Natasha, a filha pródiga

Natasha, a filha pródiga

Atualizado: Quinta-feira, 11 Agosto de 2011 as 8:42

Tem 17 anos e fugiu de casa. Às sete horas na manhã no dia errado. Levou na bolsa umas mentiras pra contar. Deixou pra trás os pais e o namorado.

Um passo sem pensar. Um outro dia, um outro lugar. Pelo caminho, garrafas e cigarros. Sem amanhã, por diversão, roubava carros. Era Ana Paula, agora é Natasha. Usa salto quinze e saia de borracha.

Um passo sem pensar. Um outro dia, um outro lugar. O mundo vai acabar, e ela só quer dançar. O mundo vai acabar, e ela só quer dançar, dançar, dançar. Pneus de carros cantam

Tem sete vidas mas ninguém sabe de nada. Carteira falsa com a idade adulterada. O vento sopra enquanto ela morde. Desaparece antes que alguém acorde.

Um passo sem pensar. Um outro dia, um outro lugar. Cabelo verde, tatuagem no pescoço. Um rosto novo, um corpo feito pro pecado. A vida é bela, o paraíso é um comprimido, qualquer balaco ilegal ou proibido.

Ela pensa ter encontrado vários amigos. Todos a sua volta a bajulam, fingindo não existir perigos. Nunca está sozinha, mas sempre está só. Vive correndo, mostrando sua força, coragem e ousadia, vive rindo na cara do perigo, mas por dentro não há nada além do pó.

"A vida não tá fácil pra ninguém" repete pra si mesma, finge que nada muda, dinheiro não acaba, saúde é pra sempre e que não é necessário dizer nem um Amém.

Casa ficando vazia, pneus de carro já não cantam, flores partidas, sem comida no chão, seu corpo tomado por uma amarga letargia. Um certo desespero. Medo, frio, choro. Alíce não consegue mais chegar ao país das maravilhas, a realidade é dura, com um forte tempero.

Só consegue pensar em por que havia ido embora. Liberdade? Alegria? Aproveitar a vida? Ilusão. Agora sabe que não é ali que a encontrar. Seu coração está transpassado de fora a fora.

Na mente uma lembrança. Seu Pai. Sua casa. Seu quarto. Seu cobertor. Como é possível alguém fazer tanta lambança? Como voltar agora? Seria tarde demais? Talvez trabalhar para em sua casa, uma faxineira, uma empregada, jardineira, tanto faz, ela só quer olhar em seus olhos e dizer que não devia ter ido embora.

Passos atordoados. Sinuosa linha reta. A maior distância entre dois pontos é a volta após um fracasso. Maquiagem borrada. Olhos inchados. Braços nus tentando se aquecer. Já parece amanhecer o dia, mas o Sol talvez não apareça, em respeito a este momento. Garoa. Soluços. O arrependimento escorre por sua face.

Uma frase. Um tape. Seja Bem-Vindo. Tudo fechado. Já não se tem mais 17 anos, são 7 horas do dia certo. Olhos fixos. Falta-lhe coragem. Ela não sabe, que hoje sua vida começará. Quando a campainha tocar, braços correrão, abertos. Um redenção. A alegria, finalmente, à aquele lar voltará.

Por Calebe Paranhos

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