"Meu irmão usa drogas, e agora?"

"Meu irmão usa drogas, e agora?"

Atualizado: Segunda-feira, 1 Novembro de 2010 as 2:58

Juliana* tinha 18 anos quando viu seu irmão Cláudio*, de 16, se tornar um garoto agressivo, impaciente e desrespeitoso. Começou a faltar na escola, chegar tarde em casa, se distanciou dos bons e velhos amigos e adotou um tom rude com os familiares. Para a irmã, "ele já não tinha os mesmos olhos". Ainda que as mudanças pudessem ser reflexo da passagem pela adolescência, a família – que mora no interior de São Paulo – começou a desconfiar de que algo mais pudesse estar acontecendo.

Logo veio a constatação – e a dúvida. "Meu irmão está usando drogas, e agora?". A pergunta que passou pela cabeça de Juliana* é comum a milhares de outros jovens. A semelhança com o drama sofrido pelo personagem interpretado por Kayky Brito, o Sinval da novela Passione, irmão do jovem usuário de drogas vivido por Cauã Raymond, não é coincidência. Casos reais como o de Juliana* e Cláudio* são mais recorrentes do que se imagina.

Prova disso é o crescente índice de consumo de drogas no país, como revela o Relatório Mundial sobre Drogas 2010, realizado pelo Escrito&s69;rio das Nac&S07;o&s71;es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). De acordo com o levantamento, o Brasil possui cerca de 870 mil usuários de cocaína, com aumento no consumo de 0,4% para 0,7% entre pessoas de 12 a 65 anos. A maconha, droga mais utilizada no país, teve crescimento recente de 1% para 2,6%.

Dedo no gatilho

O uso de drogas frequentemente se inicia na adolescência, quando pesam a pressão dos amigos pela experimentação e, às vezes, a proximidade com o modelo dentro de casa (filhos de pais dependentes de álcool ou outras drogas têm quatro vezes mais risco de se tornarem dependentes). No entanto, o dedo no gatilho para o desenvolvimento do quadro nos adolescentes atualmente parece ser a curiosidade.

De acordo com Dr. Rogerio Shigueo Morihisa, Psiquiatra da Infância e da Adolescência e membro do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Outras Drogas, o que caracteriza a dependência é o padrão de uso da substância, que leva a prejuízos tanto na esfera física, quanto na psicológica e social. Quando o consumo de drogas começa a atrapalhar as atividades do usuário, sua capacidade de raciocínio e o controle sobre o próprio corpo diante da ausência da substância, ele já pode ser enquadrado como viciado.

No caso de Cláudio*, isso veio acompanhado pelo distanciamento completo de sua família, até mesmo de sua irmã e de seus avós, de quem sempre fora bastante próximo na infância. "Ele sempre tratou muito bem nossos avós, mas a partir dessa época ele começou a ficar muito grosso até com eles, não respeitava mais ninguém", conta Juliana*. Ela, como é comum entre irmãos, via a situação acontecer bem de perto.

O papel dos irmãos

O papel da família, da abordagem ao usuário até o tratamento baseado na terapia familiar, é peça fundamental para sua melhora. Por isso, se seu irmão está usando drogas, o primeiro passo é conseguir estabelecer um diálogo. "O mais importante nessa situação é procurar abrir um canal de comunicação com o irmão, ser alguém que escute os possíveis problemas e dificuldades que ele possa estar passando", afirma Dr. Rogerio Shigueo Morihisa. "Criticá-lo ou tentar ser moralista só irá afastá-lo ainda mais do convívio familiar".

Escutar o outro é importante, mas claro que nem sempre as situações são fáceis e lidar. "Depois de uns dois meses usando crack, meu irmão saiu de casa uma sexta-feira não voltou. Pensei que estivesse morto. Por volta das 15h do sábado, ele ligou e falou para eu ir encontrá-lo numa praça com 100 reais, e pediu para eu não chamar a polícia", conta Juliana*. "Ele estava com roupas usadas, descalço e de cabeça baixa. Entreguei o dinheiro para um ‘laranjinha’, e quando estávamos indo para o carro, meu irmão começou a chorar e me pediu ajuda". E ela ajudou.

Em poucas semanas, Cláudio* foi internado em uma clínica de reabilitação onde passou cinco meses sob tratamento. "O tratamento de jovens com abuso ou dependência de drogas deve, inicialmente, visar o reestabelecimento do desenvolvimento normal de sua adolescência, visto que o uso de drogas nessa fase da vida pode desenvolver ‘lacunas’ no processo de maturação biológica e emocional do jovem", afirma Dr. Rogerio Shigueo Morihisa.

Com o apoio da irmã, da família e do tratamento, Cláudio* se livrou completamente do vício pelo crack e está há seis anos limpo. Desde então, voltou a trabalhar, a se relacionar normalmente com o mundo e tem uma filha de oito meses.

Driblando as dificuldades

O valor para a internação de quatro a seis meses em uma clínica particular de reabilitação pode custar de 10 mil a 20 mil reais, o que é inacessível para a maioria dos jovens, a menos que contem com a ajuda dos pais. Uma boa alternativa gratuita, na região de São Paulo, é o Projeto Jovem Samaritano. A clínica tem capacidade para atender cerca de 100 adolescentes por ano, em um período de tratamento que leva de um a três meses, dependendo do caso. Os residentes contam com uma área verde com quadras para recreação, dormitórios individuais, sala de projeção de filmes e outros confortos.

"Cada residente recebe o que chamamos de diário de bordo, que utilizará durante sua passagem pela clínica, onde ele deverá escrever diariamente sobre suas atividades e reflexões sobre o tratamento", conta Reinaldo Antônio de Carvalho, coordenador do projeto. A clínica desenvolve atividades de apoio pedagógico para trabalhar habilidades específicas nos adolescentes; terapias e entrevistas motivacionais, para discutir a relação estabelecida com as drogas; e ações recreativas, que exercem a função de prover ao jovem em um ambiente quase familiar, de forma que ele não se sinta acolhido.

"Como saber se é hora de agir para ajudar meu irmão?"

Apresentar três ou mais critérios listados abaixo indica que existe dependência:

Tolerância (necessidade de aumentar a quantidade da substância usada para obter o mesmo efeito, ou diminuição do efeito com o uso contínuo da mesma quantidade da substância); Abstinência; A substância é usada frequentemente em quantidades maiores ou por períodos maiores Desejo persistente ou tentativas mal sucedidas de diminuir ou controlar o uso; O indivíduo gasta grande parte do tempo em atividades para obter a droga, usá-la ou recuperar-se de seus efeitos; Atividades sociais, profissionais ou recreativas anteriormente importantes são abandonadas ou reduzidas devido ao uso de drogas; O uso da substância é mantido apesar de problemas físicos e psicológicos recorrentes.

Apresentar um dos critérios abaixo indica abuso de drogas:

Uso recorrente da droga resultando em problemas no trabalho, escola ou no lar; ausências, suspensões, indisciplina, ou expulsão da escola; negligência dos deveres do lar, como cuidar das crianças; Uso recorrente de substâncias em situações em que há risco físico (dirigir carro, operar máquinas); Problemas legais pelo uso da substância; Uso persistente apesar de problemas interpessoais ou sociais causados ou exacerbados pelo uso da substância.

* Nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados

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