Marcelo Bastos: “Não existem boas pistas de skate no Brasil”

Marcelo Bastos: “Não existem boas pistas de skate no Brasil”

Atualizado: Sexta-feira, 11 Maio de 2012 as 3:04

Atualmente, o Brasil é um grande exportador de skatistas, com medalhas e troféus em quase todas as categorias. Mas ainda assim, muitos iniciantes e até mesmo profissionais continuam reclamando da falta de infraestrutura para a prática do esporte no país. “Não existem boas pistas de skate no Brasil”, diz o campeão da modalidade vertical Marcelo Bastos, em entrevista ao iG.

Mas nem por isso o paulistano de 25 anos deixou de se consagrar duas vezes campeão do Rio Vert Jam, em 2010 e 2011, deixando para trás feras como Bob Burnquist e Sandro “Mineirinho” Dias. A edição 2012, ele não teve a chance de vencer porque as finais do campeonato foram canceladas devido à chuva. “Fiquei bem frustrado. Estava com uma expectativa alta de defender o título, passei a semana inteira no Rio treinando”, conta.

Antes de se dedicar ao skate, Marcelo velejava. “Competir dentro de um barco, tendo que planejar o percurso e perceber a água à sua volta é uma experiência de vida”, conta. Aos 15 anos de idade, Marcelo se preparava para mudar de classe na vela, quando um amigo lhe apresentou o skate. “Fiquei louco por aquilo. Fui andando, evoluindo, e quando eu percebi, estava competindo em nível profissional, disputando campeonatos com os meus ídolos”, lembra o atleta.

O próximo passo foi ir morar fora. Aos 19 anos, Marcelo deixou de lado a ideia de fazer faculdade e se mudou para San Diego, nos Estados Unidos. “Estava procurando novos desafios, e queria conhecer as rampas da Califórnia. Me joguei para lá”, diz.

A experiência durou quase quatro anos - hoje ele vive em São Paulo -, mas deu ao skatista uma consciência sobre a prática do esporte no Brasil. “Chega uma hora que o atleta sente que as rampas brasileiras não deixam ele evoluir, e ele precisa ir para fora para crescer”, disserta.

Na entrevista a seguir, Marcelo Bastos fala sobre competir com seus ídolos e a dificuldade de se manter sem patrocínios. “Uma marca pagar R$ 300 por mês para patrocinar um atleta é algo ridículo. É menos que um salário mínimo”, reclama Marcelo. Confira:

iG: O que sentiu quando não pode disputar o Rio Vert Jam em 2012?
Marcelo Bastos: Fiquei bem frustrado. Estava com uma expectativa alta de defender meu título, passei a semana inteira treinando no Rio. Choveu, não quiseram adiar o campeonato e acabou assim desse jeito. E não sei nem se vai rolar o campeonato no ano que vem. É uma pena.

iG: Em 2011, seu pai desabafou na TV sobre você não ter patrocinadores. Hoje você tem? 
Marcelo Bastos: Estamos trabalhando nisso. Hoje tenho alguns apoios, mas é bem difícil. A parte mais complicada é o dia a dia: você tem que viver vendendo o almoço para pagar a janta. Graças a Deus, alguns campeonatos tem uma premiação boa, e isso ajuda a aliviar a situação, mas é bem complicado. Nornalmente, a conta fecha no final do mês, mas é bem difícil.

iG: Você acha que faltam políticas de incentivo ao skate no Brasil?
Marcelo Bastos: Acho que faltam pistas, e incentivo das marcas de skate com os skatistas. A parte pública, se puder ajudar, é interessante, fazendo pistas apropriadas para a galera andar. E as marcas não ajudam nada do jeito que elas fazem. Uma marca pagar R$ 300 por mês para um skatista de ponta correr campeonatos mundiais é ridículo. É menos que um salário mínimo, não paga nem um bom convênio de saúde.

iG: Aos 19 anos, você foi morar em San Diego para praticar o skate. Como foi essa experiência?
Marcelo Bastos: Na época, eu estava há alguns anos já correndo como amador, ganhando alguns campeonatos no Brasil e procurando novos desafios. Queria conhecer as rampas da Califórnia e me joguei para lá. Ter morado sozinho aos 19 anos foi muito bom. Tive que lavar minha roupa, cozinhar e limpar a casa, tudo sozinho, sem mãe por perto para ajudar.

iG: O que você acha da situação das rampas no Brasil? 
Marcelo Bastos: Não existem boas pistas no Brasil. Só particulares - eu ando na pista do Roni Gomes, em Atibaia, que é perfeita. Tem um momento que o atleta acaba conhecendo alguém que tem uma rampa boa, ou ele sente que as rampas brasileiras não deixam ele evoluir e precisa sair do país para crescer no esporte.

iG: Você faz parte de uma geração diferente da do Bob Burnquist e do Sandro “Mineirinho” Dias. Como é competir e conviver com esses caras?
Marcelo Bastos: Sou de uma geração depois deles, e acho que o pioneiro da minha turma. Fui um cara que desbravou e pôs a cara para bater, e comecei a correr junto com eles. Não estou perto da qualidade do Bob e do Sandro, eles tem muitos anos de experiência, mas se trata de uma competição. Às vezes, tem dias que a gente está melhor do que os outros. Mas é algo tranquilo. Nós andamos juntos, de igual para igual, e ajudamos uns aos outros. Poder estar na mesma pista que eles e caras como o Danny Way andam é a melhor coisa do skate para mim.

iG: Você disse certa vez que odeia ganhar uma competição na qual todo mundo anda mal. Como assim?
Marcelo Bastos: Não é verdadeiro se você ganha uma competição todo mundo errou. É como se você tivesse dado sorte. Gosto de ver todo mundo andando bem para a competição ter um alto nível e aí sim a vitória valer a pena.

iG: Você não fez faculdade para se dedicar ao esporte. Valeu a pena?
Marcelo Bastos: O sentido da vida é fazer o que você gosta. Amo andar de skate, então valeu a pena. Estudar é algo que eu posso fazer depois, mas penso em fazer faculdade sim. Poderia fazer um monte de coisas, de Gastronomia a Engenharia. Só me falta tempo. Andar de skate e fazer faculdade é inviável.

iG: Que dicas você dá para quem está começando a andar de skate?
Marcelo Bastos: Não pense em patrocínio. A galera que hoje começa a andar de skate já sai pensando em patrocínio. Não! Dê valor à diversão e ande de skate porque você gosta. Se você gosta mesmo de skate, você nunca vai parar, independentemente de ganhar com aquilo ou não.

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