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"Meu pai está na guerra". Filhos de militares contam suas histórias

"Meu pai está na guerra". Filhos de militares contam suas histórias

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:25

Pesquisa em famílias de combatentes indica que, entre 11 e 17 anos, meninas sentem ansiedade e meninos arrumam brigas no colégio

Cerca de 1,2 milhão de jovens norte-americanos têm um pai ou uma mãe no exército. Desde o início da Operação Enduring Freedom – nome oficial dado pelo governo dos EUA para a resposta militar aos ataques do 11 de setembro de 2001 – mais de 700.000 crianças e adolescentes já passaram pela experiência de viver longe do pai ou da mãe que se encontra em combate em um país estrangeiro.

"Este é o mais longo conflito de todos os tempos", disse Marty McCarty, diretora executiva da Military Community Youth Ministries, no estado do Colorado (EUA). "Se você tem 13 anos de idade, esse período representa mais da metade de sua vida, e você não se lembra de como era tudo antes do 11 de setembro. Na verdade, os jovens estão achando que é normal ter um pai em meio-período".

O número sem precedentes de deslocamento de militares deu início a novas pesquisas sobre como suas famílias vêm lidando com o estresse. Estes estudos dão especial ênfase ao comportamento dos filhos e filhas, muitos dos quais vivem separados de um dos pais por grande parte de suas vidas.

"Vai ter uma avalanche (de estudos). Muitos trabalhos já estão em andamento", disse Shelley Wadsworth, diretora do Military Family Research Institute em Purdue University, estado de Indiana.

Espera-se que os resultados de tais pesquisas mudem a forma como especialistas da área trabalham com os filhos e os cônjuges de militares.

A TriWest Healthcare Alliance – que cuida de famílias de militares em 21 estados do oeste americano – aumentou o numero de profissionais da saúde comportamental de 4.000 para 20.000 nos últimos quatro anos.

Alem disso, cerca de 40 especialistas nacionais se encontrarão na próxima semana, em Washington D.C., para discutir os resultados do principal estudo recente e trabalhar no desenvolvimento de um plano de cinco anos para atender às necessidades das famílias de militares.

Tal estudo, conduzido pela RAND Corp, analisou o bem-estar de 1.500 filhos de militares, de 11 a 17 anos de idade – entrevistando tanto os jovens quanto o cônjuge do combatente.

Apesar de sofreram mais ansiedade do que os meninos, as meninas enfrentaram menos dificuldades na escola e com os amigos. Garotos mais jovens se mostraram mais ansiosos, enquanto os mais velhos experimentaram mais problemas na escola e distúrbios de comportamento – como o envolvimento em brigas.

Joyce Raezer, diretora executiva da National Military Family Association, associação encarregada do estudo, surpreendeu-se com o impacto dos deslocamentos múltiplos. "Eu imaginava que as idas e vindas frequentes seriam mais perturbadoras para os filhos, mas as pesquisas mostraram que ter um dos pais afastado por um longo período de tempo era o mais importante indicador se uma criança estava tendo problemas".

Outro estudo, publicado no mês passado no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, examinou as complexas ligações entre afastamentos cumulativos, o comportamento das crianças e o funcionamento do cônjuge que ficava em casa. O estudo analisou 171 famílias com filhos na idade entre os 6 e os 12 anos. Neste grupo de estudo, o pai ou mãe militar foi deslocado, em média, por mais de duas vezes.

Um terço dos filhos relatou níveis significantes de ansiedade, independentemente do fato do pai militar estar ou não deslocado. "É surpreendente que a ansiedade desses garotos não tenha diminuido após a reintegração", disse Patrícia Lester, autora que liderou o estudo. "Muito disto é atribuído à ansiedade causada pela separação – o fato dos filhos se preocuparem e não saberem quando o pai ou mãe poderia ir embora mais uma vez".

Também foram observadas diferenças de gêneros. As meninas demonstravam mais abertamente suas angústias quando um dos pais estava afastado, mas os meninos tinham mais problemas para se ajustar ao aumento de estrutura e à falta de autonomia quando o pai afastado voltava para casa.

O estudo também confirmou pesquisas anteriores que demonstraram que o bem-estar mental do cônjuge do militar exercia forte influência sobre o comportamento dos filhos. "Uma boa palavra para filhos e cônjuges de militares é complacência", disse Deni Johnson, moradora de Colorado Springs mãe de três filhos e cujo esposo, um tenente-coronel, já foi deslocado três vezes. "Isso não quer dizer que eles gostem disso, mas eles simplesmente se tornam mais fortes e conseguem enfrentar o problema".

"Suas duas filhas, estudantes do primeiro e segundo ciclo, simplesmente arregaçaram as mangas e começaram a cooperar mais em casa", disse ela. O filho mais novo, de 7 anos de idade, "tinha sete meses quando meu marido foi deslocado pela primeira vez. Com o pai vivendo longe por metade de sua vida, ele não conhece outra forma de convívio senão viver com o pai distante. Agora ele já esta em casa por dois anos consecutivos, que é o período mais longo desde que nosso filho nasceu". Seu marido pode ser deslocado pela quarta vez.

É difícil para essa geração de filhos de militares "tentar se encaixar em um tipo de vida normal" quando o pai volta da guerra, disse Johnson, "pois, no fundo de seus pensamentos, eles sabem que só têm alguns meses e logo eles se vão novamente. É quase o mesmo que manter-se de guarda. Quando as crianças estão se acostumando com o pai em casa, lá se vai ele mais uma vez".

Outro impacto nos filhos se mostrou evidente na Military Community Youth Ministries, de Colorado Springs. Trabalhando em geral com crianças na faixa dos 6 aos 12 anos de idade, pela primeira vez a associação abriu um programa para crianças mais jovens. "O objetivo desse trabalho é ajudar as crianças mais velhas", disse McCarty. "Estamos nos dando conta de que muitas delas são responsáveis pelo cuidado dos menores. Eles não podem participar de nossas atividades porque têm de cuidar de um irmãozinho".

Eles também acabaram de lançar um programa piloto com duração de nove semanas para ajudar as crianças a discutirem as questões envolvendo ser um "adolescente militar" nos dias de hoje. "Por mais que os adolescentes de famílias de militares queiram ser garotos comuns, eles não são", disse McCarthy. "Eles demonstram raiva e também culpa. Eles veem o pai como herói, mas também o veem como culpado pela desestruturação familiar.

"A maioria dos filhos dos militares é razoavelmente patriota, mas alguns deles dizem: "Essa vida que eu tenho é culpa do meu pai. Foi ele quem quis lutar, não eu".

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