Minha família não gosta dele

Minha família não gosta dele

Atualizado: Quarta-feira, 15 Dezembro de 2010 as 12:55

Parece novela, mas é a mais pura vida real. Você aparece em casa com um cara mais velho, mais novo, mais descolado, mais tímido, rico ou desempregado e lá vem o bombardeio.

A família rejeita o cidadão, nem os amigos gostam, o climão se cria e um pé de guerra se anuncia. Como agir com tanto julgamento? De que lado ficar e quando ouvir (ou ignorar) os "conselhos" do quem está de fora?

Responder essas perguntas é muito mais complicado do que pode parecer na trama das oito. A especialista em comportamento humano, Roselake Leiros, da CrerSer Mais, aponta que a maioria das implicâncias nascem num sentimento, velho conhecido: o ciúme. É pelo medo de perder os filhos que qualquer qualidade duvidosa do parceiro da princesa da casa vira motivo de briga. "Há muita dificuldade em se compartilhar alguém que se gosta", afirma Rose. "A entrada de terceiros nas relações familiares é um assunto bastante complexo e precisa ser pensado de múltiplos ângulos, para não reduzir a compreensão da nova dinâmica a clichês já enunciados e que não iluminam muito mais", completa a psicóloga Maria Cristina Capobianco. "Significa uma mudança na dinâmica das relações, entra um outro e traz sua bagagem histórica, seus valores, suas crenças".

Nessa caso, segundo a coaching da CrerSer, cabe à filha entender, agradecer esse excesso de zelo e relevar. "É preciso mostrar que o sentimento de sempre não vai faltar e que amar o namorado não significa deixar de amar pai, mãe e amigos", opina. Maria Cristina concorda, mas faz uma boa ressalva. "A filha não deixa de gostar da mãe porque arranjou um namorado, mas a paixão frequentemente reverte a prioridade da atenção às vezes dada antes para a família". E completa: "O namorado traz formas de ver o mundo e de viver no mundo muito diferentes e a filha, aos poucos, se transforma, incorporando novos modos de pensar um mundo abandonando aqueles que ela havia tido até o momento".

Para resolver esse tipo de impasse da vida amorosa, uma opção que pode ser desastrosa é se afastar. Mergulhar na relação e esquecer que há vida além da cabana criada não é legal. Uma boa ideia é clarear a mente e ter consciência que escolher lado não vai levar você a lugar algum. "Ainda que algum dos lados imponha escolhas, tente dizer que não vai abrir mão de uma coisa pela outra e que tudo é importante. As pessoas precisam preservar as relações", opina Roselake.

Quando esse tipo de situação acontece, o melhor é não impor nada como verdade, já que tudo muda numa velocidade sônica. Mas é preciso tentar compreender, tomado de discernimento, que cada um tem seus valores. Cada pessoa dá importância a coisas diferente e as hierarquias dessas coisas se processam de maneiras diferentes. Às vezes você faz uma escolha que, por alguma razão o outro não entende ou acha inconcebível. E é nessa hora que saber ouvir pode fazer toda diferença. "É importante que a filha ouça a mãe no que ela tem a dizer, sem que isto signifique se distanciar do namorado, mas sim poder abrir os olhos e enxergar aquilo que ele diz entre linhas ou não diz, para não sofrer demais depois", sugere Maria Cristina. "Não ignore e as opiniões. As ouça, reflita e decida segundo seus valores. Mas tente fazer isso de maneira não contaminada. É preciso aprender a ver as próprias experiências como parte grande do amadurecimento", finaliza Roselake.

O ninho vazio

Um problema sério quando essa implicância aparece, principalmente da mãe com os filhos, é a tal síndrome do "ninho vazio", de perda mesmo, refletido nesse ciúme que as progenitoras acabam tendo.

É como se a filha ou filho não fosse mais dela, mudasse e ficasse irreconhecível aos olhos das corujas. "Os filhos ocupam para os pais lugares muito importantes e, a medida que crescem, seguem seu caminho deixam vazios", pondera a psicóloga Maria Cristina Capobianco. Nesse caso, essa mãe precisa de ajuda para se dar conta do que está acontecendo.

"É importante ter paciência e observar as reações da mãe, que precisará processar estas transformações da filha, entrar em contato com suas perdas e procurar outros horizontes. Às vezes, dependendo da intensidade deste momento, ela entra em depressão". Essa mãe, ferida de saudade, precisa lidar com seus sentimentos de posse dos filhos e de controle e ocupar-se da sua própria vida.

Mas há ainda aqueles não raros momentos em que os pais estão mesmo certos, quando percebem e intuem aspectos do namorado, por exemplo, que as filhas, cegas, não querem ver. "Nestes casos, as mães precisam ter muita paciência, porque já não controlam mais os filhos. Forçar a enxergar o que não se pode ver, em geral, não produz bons resultados. Provoca a ira da filha ou filho que acha que a mãe quer ‘mandar’ na sua vida, e que, obstinadamente, se oporá à mãe".

Nestes casos, a mãe precisa suportar a angústia e a sensação de premonição que tem de que a filha possa sofrer. Pode ser doído admitir, mas o sofrimento, se tiver que acontecer ou aparecer, tem o poder de produz crescimento, sem dúvida. Mesmo que você, mãe, queira impedir.

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