Os jovens e o gosto pelas manifestações

Os jovens e o gosto pelas manifestações

Atualizado: Sexta-feira, 11 Novembro de 2011 as 8:28

Os jovens brasileiros voltaram recentemente a se organizar e participar de manifestações populares distintas. Só neste ano, aconteceram o “churrasco de gente diferenciada”, para discutir a construção do metrô no bairro nobre de Higienópolis em São Paulo, e as famosas marchas anticorrupção e a favor da legalização da maconha, só para citar alguns exemplos. Nesta semana, a mobilização dos estudantes da Universidade de São Paulo culminou na detenção de 72 alunos que invadiram a reitoria para protestar. Após a ocupação que gerou a ação da Polícia Militar e posteriormente uma greve de alunos com baixa adesão, a pergunta que fica no ar é: “Qual o melhor modo de o jovem se manifestar hoje?”

O caso da Universidade

Um pequeno grupo, encabeçados pelos alunos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), invadiu a reitoria para protestar contra a política de segurança da Universidade, a parceria com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e contra o reitor João Grandino Rodas. “Fui contrário à ocupação da reitoria, pois foi uma decisão derrotada em assembleia de alunos”, conta Guilherme Lampe, 23 anos, que cursa História na instituição.

Entretanto, ele acredita que a discussão está sendo superficial, pois não aborda os reais motivos. “Os protestos são legítimos, pois a polícia é um órgão repressor em um local de livre expressão, e ela não apenas evita a violência, mas também a comete”, afirma referindo-se aos casos de alunos revistados aleatoriamente enquanto transitavam pelo Campus. Mesmo assim, a socióloga Roseli Aparecida Martins Coelho, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, acredita que o policiamento na USP é uma exigência da época em que vivemos. “Autonomia é na vida universitária, não tem nada a ver com a presença da polícia”, enfatiza.

Para ela, manifestações são importantes mesmo quando contam com pouca gente, já que são indícios de mudanças na sociedade, mas devem ser feitas de modo organizado. A socióloga explica que no caso da universidade estadual o erro foi a invasão da reitoria, que acabou com a depredação dos portões de entrada e com paredes pichadas. “Vandalismo não é comum em atos populares”. Ela crê que a atitude de acampar em um prédio administrativo é injustificada. “É diferente do MST, que se apropria de áreas desocupadas”, argumenta.

A professora conta, ainda, que nos anos 1970 e 1980 o movimento sindical organizava protestos sem depredação de locais de trabalho, apesar do registro de exceções. “No movimento estudantil isso é mais comum, assim como em passeatas espontâneas de rua, quando não há organização de fato”. Lampe justifica que atitudes radicais podem ser tomadas quando as autoridades se recusam a dialogar.

Na onda das marchas

Só neste ano, diversas outras manifestações aconteceram nas avenidas das grandes cidades pela iniciativa dos jovens. A marcha anticorrupção reuniu em diferentes municípios milhares de brasileiros descontentes com o desvio de dinheiro público, o que atraiu pessoas de todas as idades e classes sociais sem a participação de partidos políticos. “É normal em uma sociedade avançada e democrática como a do Brasil existir todos os tipos de manifestação, partidárias ou não”, acredita Daniel Iliescu, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade presente na passeata.

Para ele, o mais importante é a juventude estar na rua se manifestando e fortalecendo a democracia. “Os estudantes e o povo, unidos, já provocaram muitas vezes mudanças de rumo no país”, enfatiza.

Diversas outras formas de protesto têm acontecido recentemente. Apoiados no movimento “Ocupe Wall Street”, que se instalou no coração econômico de Nova Iorque para protestar contra o sistema financeiro, a juventude paulistana acampou no Vale do Anhangabaú para pedir uma extensa lista de melhorias, que inclui o aumento dos investimentos público em educação, reivindicação que conta com largo apoio da UNE. “Hoje os investimentos públicos na área são tímidos e não suprem a necessidade do país para se desenvolver”, afirma Iliescu.

Passeata virtual, ocupação digital

Outra característica do Ocupa São Paulo é a forte atuação na internet, por meio de blogs e redes sociais, como recurso de mobilização. Pesquisa divulgada recentemente pelo iG, apontou que 71% dos jovens acreditam que usar a rede mundial de computadores para mobilizar as pessoas é uma forma de fazer política. “É importante que esses movimentos consigam também ultrapassar a internet e fazer a diferença no mundo real”, diz o representante da UNE ao explicar que o movimento estudantil utiliza as redes sociais como instrumento de organização e mobilização. “Por meio das redes, conseguimos fazer espécies de passeatas virtuais para pressionar os parlamentares e, assim, conseguirmos vitórias”, conta.

Apesar disso, ainda existe ceticismo em relação aos movimentos restritos ao mundo virtual. “É uma ferramenta eficaz para manifestações, mas, em geral, não é suficiente para conquistar mudanças”, conta o estudante Guilherme Lampe, que refuta comparações entre manifestações distintas, como a da USP e o Ocupa São Paulo. “É difícil estabelecer limites de ação, cada caso é um caso, com adversários diferentes”.

Passeatas convocadas pelo Facebook, por exemplo, são cada vez mais frequentes, mas nem sempre os protestos conseguem passar da boa intenção e ganhar as ruas. “A internet é uma ferramenta eficaz de manifestação, mas, para ter impacto, precisa sair do meio virtual, que serve como espaço de recrutamento”, explica a socióloga Roseli Aparecida. Mesmo assim, Iliescu, como representante estudantil, argumenta que os jovens estão ocupando diversos espaços, em movimentos culturais e de meio ambiente, associações de bairro e, claro, na internet e nas redes sociais. “Isso tudo não deixa de ser uma participação ativa dos jovens na política”, defende.

Acusada durante tempos de ser despolitizada, a juventude atual encontra velhas e novas formas de se mobilizar, seja por passeatas, pela internet ou por Organizações Não Governamentais. “Acredito que algumas ONG’s acabam fazendo o papel que o Estado deveria realizar e não realiza e isso é uma forma de fazer política”, acredita Júlia Miranda, de 23 anos, que há dois trabalha para a Júnior Achievement, organização voltada para a educação. Por todas essas formas de atuação, o presidente da UNE refuta o rótulo da despolitização, classificando-o como lugar-comum. “Acredito que é um discurso vazio de quem desconhece a realidade da juventude”, conclui.

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