Meninas são presença cada vez mais marcante nas gangues de adolescentes do DF

Meninas são presença cada vez mais marcante nas gangues de adolescentes do DF

Atualizado: Terça-feira, 15 Junho de 2010 as 8:46

É típico da juventude andar em grupos. Jovens das mais diferentes classes sociais se mantêm unidos pelos mais diferentes motivos: interesses parecidos, proteção, segurança, aceitação, prestígio, adrenalina, jogos de conquista. No Distrito Federal, os grupos que tendem a se formar na adolescência confirmam a tendência histórica de se transformarem em gangues. Não são raros os integrantes de galeras que se aproximam da violência e da criminalidade. Em comum, existe a busca por espaço na sociedade. E esse universo, que antes era restrito aos meninos, cada vez mais começa a ser território das garotas.

O estudo do fenômeno deu origem ao livro Gangues, gênero e juventude: donas de rocha e sujeitos cabulosos. Patrocinada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a primeira pesquisa científica realizada na América Latina sobre o tema abordou as condições sociais e os conflitos vividos por esses jovens. "Existem grupos do bem e do mal. Muitos praticam crime. Mas são meninos e meninas que querem visibilidade na sociedade", revela a coordenadora do trabalho, a socióloga Miriam Abramovay.

A publicação foi editada pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) - da qual Miriam é integrante -, em parceria com a Subsecretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Snpdca) e a Central Única das Favelas (Cufa). O estudo é baseado em entrevistas feitas com 73 participantes de 13 gangues da capital federal. Foram cerca de 150 horas de conversas, realizadas de 2007 a 2010, com garotos e garotas moradores de todas as regiões administrativas do Distrito Federal.

Durante o período em que desenvolveram o trabalho, os pesquisadores tiveram a oportunidade de acompanhar o cotidiano das galeras, a maioria de cidades dos arredores do Plano Piloto. Entre frevos (festas), guerras (brigas), pichações e debates na internet, os pesquisadores perceberam que as meninas enfrentam mais resistência e desconfiança para comprovar coragem e lealdade diante dos demais. "Elas conseguem hoje ter um papel nas gangues, mas não uma liderança maior. As meninas, em geral, não picham. As que o fazem são reconhecidas pelo meninos, apesar de a letra delas ser desvalorizada", explica Miriam.

Políticas públicas

O próprio vocabulário das gangues revela a condição de submissão por parte das adolescentes. De cinco representações para as garotas levantadas ao longo de Gangues, gênero e juventude: donas de rocha e sujeitos cabulosos, quatro são depreciativas (Leia arte). Poucas são denominadas, pelos meninos, como destemidas e confiáveis. A maioria delas acaba diminuída e é taxada como traidora, desleal e fácil.

Para Max Maciel, coordenador-geral da Cufa, é preciso investir em políticas públicas para incentivar esses adolescentes a deixarem o mundo das gangues. Segundo ele, não existem, hoje, mecanismos capazes de reconhecer o potencial desses meninos e dessas meninas. "Falta profissionalização para a juventude. É importante legitimar os espaços públicos das cidades. Às vezes, eles passam por delinquentes juvenis, mas não são. E, quando resolvem sair desse contexto, faltam alternativas", avalia Maciel, que também participou da elaboração do livro.

A subsecretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carmen Oliveira, também destacou a necessidade da criação de espaços e incentivos para a juventude envolvida com a criminalidade no DF. "Não basta oferecermos oficinas. O que eles querem é ter voz", aponta. Por enquanto, é cada vez maior a relação entre gangues e violência. Um mapeamento feito, em 2009, pela Divisão de Inteligência da Polícia Civil revelou que existem sete gangues em São Sebastião, seis em Planaltina, duas em Taguatinga Norte e outras duas no Setor Sul do Gama. Todas com histórico de roubo e homicídio.

Por: Guilherme Goulart

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