando o assunto é pessoal, demonstra aspirações do tipo “viver muito e construir uma família”.

Em meio a um turbilhão de rumores a respeito do futuro profissional – boatos dão conta de que ele e a esposa Dani Calabresa estariam com tudo certo para assinar com a Rede Globo e que SBT e TV Bandeirantes também estariam no páreo -, a assessoria do artista faz questão de passar o recado antes que a entrevista comece: ele não vai falar sobre nada disso.

Se os próximos passos a serem dados na carreira são assunto proibido, Adnet não titubeia para falar sobre os limites do humor e qual o papel da sociedade em caso de discordâncias. “O humorista tem a liberdade de expressão e o público a liberdade de reação”, diz antes de completar: “não dá para fazer uma lei pro humor”.

Confira o que rolou de melhor na entrevista:

iG: O que achou da primeira experiência como dublador?

Marcelo Adnet: Achei muito legal. A gente acha que vai fazer uma voz, mas você vê que se fizer só uma voz, está frito. Os personagens passam por momentos muito diferentes, então, na verdade, não é achar uma voz, é achar um personagem que tem uma voz. Tem que compor o personagem todo, como no cinema ou no teatro, e dominar todas as reações e ruídos que ele faz.

iG: E com qual animal você se identifica mais: o gorila, o leão, o macaco, o elefante ou o urso?

Marcelo Adnet: Me identifico mais com o gorila porque ele é o que faz uma curva mais drástica. Ele está em depressão, abandonado, e é ele quem acaba tendo a maior noitada de todos os animais também. Ele é muito humano.

iG: Você atua, canta, dubla, faz piada... sapateia também?

Marcelo Adnet: Não, sapatear ainda, não... (risos)

iG: E no que você é melhor?

Marcelo Adnet: É difícil responder isso, acho que cada trabalho tem um direcionamento. Dá para fazer uma dublagem muito boa, mas, vai que eu pego um personagem grande, que seja um trabalho mais pesado, talvez não ficasse tão legal. Ou então eu posso cantar uma música que seja o maior sucesso e, de repente, cantar outra que não fique tão boa assim. É um conjunto, é o processo todo. Posso fazer bem e mal todos eles, depende da situação.

iG: Como tem as ideias para seus quadros na TV, como surge a inspiração?

Marcelo Adnet: Eu trago isso do dia a dia normalmente, de uma sensação, uma experiência, uma notícia, alguém que eu conheci. Minha vida pessoal contamina o trabalho, neste sentido, e isso é bom porque nunca é algo que está longe de mim, que eu faça obrigado.

iG: Já aconteceu de você fazer alguma piada baseada em algum amigo e perceberem?

Marcelo Adnet: Isso eu faço sempre, mas perceberem é raro. Geralmente é uma adaptação, uma pequena característica que você aumenta. Mas, sim, já teve muita coisa que você se inspira em amigos e pessoas próximas.

iG: O que você acha que não pode faltar em um programa humorístico de sucesso?

Marcelo Adnet: Em um programa de humor de sucesso não pode faltar uma coisa: graça. Se você for pegar os humoristas que estão mais em evidência no país hoje, o “Zorra Total” faz uma coisa, o “CQC” faz outra, nós, também, na MTV fazemos outra que não é nenhuma das duas. No teatro tem o stand up; os palhaços também têm espaço. O que tem em comum em todos nós? Talvez seja a graça, o fato de alguém achar isso engraçado.

iG: Você se identifica mais com qual tipo de humor?

Marcelo Adnet: Eu me identifico, pessoalmente, mais com o que a gente chamaria de “humor cabeça”, com alguma construção, alguma crítica política. Mas eu produzo também coisas que eu acho muito legais e outras que eu não me amarro muito, mas que as pessoas possam gostar. Tem esse bom senso de saber que o gosto das pessoas é diferente do seu. “Gaiola das Cabeçudas”, por exemplo, que é um funk intelectual. Para mim era uma ideia meio óbvia, mas eu falei: “as pessoas vão adorar”. É funk, tem apelo. Eu sou um pouco mais para o humor político, um humor de sutilezas, de tempo, de pausa. Mais isso do que o humor metralhante, torta na cara.

iG: Quais são seus ídolos no humor?

Marcelo Adnet: Meus ídolos no humor são: “Monty Python”, Chico Anysio, Jô Soares, “TV Pirata” e Peter Sellers.

iG: Em casa com a Dani ou no bar com os amigos você é tão elétrico quanto na TV?

Marcelo Adnet: Menos, um pouco, porque quando você trabalha com uma coisa, a tendência é desacelerar quando chega em casa para equilibrar. Se não eu estaria zureta, caindo. Mas eu e Dani nos divertimos muito, a gente também é muito amigo um do outro. A gente faz tudo junto, passa por todas as fases.

iG: Dois humoristas morando junto, quando vocês falam sério?

Marcelo Adnet: Quando diz respeito a planejamento, conta para pagar, decisões sérias a se tomar, prazo, trabalho, arrumação da casa...

iG: Quem arruma a casa?

Marcelo Adnet: Nós dois, ela é mais cuidadosa, mais detalhista e eu sou mais bruto, pego mais no pesado. É um equilíbrio que a gente achou.

iG: E quem manda na relação?

Marcelo Adnet: Mais ela do que eu! (risos). Estou brincando, quer dizer, na verdade eu acho que é mais ela do que eu, sim. A gente está sempre cedendo e isso é bom, não fazer tudo o que você quer. É uma parceria.

iG: Qual o limite do humor?

Marcelo Adnet: Acho que não existe exatamente um limite, cada um tem um limite diferente, acho que é muito difícil imaginar o que vai ofender um ou outro. É muito delicado. O que eu acho que é uma regra justa é o seguinte: o humorista tem a liberdade de expressão e o público a liberdade de reação. Se um setor da sociedade não gostou de uma determinada coisa, acha que aquilo é grave, ele tem o direito de reagir, de entrar na justiça, de discutir. O criador daquilo que gerou a discórdia tem que aceitar essa discussão, tem que botar a cara a tapa nem que seja para dizer que não concorda. Para mim não tem regra, qual o limite? Não dá para fazer uma lei pro humor, pode isso, não pode aquilo. Você pode tudo a princípio, o seu bom senso traz o equilíbrio.

iG: O que é o humor para você?

Marcelo Adnet: Hoje em dia o humor tem um papel muito maior do que já teve. Acho que o humor era uma válvula de escape, algo de diversão, leveza, para relaxar. Hoje, além dessa função da graça, o humor ganhou um papel maior de denúncia ou até uma forma de discutir. Você pode usar o humor como uma forma para tornar uma coisa atraente. O humor é mais do que simplesmente a graça, ele é uma embalagem que torna as coisas atraentes. A publicidade usa o humor para as pessoas olharem mais para ela, o professor de cursinho, usa o humor para os alunos decorarem a matéria.

iG: Qual seria, hoje, seu maior sonho?

Marcelo Adnet: Meu maior sonho, hoje, é viver muito, viver bem e construir uma família. É virado bem para o pessoal.

iG: Pensando no jovem que aspira fazer suas próprias piadas e fazer sucesso, que dicas você dá?

Marcelo Adnet: Tem que ter personalidade, não adianta querer imitar alguém. “Eu vou ser que nem fulano”, ninguém é “que nem” ninguém. Os programas de humor são tão variados que você tem possibilidades em tudo, não tem uma fórmula exata. Tem que acreditar na personalidade, no seu estilo, e não desistir. É, sim, muito difícil: as coisas demoram a acontecer, tem muita pedra no caminho. O humor é uma pequena visão de mundo de cada um, você carrega e sublinha isso, que é único. Para fazer humor, você tem que primeiro viajar para dentro, para depois poder colocar isso para fora.

iG: Você acha que a fama é algo a se buscar?

Marcelo Adnet: Para mim, pessoalmente, não. Hoje em dia tem até uma coisa engraçada que é essa “profissão: famoso”. Você participa de um reality show ou é jurado de um quadro na TV e aparece em revistas de fofocas, é convidado para ir a um resort e ganhar uma cafeteira se você tirar umas fotos lá. Tem gente que se agarra nisso. Eu não estou nenhum pouco voltado para isso. Estou voltado para o trabalho. Sucesso, sim. Eu não colocaria tudo no mesmo pacote.    

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