Microcarro que pode ser dirigido aos 14 vira sonho para jovens e problema para adultos

Microcarro que pode ser dirigido aos 14 vira sonho para jovens e problema para adultos

Atualizado: Terça-feira, 11 Maio de 2010 as 2:08

No país da Ferrari, a lei permite que adolescentes guiem “carrinhos” de parar o trânsito, já aos quatorze anos. Paraíso? Nem tanto...

Os jovens motoristas italianos, que têm permissão para dirigir microcarros já aos 14 anos, estão tendo que colocar o pé no freio. Somente em Roma, três graves acidentes, dois deles fatais, envolvendo adolescentes, criaram uma discussão nacional entre políticos, fabricantes e pais, para repensar a segurança desses veículos e a permissão de dirigir tão cedo.

Os microcarros são o objeto de desejo de todo adolescente italiano. Para fazer bonito num deles, circular nos centros históricos acenando para as meninas e estacionar onde ninguém mais caberia, basta ter uma habilitação chamada “patentino”, para motos e veículos de baixa cilindrada.

Os mini cars viraram febre, também, porque demonstram status. Para dar um de presente ao filho, cada pai tem que desembolsar entre 9 e 15 mil euros (cerca de 20 a 34 mil reais), que é o preço médio de um modelo Aixam. Já um Sonique sai a partir de 12 mil euros, podendo chegar a mais de 16 mil, se vier com acessórios opcionais incluídos.

Fabricados em estrutura de acrílico e alumínio, esses carros dois-lugares possuem 400 ou 500 cilindradas, ou seja, não têm nem a potência nem a velocidade dos carros convencionais, chegando ao limite máximo de 45 km/h. A maioria dos modelos é a diesel. Cada carrinho tem peso médio de 350 kg e pode fazer até 30 km com um litro de combustível.

Medindo a partir de 2,4 m de comprimento e 1,6 m de largura, o microcarro virou motivo de inveja até para os motoqueiros, roubando o espaço deles nos poucos estacionamentos dos centros históricos italianos. Na restritíssima área arqueológica de Roma, por exemplo, onde a circulação de veículos grandes é proibida, é possível estacionar um microcarro com comodidade e de graça porque, além de tudo, os carrinhos têm a prerrogativa de não pagar a “zona azul”.

Carrinho esperto para motoristas espertinhos

O que está provocando o alvoroço geral, entretanto, é que o céu não é o limite para os jovens motoristas italianos. Muitos adolescentes não usam o cinto de segurança e transportam outro passageiro, o que é proibido pelo código italiano de trânsito, para menores de 18 anos.

Além disso, pagando mecânicos por fora ou seguindo sites e vídeos de faça-você-mesmo que pipocam na internet, os adolescentes conseguem modificar o motor de seus mini cars. Basta clicar para ter acesso às instruções.

“Batizados”, os carrinhos chegam a fazer 95 km/h. Evidentemente, o veículo perde a estabilidade e as consequências têm aparecido nos noticiários. Em abril deste ano, uma garota de quinze anos perdeu o controle de seu microcarro e morreu, ao bater de frente contra um ônibus. Dois dias depois, aconteceu outro acidente fatal, desta vez com um jovem de 17 anos. Na semana seguinte, mais um, em que um garoto de 16 anos mandou para o hospital um pedestre de apenas 8.

“Muitos adolescentes não modificam o motor, porque é muito perigoso correr com um microcarro”, afirma Francesco, 16 anos, feliz proprietário de uma reluzente Aixam amarela. “Mas rodar a uma velocidade tão baixa é perigoso ao contrário”, tenta explicar.

Francesco, 16, dono de um microcarro amarelo: símbolo de status

Na Itália, esse é somente um dos motivos da polêmica. No país, o microcarro não aparece nem sequer catalogado no código de trânsito. Sua produção e venda se anteciparam às leis italianas, fazendo crer que sua entrada no mercado de veículos tenha resultado de acordos envolvendo muito dinheiro. Como o quadriciclo não existe no código de trânsito, o microcarro tem que ser considerado como motocicleta.

E como espertezas vêm de toda a parte, até mesmo idosos e pessoas que tiveram a carteira de habilitação suspensa se aproveitam da situação. Impossibilitados de guiar por alguma razão, muitos italianos dão um jeitinho, aproveitando-se dos microcarros de filhos, sobrinhos e netos.

Ordem na casa

A Itália está para aprovar algumas reformas no código nacional de trânsito. Entres elas, está prevista uma multa de 1500 euros para quem modificar o motor de um mini car. Para a tristeza dos vovôs e dos parentes espertinhos, quem teve a carteira de habilitação suspensa não poderá mais guiar o veículo.

De olho nos microcarros, a polícia municipal de Roma tem feito blitz pela cidade, para coibir as infrações. Nos bloqueios em torno das escolas médias, a garotada não tem mais o sossego de antes. Stefano, 13 anos, que não vê a hora de ter seu microcarro, reclama da situação. “Não podem culpar os garotos, têm que fiscalizar as oficinas que modificam os motores”. Mas e quanto à infração de transportar um segundo passageiro? E a falta do cinto de segurança? “Quando eu tiver meu mini, vou fazer tudo direitinho”, garante.

Apesar dos acidentes, o interesse dos adolescentes pelos microcarros ainda é grande, e as revendedoras não diminuíram as vendas, a não ser quando o modelo apresenta muitos problemas de fábrica. “Paramos de vender um modelo francês porque tinha muita reclamação”, informou o dono de uma concessionária. “Mas os outros ainda saem muito”.

Mas não é possível saber o futuro dos microcarros. Há um mês, o Codacons, uma espécie de Procon italiano, solicitou a redução da idade mínima (de 18 para 16 anos) para dirigir um veículo convencional. Podendo dirigir um carro de verdade aos 16, talvez esfriasse, nos adolescentes, o desejo de ter um mini car. Mas Stefano já tem tudo resolvido: “Posso ficar dos 16 aos 17 com um mini, e depois compro um carrão”.

Solange Cavalcante

Postado por: Cristiano Bitencourt

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