O Teatro Mágico: "O segredo da música é ser honesto"

O Teatro Mágico: "O segredo da música é ser honesto"

Atualizado: Quinta-feira, 8 Setembro de 2011 as 8:58

Em 2003 surgiu um grupo que mistura acrobacias circenses, palhaços, música e teatro em um espetáculo lúdico cheio de papos politizados que vão do machismo à distribuição gratuita de músicas na internet. Com essa reunião de influências, O Teatro Mágico conquistou um público de idades e gostos musicais variados e conseguiu provocar nele uma mobilização voluntária de divulgação na internet e participação nos shows.

Depois de dois álbuns, um DVD ao vivo, 300 mil cópias vendidas e uma turnê de três anos, a banda lança o terceiro trabalho, "A Sociedade do Espetáculo". O CD foi disponibilizado gratuitamente no Facebook na última segunda-feira (5), e o clipe de "Amanhã... Será?" também já está online

Depois de receber o iG Jovem durante um ensaio do novo show em São Paulo, o vocalista e idealizador do projeto, Fernando Anitelli, conversou com o iG Jovem sobre a proposta do novo álbum, o download de músicas e o engajamento dos fãs.

iG: Vocês estão lançando o terceiro álbum três anos depois de "O Segundo Ato". Por que tanto tempo?

Fernando Anitelli: Na verdade, o que acontece é o seguinte: o Teatro Mágico não é um projeto que quando lança uma música sai todo dia na abertura da novela, em todas as rádios, toca no mesmo horário... O Teatro Mágico tem um trabalho dentro das redes sociais e o que a gente precisa é estar presencialmente nos locais, viajar para as cidades, mostrar nossa cara pintada, o nosso projeto, essa mistura de circo, teatro, música e poesia. E tudo isso leva um tempo. Em um primeiro momento a ideia era fazer dois anos de turnê, só que aí a gente acabou gravando o DVD, foram surgindo outras oportunidades, pintou o SWU, que era um festival muito grande, a abertura do show do Dave Matthews Band no Rio de Janeiro, e foram pintando coisas, participação numa novela, e a gente foi fazendo, então acabou que o próprio álbum teve uma sobrevida de mais um ano e meio.

iG: Era esperado, lá no começo do Teatro Mágico, que o grupo chegasse a essas proporções?

Fernando Anitelli: É lógico! Eu sempre esperei que chegássemos a proporções... milhares! Queremos tocar em Marte, na verdade [risos]. Quando a gente montou o projeto, a ideia era poder dialogar com muita gente, não só com crianças, ou com jovens, ou com os mais velhos. E o palhaço não tem tribo, você vai no show do Teatro Mágico e tem lá o roqueiro, o cara do reggae, o clubber... Está todo mundo reunido numa coisa só. Então a gente imaginava que o projeto fosse ter sobrevida, o suficiente pra poder se manter, mas quando a gente percebeu que estava em um contexto de novas tecnologias, redes sociais, e isso foi se propagando para o próprio público de maneira colaborativa, realmente a coisa tomou uma proporção muito maior.

iG: Qual é a proposta do novo álbum?

Fernando Anitelli: É um elenco novo, cenário novo, canções novas. A gente está buscando trazer um amadurecimento filosófico, sonoro. É a primeira vez que trabalhamos com um produtor musical de fora chamado Daniel Santiago, que trabalha muito com o Hamilton de Holanda e já concorreu ao Grammy Latino, então ele só colaborou nas idéias, abrasileirando ainda mais nossa poesia, nosso ritmo. O novo trabalhof ala um pouco sobre meio ambiente, feminismo, questões de relações humanas, isso tudo de uma maneira crítica, abrasileirada, com brincadeiras.

iG: Quais são as maiores referências musicais do novo disco?

Fernando Anitelli: Tem batida afro, tem batida latina, a gente gravou uma espécie de guarânia com um trovador lá do sul chamado Pedro Munhoz. A musica se chama "Canção da Terra" e ele tem uma ligação muito grande com movimentos sociais. E gravamos essa canção numa versão diferenciada, colocamos muitos arranjos de cordas nesse álbum, tem um rock celta, uma batida irlandesa, um rock britânico, e a gente misturou uma porção de coisas, tem influência de muita coisa nesse álbum. É uma feijoada. Apesar de ser uma grande mistura tem um gosto brasileiro. Tem personalidade esse novo álbum.

iG: E vocês levantaram a questão dos conflitos no Oriente Médio no clipe de "Amanhã... Será?"?

Fernando Anitelli: A gente traz à tona uma questão que tem acontecido muito hoje em dia que são essas revoluções populares que se promovem através da internet. E as pessoas equivocadamente falam 'poxa, a revolução saiu da internet, foi formada na internet'. Não é isso, a revolução está entre as pessoas. Para fazer uma revolução você tem que sentir o cheiro do seu companheiro. Então as revoluções são pré-produzidas, logisticamente combinadas, propagadas pela internet, como uma ferramenta, mas na verdade estão acontecendo entre as pessoas, e o povo, e isso é fundamental. Tem que ser dito que hoje em dia dá para usar a internet não só como uma ferramenta para procurar fofocas sobre a vida do outro, pra saber o que está fazendo o artista que fez aquele filme ruim e brega mas que tem olho claro. Então a gente tem que se programar pra fazer cada vez mais trabalhos críticos, colaborativos, provocativos, que tragam à tona esses conceitos todos de redes sociais como ferramentas de conscientização, de propagação de cultura livre.

iG: De 2003 para cá houve uma evolução no Teatro Mágico?

Fernando Anitelli: Hoje não é mais como no começo, ainda bem. A gente começou de uma maneira muito mais mambembe, eu falava para as minhas vizinhas amigas da rua: 'entra em tal musica, chacoalha um pano lá e assopra uma bolinha de sabão'. Os músicos eram amigos que não trabalhavam com musica, mas sabiam tocar. São oito anos de uma busca evolutiva do próprio grupo, na maneira de fazer música e de criar uma outra economia em relação à cultura livre, uma outra maneira de você se organizar e regimentar um projeto. O Teatro Mágico tem amadurecido, descoberto outras maneiras de se relacionar com o próprio público, com os meios, com as mídias. A gente discute a questão da democracia na comunicação, como fazer essa propagação de um projeto que se dá de maneira colaborativa, dentro de um aspecto que já está de certa maneira engessado. A gente vem descobrindo como fazer a política do Teatro Mágico, mas isso é prazeroso, é fundamental. Quando a gente descobre uma coisa nova se sente uma bandeirinha na trincheira da guerra.

iG: Em que momento você percebe que tudo o que vocês propõem surte efeito e que os fãs correspondem?

Fernando Anitelli: Vários fatos marcaram a participação e a presença do público interagindo com o Teatro Mágico. Desde shows em que a luz apagou e nós fizemos duas horas de apresentação semi-acústica em que o povo ajudava com o celular, o silêncio e coreografia, e a gente foi no meio da galera e montou uma ciranda. Desde participações em que o publico fala 'tamo junto, vamo fazer isso acontecer' de uma maneira comum, até quando a gente lança um clipe e fica mais de nove horas nos trending topics do Brasil porque o público tá divulgando. A gente lançou o álbum "O Segundo Ato" na Vila Madalena e fomos de metrô até a Consolação. Aí saímos caminhando pela Avenida Paulista, em São Paulo, bradando em favor da música livre, da democracia na comunicação. Então, em várias ocasiões já tivemos o feedback do público mostrando que tá legal, tá funcionando. A gente se preocupa em justamente construir isso dialogando com o público, e ele passa idéias de ações pra gente. Outras possibilidades vão surgindo e a gente tem que estar plugado e ter humildade pra reconhecer.

iG: Vocês defendem a música livre, mas o artista tem que pagar as contas. Como vocês conciliam as duas coisas?

Fernando Anitelli: É uma pergunta muito importante porque as pessoas confundem musica livre com 'ah, está dando a música e não vai ganhar dinheiro'. Gente, o direito autoral permanece vivo e continua sendo do artista. Ele só vai ganhar dinheiro quando a musica tocar no radio ou na TV, e aquele órgão chamado Ecade que é um órgão privado, mas trabalha como se fosse público, vai invadir elevador, padaria, rádios comunitárias, cobrar de todo mundo e repassar só pra uma determinada amostragem. Minha música é livre e todo mundo pode ouvir. Sempre foi assim. As pessoas trocavam fitas K7, trocavam afetividade, e de repente a mídia física acabou. Você consegue fazer isso digitalmente, você passa para o celular do seu amigo e isso não é crime algum, sua música está se propagando, você não deixa de ganhar dinheiro com isso, porque você só ganha se sua musica toca no radio e na TV. Mas quando a minha música toca, ainda que toque, o que acontece? Quando o Ecad recolhe de todo mundo e paga só por amostragem, ele paga só os mais tocados, que são aqueles que conseguem junto com meia dúzia de gravadoras multinacionais compactuar com determinadas rádios a propagação de determinadas musicas. Então, se você fosse congelado há 15 anos atrás e acordasse esse ano ia achar que não mudou banda nenhuma, porque quando aquela banda acha que vai acabar, ela grava um acústico na MTV e volta cantando a mesma música, então é incrível o tipo de trabalho que a gente tem que fazer pra conhecer outros grupos. E o Brasil está cheio de gente bacana criando coisa, seja no teatro, na dança, nas artes plásticas, na música, só que a gente não tem esse feedback colaborativo dos próprios meios que deveriam ajudar os artistas, então gente tem que criar outras maneiras. Trabalhar com a música livre não quer dizer que você está doando a sua música e deixando de ganhar dinheiro, de maneira alguma. O fã mais apaixonado vai ao show, vai ouvir, vai gritar, vai acabar o show e vai comprar uma camiseta e um CD. Vai chegar em casa, abrir o Facebook e falar 'amigos, ouçam isso'. E isso é crime? De maneira alguma. Crime é você comprar os espaços de algo que é uma concessão que o Estado fornece para que as pessoas possam administrar democraticamente a comunicação. Crime é isso, é comprar todos esses espaços e fazer com a música o que você faz com a pasta de dente e o chinelo, que tem que comprar. Você transforma num produto. Lógico, a musica também é um produto, mas não pode ser tratada dessa maneira equivocada que é tratada hoje em dia. Então a internet é uma ferramenta fundamental pra propagar a música, que é um bem imaterial.

O Teatro Mágico existe há oito anos, a gente tem números muito expressivos no país inteiro tanto de público quanto de venda e em nenhum lugar você vê a gente com uma certa constância na programação. A gente aparece de quando em quando em algumas rádios, o que é muito interessante, é muito legal, eu aprecio isso com louvor, mas na grande maioria não é assim que funciona. Então a música livre é o caminho.

iG: E mesmo assim vocês venderam 300 mil cópias, o que é um número bem expressivo...

Fernando Anitelli: Claro, se você tem um preço justo pro seu público... O segredo da música é o seguinte: você tem que ser honesto com a sua obra e com o público e ponto final. A partir daí o publico vai te ajudar. O público não é contra você. Então você tem que ser honesto com a obra, com o publico e as coisas irão potencializar uma a outra.

iG: Vocês já tocaram até em novela das oito. Tem algum lugar onde não tocariam porque não tem a ver com a proposta do grupo?

Fernando Anitelli: Olha... O que a gente não faz é, por exemplo, participar de um programa dominical tendo que botar minha cara na farinha para procurar bala dentro da bacia ou me jogar numa banheira de bolinha e de água para caçar sabonete e ouvir alguém gritando 'ponto para os homens!'. Isso a gente não vai fazer. A gente vai aparecer pra divulgar nosso trabalho, pra falar sobre música livre. A gente apareceu na novela tocando a nossa música e a personagem falava "agradeço ao Teatro Mágico". Então, dentro desse perfil, a gente tem que ocupar espaços na televisão. O que não pode é o artista ser humilhado, deteriorado em um programa que não está afim de divulgar música nem cultura. A gente sempre está aberto a conversar e projetar nossas aparições.

iG: Vocês têm vários shows na agenda. Já pode revelar algumas novidades?

Fernando Anitelli: É tudo surpresa! O que posso dizer é que estamos todos ansiosos e felizes. Há uma nova proposta estética no figurino, no cenário, na conduta do show, sonoramente. As surpresas apareceram com a presença das pessoas no show.

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