Número de jovens que querem transformar o ensino surpreende

Número de jovens que querem transformar o ensino surpreende

Atualizado: Segunda-feira, 27 Junho de 2011 as 11:29

Há mais de uma década, a americana Felicia Cuesta iniciou o curso de ciências políticas na Universidade da Califórnia com um desejo: ser advogada. Quatro anos depois, se candidatou a uma vaga oferecida pelo Teach For America, instituição sem fins lucrativos que há vinte anos recruta jovens recém-formados nas melhores universidades americanas e os treina para lecionar nas piores escolas da educação fundamental dos Estados Unidos. O desejo de atuar nos tribunais cedeu lugar ao de estar em sala de aula. Atualmente, Felicia é diretora de relacionamento do Teach For All, rede que abriga duas dezenas de programas que espalham pelo mundo a receita criada pelo Teach For America. Ela participou também da implantação do projeto no Brasil, iniciada neste ano. "Durante a fase de seleção de jovens professores, me surpreendeu o número de candidatos que querem trabalhar pela educação: 2.400", diz. "Eles estão convictos de que ela é uma ferramenta importante de transformação." Confira a seguir a entrevista que ela concedeu ao site de VEJA.

O Teach For America atua em 42 estados americanos e atrai os melhores alunos de universidades como Harvard e Stanford. O que explica o sucesso do programa? Uma das razões para esse modelo ter dado tão certo é o fato de a educação ter se tornado uma questão de extrema importância nos últimos anos. À medida que isso ocorria, nos Estados Unidos e fora dele, o interesse pelo tema aumentou. É uma questão de inspiração: por meio do programa, as pessoas percebem que existe uma forma de encaminhar os problemas da área.

Qual era o objetivo inicial do Teach For America? Na década de 1980, quando Wendy Kopp, fundadora do programa, era apenas uma universitária de Princeton, a educação oferecida para os diferentes grupos sociais variava enormemente nos Estados Unidos. Uma criança que crescia em uma comunidade pobre ficava três ou quatro anos atrás, do ponto de vista acadêmico, de outra nascida em uma comunidade rica. Para as pessoas que abraçaram a causa naquele momento, isso parecia injusto, pois a educação é determinante para o destino de um cidadão. Essa foi a motivação de Wendy: promover uma educação igualitária.

Houve muita resistência? A implantação de um novo programa sempre divide as pessoas, entre as entusiastas e as céticas. Com o Teach For America não foi diferente. Houve pessoas que se envolveram de corpo e alma no projeto, e houve aqueles que fizeram suas críticas. Ainda hoje é assim. A educação é um tema bastante controverso e existem muitas opiniões a respeito.

A senhora esteve no Brasil para auxiliar nos primeiros passos do Ensina!. Que elementos ligados ao projeto chamaram sua atenção? Durante a fase de seleção de jovens professores, me surpreendeu o número de candidatos que querem trabalhar pela educação: 2.400. Eles estão convictos de que ela é uma ferramenta importante de transformação. E estão dispostos a lutar por uma educação de qualidade para todos.

A ideia do Teach For America está espalhada por mais de vinte países. Qual a receita que os projetos seguem? O primeiro passo é um recrutamento rígido em busca de jovens líderes. Todos os programas ligados à rede Teach For All investem muito tempo buscando talentos, pessoas que realmente desejam impactar a vida de milhares de crianças. O segundo passo é identificar os estudantes e as escolas que mais precisam de ajuda. Isso é importante para que os jovens líderes entendam o tamanho do déficit educacional que o país vive. Em terceiro lugar, é preciso ter uma visão de longo prazo. Mesmo que o contrato inicial com os participantes seja de dois anos, essa experiência não é um fim em si mesma. Ela se torna um compromisso de uma vida inteira. Oferecer uma educação de qualidade para todos exige comprometimento por parte da sociedade. Isso significa que um educador precisa estar preocupado com o assunto, mas também os profissionais das área de economia, saúde, engenharia e assim por diante devem fazê-lo. Quanto mais cedo os jovens tomam consciência disso, mais podem fazer.

Então, não se trata apenas de uma experiência na sala de aula? Esse é o quarto ingrediente da receita. Para que esses jovens abracem a causa, é preciso que descubram o impacto que podem exercer sobre alunos do ensino básico. Nesse sentido, a experiência em sala de aula é insubstituível: graças a ela, eles se sentem inspirados a trabalhar pela mudança, onde quer que estejam, pelo resto de suas vidas.

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