Mortes de adolescentes já cresceram 24,3% este ano

Mortes de adolescentes já cresceram 24,3% este ano

Atualizado: Segunda-feira, 21 Junho de 2010 as 3:29

Nem mesmo a implantação do programa do Governo Federal 'Territórios da Paz', na área conhecida como 'Grande Bom Jardim', tem trazido a esperada redução da violência naquele setor de Fortaleza. Assim como nas demais comunidades da Capital cearense, o local tem servido de palco para a violência armada, e os adolescentes acabam sendo as principais vítimas dos assassinos.

Dados obtidos pelo Diário do Nordeste, em seu constante acompanhamento das ocorrências de assassinatos na Grande Fortaleza, mostraram, na semana passada, que somente nos seis primeiros meses deste ano, 97 adolescentes foram assassinados na Capital e sua região metropolitana, contra 78 casos no mesmo período de 2009, o que representa um aumento da ordem de 24,3 por cento.

Estatística

Os meses de março e abril foram os que registraram maiores índices de mortes de pessoas com idade entre 11 e 18 anos incompletos; 19 casos em cada um deles. Janeiro foi o de menor registro, 16 crimes.

A maioria dos assassinatos teve como pano de fundo os ´acertos de conta´ entre traficantes e os usuários de drogas que não quitaram suas dívidas.

Sem dinheiro pagar pelas ´pedras´ de crack que consumiram, os adolescentes acabam sendo assassinados por outros jovens aliciados pelas quadrilhas para atuarem como o braço armado dos chefes dos bandos.

Assim aconteceu na manhã do último dia 29, quando mais um garoto foi eliminado por ordem de traficantes.

Era Jerônimo Alves de Brito, que tinha apenas 19 anos de idade, mas, segundo a família, desde os 14 anos consumia pedras de crack. Por causa de uma dívida de cinco reais, ele acabou sendo assassinado de forma covarde. Vários tiros foram disparados contra o rapaz enquanto ele dormia dentro do barraco na Rua Ceará, no bairro Couto Fernandes. A própria família admitiu que a dívida foi o motivo do brutal assassinato.

"Acordei com os tiros. O assassino só parou de atirar quando teve a certeza de que ele (Jerônimo) não estava mais vivo, não estava mais respirando", disse o pai do rapaz, Almir Alves de Souza.

Mas, em meio ao tumulto que se formou diante da cena do crime, veio uma forte declaração. E partiu da própria mãe de Jerônimo. Segundo ela, o rapfilho preferiu morar com o pai porque este também é usuário de crack. "Ele é aposentado, mas gasta o dinheiro todo comprando pedra", disparou Maria Neri de Brito, 45. O pai tentou uma desculpa ao ser responsabilizado pelo vício do filho. "A mãe tentava tirá-lo do vício, mas as clínicas são muito caras".

Não demorou muito, e a Polícia conseguiu identificar o assassino. Márcio David de Sousa Carneiro, 19, foi detido por uma patrulha do Ronda do Quarteirão ainda no mesmo bairro onde acontecera o homicídio. Na Polícia, confessou o crime e, sem demonstrar remorso, confirmou a dívida que a vítima não conseguiu quitar: cinco reais.

Mais casos

O consumo de drogas também vem sendo a responsável pelo número cada vez maior das tragédias familiares. Pais que matam filhos, filhos que matam os pais ou violentam os irmãos.

Dramas assim aconteceram recentemente no Interior do Estado. No Município de Granja (a 336Km de Fortaleza), o trabalhador rural Francisco Teles Coelho, 54, decidiu acabar com a agonia de sua família. Armado com uma faca, matou o próprio filho, o jovem Bartolomeu Gomes Coelho, 22.

Logo após cometer o crime, o agricultor foi preso e transferido para a Delegacia Regional de Polícia Civil de Camocim (a373Km da Capital), onde, em depoimento, foi enfático ao afirmar que "não aguentava mais sofrer" com a família em decorrência das ameaças e agressões protagonizadas pelo rapaz. "Ele exigia dinheiro a toda hora para comprar pedra", lamentou. Quando não recebia o dinheiro, agredia os pais e os irmãos.

Fato parecido ocorreu no Município de Monsenhor Tabosa, onde, pelo mesmo motivo, o garoto Raniele de Sousa Santos, 17, foi morto pelo pai.

Registros

97 adolescentes foram mortos na Grande Fortaleza entre os dias 1º de janeiro e 15 de junho. No ano passado, em igual período, foram 78 casos registrados pela Polícia

2 jovens foram assassinados pelos pais por conta do uso de drogas. Os casos aconteceram nos municípios de Monsenhor Tabosa e Granja. Os acusados eram agredidos pelos filhos

ESTUDO APONTA

Acesso ao crack cada vez mais cedo

"O acesso às drogas antes era restrito, em torno de 16 anos. Mas mudou muito. O contato com elas ocorre cada vez mais cedo. Há caso de crianças com oito anos de idade já está consumindo drogas como o crack".

A declaração é do delegado de Polícia Civil, César Wagner Maia Martins, ex-titular da Delegacia de Narcóticos da Polícia Civil que, durante sua gestão, conseguiu desarticular diversas quadrilhas responsáveis pela venda de drogas em Fortaleza e nos municípios que compõem a região metropolitana.

Foram mais de 300 prisões em flagrante e um vasto material apreendido além dos entorpecentes, como armas, veículos e as chamadas ´cadernetas´ que controlam a venda das drogas e servem prova da contabilidade dos criminosos.

Jovens

Em um recente estudo sobre o fenômeno na expansão do tráfico na Grande Fortaleza, César Wagner encontrou números preocupantes. Segundo ele, um levantamento feito junto à Quinta Vara da Infância e da Juventude de Fortaleza, comprovou que, diariamente, uma média de 12 menores são encaminhados para lá por conta da prática de atos infracionais.

"Há casos de meninos e meninas de nove anos de idade que já se tornaram ´aviões´ do tráfico. Há dados que apontam que, somente em Fortaleza, existem cerca de 30 mil usuários de crack, na faixa de 12 a 29 anos".

O delegado afirma que, a pior situação está nas comunidades do Grande Bom Jardim, Serviluz, Messejana, na Pajuçara (distrito do Município de Maracanaú), e no São Miguel, em Messejana, onde as polícias Civil, Militar e Federal já realizaram a prisão de diversos traficantes de crack e cocaína.

O trabalho de recuperação dos usuários de drogas é difícil e o Estado proporciona pouca estrutura e oportunidades. Segundo o delegado, o Estado tem convênio com apenas três unidades terapêuticas, que são o ´Desafio Jovem´, ´Leão de Judá´, e o Instituto Volta Israel. Juntos, disponibilizam apenas 45 vagas. Além deles, há ainda, o Hospital de Saúde Mental de Messejana, onde funciona o setor ´Elo de Vida´, que oferece 30 vagas pós-internação, mas sem pernoite no hospital.

César Wagner diz ainda que há estudos marcantes sobre a letalidade do consumo de crack. "Segundo esses estudos, 30 por cento dos usuários de crack morrem logo nos primeiros anos de consumo da droga".

Apreensões

Reforçando o que comprovou em sua pesquisa, o delegado revela os números das apreensões de crack nos últimos cinco anos. Em 2005, foram confiscados 9,7 quilos; em 2006, 11,9 quilos; em 2007, 8,8 quilos. Logo em seguida, esses índices saltaram. Em 2008 foram apreendidos nada menos que 64 quilos de crack. No ano passado, as apreensões alcançaram cerca de 114 quilos.

JUVENTUDE PERDIDA

Garotos arrastados para a vida do crime

Cerca de mil procedimentos foram instaurados este ano pela Polícia contra jovens adolescentes, por prática de atos infracionais. Os delitos mais comuns são os roubos (assaltos), furtos, agressões e tráfico de drogas. Em relação a igual período de 2009, o crescimento nos registros de envolvimento de adolescentes com o crime chega a 30 por cento, confirmam as autoridades que tratam do assunto.

Em recente entrevista a uma emissora de TV local, o promotor de Justiça Odilon Silveira, da Vara que trata dos adolescentes em conflito com a lei, revelou que, cerca de dois mil mandados de apreensão contra menores foram expedidos pela Justiça. Os acusados desapareceram (fugiram) depois do cometimento do delito.

Gangues

Em uma operação desencadeada há uma semana no bairro Edson Queiroz a Polícia Civil apreendeu vários envolvidos em delitos naquela comunidade. O trabalho só foi possível graças a um levantamento de inteligência realizado em sigilo, sob o comando do delegado Rommel Kerth, titular do 26º DP (Edson Queiroz).

Entre os 12 acusados de crimes como assaltos e tráfico de drogas havia adolescentes. São garotos com idades que variam de 15 a 17 anos, ligados a duas gangues que atuam na área.

Conforme a Polícia, os grupos são os responsáveis por uma série de incidentes. São os confrontos armados entre as gangues da ´Baixada´ a da ´Rua do Gelo´, que já resultaram na morte de várias pessoas.

Em outras áreas de Fortaleza os assassinatos de menores têm preocupado as autoridades. Nos bairros que compõem o Grande Bom Jardim, no Vicente Pinzón, na Vila Velha, em Messejana e na Barra do Ceará são corriqueiros tais episódios. Em todas essas zonas periféricas o tráfico de drogas tem sido fator determinante para os altos índices das execuções sumárias.

Por: Fernando Ribeiro

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