No computador, jovens criam músicas a partir da desconstrução de outras

No computador, jovens criam músicas a partir da desconstrução de outras

Atualizado: Segunda-feira, 19 Julho de 2010 as 1:37

André Paste, 18, estava na casa da namorada quando encontrou uma coletânea de CDs da Bíblia, narrada pelo vozeirão de Cid Moreira.

O capixaba correu para o computador, passou as faixas para um programa de edição de áudio e começou a picotá-las. Adicionou instrumentais de dance music, vocais de funk e pronto. Saiu a divertida mixtape "Cid Moreira on the Dancefloor".

Sucesso na internet, o prodígio dos "mashups" (leia glossário no fim da página) faz isso por diversão há quatro anos, desde que ouviu o disco de estreia de João Brasil, "Big Forbidden Dance".

"Criei um monstro", brinca o representante máximo dessa mistureba no Brasil. Inspirado no DJ americano Girl Talk, conhecido por juntar "hits" improváveis com maestria, João começou a costurar artistas como Hot Chip, Luiz Caldas e Wando.

"Fiquei com vergonha de tocar isso na pista, mas as pessoas urraram de alegria!" Irmão mais velho do "mashup", o remix também caiu no gosto de quem preferiu o computador a montar uma banda de rock.

"Eu deixei a guitarra de lado", conta Leo Justi, 23, que só toca versões na pista.

"Muitos DJs não apresentam nada, só reproduzem o que a indústria bomba na mídia", critica o carioca, fã de Diplo.

O "beatmaker" curitibano Laudz, 18, também começou a recriar músicas. Ele remixou o último EP do grupo gringo de rap Strange Fruit Project. "Um dos MCs me convidou para fazer um beat", conta ele, que também cria batidas usando a fórmula das músicas de computador: Ctrl+C e Ctrl+V.

O QUE É...  

... mashup?

Em inglês, significa "mistura". É uma música criada a partir de outras duas (ou mais) que já existem. O mais comum é juntar o vocal de uma com o instrumental de outra.

...remix?

É uma nova versão de uma música que já existe. Modifica-se, principalmente, a parte instrumental da canção, dando a ela um outro ritmo.

...beat?

É, literalmente, a batida da música. O termo é bastante utilizado entre os produtores de rap e de funk. É a base sobre a qual o MC rima.

Conteúdo, qualidade e diversão

Laudz aprendeu a fazer "beats" na raça. Assistia a videoaulas, pedia ajuda aos amigos "beatmakers" mais experientes e colocava a mão na massa, ou melhor, no programa FruitLoops, que ele usa até hoje. "Tem que ter paciência e conhecer muita música. Eu ouço rap desde os sete anos de idade", sugere.

Desde 2007, quando começou, fez mais de mil beats. No início, Laudz usava em seus beats samples que tirava de músicas de artistas de soul dos anos 70. Hoje, ele consegue reproduzir os mesmos samples a partir de um controlador midi. "Vou fazer aula de teclado e piano para aperfeiçoar os samples, porque eu toco tudo de ouvido", conta.

Algumas de suas produções são base de rimas de MCs brasileiros da nova safra do hip-hop, como Cabes e Rashid. Outras devem aparecer nos próximos trabalhos de Max B.O. e Start, banda de Stephan, filho do Marcelo D2. "Depois que minha mãe me viu comprando equipamentos com meu dinheiro, ela parou de falar pra eu procurar emprego", conta.

Antes de se aventurar no mundo das músicas para pista, Leo Justi estudou produção fonográfica, fez curso de home studio e teve uma banda, a Laranja Dub. O interesse pela música eletrônica surgiu na Alemanha, quando pegou gosto pela "night". Atualmente, a base de seus remixes é o funk carioca, misturado a elementos de estilos como b-more, dancehall, eletro house e hip-hop. Tudo feito no Ableton Live.

André Paste, que quer ser publicitário e faz "mashups" só por diversão, também fez curso antes de começar a juntar as músicas. "Eu fiz um curso de música eletrônica e foi quando eu aprendi a mexer no programa que eu uso hoje, o Ableton Live", explica. "Pra mim, música serve para se divertir, não interessa como ela é feita", opina.

João Brasil, que se formou em produção musical na Berklle, em Boston (EUA), compartilha a opinião. "Qualidade é importante, sim, mas acho que não pode ficar muito preso na ideia de que o "mashup" tem que ficar perfeito", explica. "É bem aquela coisa da cultura digital fast food, que sai rápido".

No mesmo ano em que lançou a sua primeira mixtape de "mashups", João colocou na rua um disco de MPB em que aparece cantando, o "8 Hits". "Ninguém queria saber desse disco, só me chamavam pra tocar "mashup" em festa", conta. O músico também fez uma bateria de remixes que bombaram na internet e nas pistas --uma versão lambada de "Left Behind", do grupo Cansei de Ser Sexy, foi uma das mais aplaudidas. "Pedi os vocais para eles pelo Myspace, na 'caruda' e eles amaram o remix".

Hoje, João deve estar preparando mais um do projeto "365 mashups", que termina no fim do ano. Em mini-turnê pelo Brasil, João mora em Londres, onde faz mestrado. "Minha mulher que deu a ideia desse projeto, já que eu 'ficava o dia inteiro no Twitter'", brinca.

Daniel Ganjaman, um dos maiores produtores musicais do Brasil, faz ressalvas a esse tipo de música. "A maioria dos 'mashups' que eu ouço por aí tem musicalidade zero", avalia. "Eu não sou contra o conceito, mas o cara que só faz isso e acha que é produtor musical está enganado". Segundo ele, produtor musical é quem dá a concepção geral da música, desde a direção vocal até a escolha de timbre, entre outros. "Também confudem produtor com 'beatmaker', que é o cara que programa uma batida que será a base do rap, principalmente, a partir de colagens, samples, loops e fragmentos de outras músicas", explica.

Um dos últimos trabalhos de Ganjaman é a versão do clássico "Umbabarauma", de Jorge Ben Jor, com participação de Mano Brown, dos Racionais MCs. Antes de ser lançada oficialmente pela Nike como a música do Brasil na Copa do Mundo, a faixa caiu na rede e João Brasil logo aproveitou para fazer um "mashup".

Professor Pitbull

Conhecido por incendiar as pistas do mundo inteiro com os remixes que constrói ao vivo em sua bateria eletrônica, o DJ Sany Pitbull dá aulas de mixagem e produção de música eletrônica para adolescentes no Redbull Favela Estúdio --projeto realizado em parceria com o grupo AfroReggae em Vigário Geral, no Rio de Janeiro.

Sany entrou nessa onda de remixes em 1995. "Eu queria fazer música para tocar nos bailes funk. Eu comprava fita K7 de miami bass e dancehall, gravava um trecho naquelas fitas de rolo e cortava o pedaço que eu no gilete mesmo. Depois colava com durex", lembra.

"Além de técnica, eu ensino a molecada a ousar. Quero que eles coloquem para fora os 'Sany Pitbulls' que existem dentro deles", afirma.

Postado por: Felipe Pinheiro

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