O quarto: Cada vez mais tecnológico

O quarto: Cada vez mais tecnológico

Atualizado: Quarta-feira, 12 Maio de 2010 as 3:10

A juventude de hoje não se tranca no quarto para se isolar do mundo. Ao contrário. É lá que está a parafernália com a qual ela passa horas plugadíssima

Não perturbe." "Cuidado! Cão bravo." "Gênio pensando." "Alta tensão: rock pauleira." A porta do quarto de um adolescente pode ter mais placas de proibição que cerca de usina atômica. Tradicionalmente, essa é a idade em que o ser humano quer isolar-se de tudo e de todos, como se fosse preciso um retiro para esculpir a personalidade do futuro adulto. "Costuma-se definir a adolescência como um segundo parto", lembra o psiquiatra Içami Tiba. "Eu prefiro dizer que ela significa um segundo quarto", brinca, fazendo um trocadilho. Os teens de hoje em dia também se trancam. A diferença em relação ao passado é que, quando o fazem, não é necessariamente para se isolar. Graças à tecnologia, o quarto se tornou uma janela para o mundo. O adolescente de classe média pode ter, além de aparelho de som - que desde os anos 60 é o eletrodoméstico preferido do jovem -, computador com internet, televisão (às vezes com um segundo ponto de TV a cabo) e linha telefônica.

"Na verdade, quando se tranca no quarto, o adolescente não quer isolar-se do mundo, mas afastar os pais", explica a psicóloga paulista Ceres Alves de Araújo, especialista em crescimento. "E a tecnologia possibilita as duas coisas: manter a privacidade e estar plugado." Para afastar os pais, os adolescentes usam há trinta anos o mesmo expediente - música barulhenta no último volume. A novidade é que atualmente esse não é o único aparelho ligado na tomada. O teen de hoje em dia é capaz de assistir à televisão, viajar na internet e falar ao telefone ao mesmo tempo, enquanto no aparelho de som um CD de rock permanece girando. Isso não significa que ele consiga prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Imagine que ele esteja falando com o colega pelo telefone. Quando o papo começa a ficar chato, passa a prestar atenção no jogo de futebol na TV.

De repente, toca o refrão de Oops!... I Did It Again, com Britney Spears, e ele começa a acompanhar. Muda a música, e ele volta a conversar com o amigo, recuperando o fio da meada. Ufa! "O jovem desenvolveu uma habilidade fantástica para lidar com a simultaneidade. Mas, com isso, tem dificuldade em se aprofundar em cada coisa", analisa Tiba. Talvez seja esse o passo da próxima geração.

A "geração canguru"

Apenas um em cada cinco adolescentes faz questão de morar sozinho. A grande maioria - 54% - não deseja sair da casa dos pais. É a chamada "geração canguru", referência ao marsupial que carrega a cria numa bolsa. Antes da revolução sexual, os garotos - e principalmente as garotas - só deixavam a casa onde foram criados para casar. Depois dos anos 60, morar sozinho tornou-se um sonho de consumo do adolescente - era a única maneira de ter liberdade e viver as próprias aventuras. Essa situação está mudando, e a tecnologia é uma das responsáveis. Para manter um apartamento equipado, um jovem precisa estar relativamente bem colocado no mercado de trabalho. Afinal, assinaturas da internet, TV a cabo e linha telefônica custam dinheiro - fora aluguel e condomínio. Na casa dos pais, tudo isso é de graça. Para ele, claro.

Marcelo Sanchez Cantero, 25 anos, é advogado e trabalha num escritório em São Paulo. Mesmo assim, ele diz que só sairá da casa dos pais quando for capaz de garantir para si uma vida tão confortável quanto a que leva atualmente. "Hoje, morar com os pais não tem mais aquele estigma de fracasso de antigamente", filosofa. A mãe de Marcelo, Rosa Cantero, comemora. "O Marcelo em casa é uma alegria. Pretendo retardar sua saída o máximo possível."

Postado por: Cristiano Bitencourt

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