O fim?

O fim?

Atualizado: Terça-feira, 14 Junho de 2011 as 8:22

A casa estava cheia como há muito tempo não se via. Era uma fresca madrugada de primavera, a grama molhada com o orvalho da noite exala um suave aroma de paz. A lua com o devido respeito se retirara aquela noite. Algumas estrelas tentavam espiar o que acontecia. O vento cantava docemente, era sua maneira de despedir-se.

Não havia mais como entrar alguém naquela casa. Até no jardim amigos estavam ali, como que para dizer o quanto ele era importante. Talvez não fosse esse o fim que ele quisesse. Combinaria mais estar na rua, ajudando alguém que não tinha aonde dormir, ou o que comer, do que estar ali deitado em sua cama. Mas ele já tinha feito muito. As pernas não eram mais as mesmas.

Por mais que tudo indicasse para que houvesse um clima tenso o que se viam eram rostos serenos, cada um contando sua história sobre aquele amigo, tio, primo, avô, pai, irmão, que estava no quarto. Uns contavam como aquele homem simples havia tirado eles das ruas, das drogas, tinha ajudado nos momentos mais difíceis, estava sempre presente quando necessário. Algumas risadas surgiam nas conversas, sobre suas piadas, seu jeito meio desastrado até, que cativava a todos.

Ao lembrarem de suas aventuras era impossível entristecer-se, naturalmente surgia um sorriso em seus rostos, um ar nostálgico. Quando alguém começava um causo no jardim, não se passavam 5 minutos para que já estive espalhado, e outras pessoas contassem suas versões, pontos de vistas.

Avançando casa a dentro era possível notar que quanto mais perto se chegava do quarto mais sério, e ao mesmo tempo sereno, ficava o ambiente. No corredor apenas os filhos, abraçados, conversando, lembrando da infância em casa, as broncas, as brincadeiras, as palmadas, aquela colher de doce a mais que ele dava quando a mãe não estava vendo.

Enfim, o quarto. Estava lá, aquele homem, de tantos sermões, palavras, ajudas. Estava lá o pai, amigo, irmão, marido, pastor, torcedor, funcionário. Sim, ele fora tudo isto, e mais um pouco. É impossível descrever alguém, muito menos apenas com palavras. Aquele rosto marcado pelo tempo, em que cada ruga, cada fio de cabelo branco, tinha uma história para contar, um lugar que visitara, uma pessoa que ajudara, um amigo que acolheste.

Sua amada estava ali, ao seu lado, sentada, com o semblante tão calmo, sereno e tranquilo quanto o dele. Seus olhos não mostram medo, ou tristeza, somente paz, e uma certa satisfação. Ele nem por um segundo deixa de pensar, em como realizara seu sonho, o seu maior sonho. Como se fosse um filme, cada parte seu passado vem vindo a sua mente. Sua infância, sua adolescência, sua mocidade, os primeiros cabelos brancos, junto com as primeiras responsabilidades. Lembra de seu casamento, do dia em que conheceu sua esposa. O nascimento de seus filhos. Lembra-se de cada momento marcante em sua vida, seus erros, seus acertos, as lagrimas derramadas, as gargalhadas. Um suspiro.

Ele sabe que tem pouco tempo. Isso não o incomoda. Ao olhar para seu amor, fita-a nos olhos e diz:

-Você se lembra do meu sonho, que te contei quando ainda éramos jovens?

-Como poderia esquecer?

-Pois então, hoje eu posso dizer, ao seu lado, que "Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé."

Ele percebe, chegou a hora, a sua hora. Beija sua mulher, olha nos fundo de seus olhos, e diz:

-É agora, eu estou indo pra casa, vou ficar com Papai finalmente,

Seus olhos se fecham, um largo sorriso se abre. Não há um último suspiro. Sua esposa levanta-se, e lentamente sai do quarto. Seus filhos a olham. Ela apenas acena com a cabeça que sim, ele morrera. Mas mesmo que com lagrimas escorrendo lhe pelo rosto, ela diz:

-Hoje seu pai venceu.

Talvez você que está lendo esse texto esteja pensando: "Que final triste". "Acabou". Mas não, pois para nós, novas criaturas em Cristo Jesus, a morte não é o fim, é à volta para casa. É a nossa vitória, a nossa maior conquista. Onde para todos é o fim, para nós é apenas o começo, de algo muito maior e mais belo do que podemos imaginar, vivendo todos os dias ao lado do Pai.

"Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas." Apocalipse 21:4

"Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo" C.S. Lewis

Deus os abençoe.

Por: Calebe Paranhos

veja também