Pais e filhas

Pais e filhas

Atualizado: Segunda-feira, 28 Fevereiro de 2011 as 12:01

Um bom pai pode ser comparado a uma cadeira de balanço antiga, como aquelas do tempo da vovó. Ou com a rede pendurada na árvore da casa da praia. Um bom pai conforta qualquer um de nossos medos com a tranqüilidade de um balanço. Feche os olhos e pense no seu, mesmo se ele for mais distante ou machista. Quando o pai oferece um colo, ele acalma nossos pequenos pecados, não é?

Existe algum segredo na sabedoria patriarcal que permite esse movimento, constante e equilibrado como a cadeira de balanço. Talvez seja a luz da razão, que ilumina mais eles do que elas. É só pensar nas reações do pai e da mãe diante um novo acontecimento que abala o lar doce lar:

- Vou dormir na casa do meu namorado.

- Era só o que me faltava. Você tem 16 anos. Aos dezoito, pode fazer suas escolhas. Por enquanto, vai dormir no quarto, com seu irmão

- Minha filha, sente aqui. A sua mãe não está dizendo que você é imatura e irresponsável, mas tudo tem seu tempo, na vida...

No final, os dois podem até concordar, mas as palavras dos pais soam mais generosas, menos impositivas. Os pais aceitam, entendem melhor a evolução natural dos dias. Aos dezoito, pode ter certeza, nos dão mais crédito do que as mães.

Também é muito mais fácil o pai falar o que nós queremos ouvir. Papai quer nos poupar das aflições ansiosas da vida – e da sua mulher. Pais não ficam tão chocados como as mães. E, quando sofrem, são discretos. Jamais se desesperam em público. Parte mais complicada do seu ofício deve ser a hora de manter a linha, a posição de autoridade, mesmo quando as mães passam por cima. Eles não gritam quando vêem as calcinhas da esposa e das filhas espalhadas pela casa. Eles as juntam. Ou ignoram. Já na situação oposta, também o oposto:

 Amadeu, não deixe suas cuecas por aí. Eu não vou recolher mais! – mas a mãe sempre o faz, de novo e de novo.

Enquanto a mãe tem paciência para agir mais uma vez, o pai tem reserva de paciência antes de abrir a boca e contestar sem relevante motivo. Mas, quando o faz, muitas vezes perde a cabeça, pois já acumulou bons argumentos. E, então, qualquer filhinha cor-de-rosa deve sair da sua frente, correndo. É quando explode o instinto de homem da casa.

O instinto do homem se compara à intuição da mulher. Na verdade, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas, é a origem de ambas as palavrinhas que permite a comparação: tanto o instinto quanto a intuição são características naturais de cada tipo. São inerentes distinções que repelem e atraem. A mãe sente. Intuição. O pai faz. Reação. Na prática, é assim que funciona no meio da madrugada:

- Amor, estou preocupada com as crianças (!) viajando sozinhas. Vou ligar para a Taís.

- Por favor, deixa a Taisinha em paz. Ela está no quinto sono, como eu fazia até agora.

- Quero ligar, vou ligar, preciso ligar. Estou sentindo!

O pai levanta da cama e busca o telefone. Pegou?

Quando procuro por conselho, sento sempre ao lado do meu pai. Enquanto a mãe é um energético, o pai funciona como um calmante. Claro que variações existem e podem provocar o contrário. Mas, pelas histórias que escuto por aí, o ditado vale também para o sexo oposto: os pais são todos iguais, só mudam de endereço.

Por: Annie Piagetti Muller

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