Pais fazem conciliação por tratamento de filho dependente de crack

Pais fazem conciliação por tratamento de filho dependente de crack

Atualizado: Segunda-feira, 20 Junho de 2011 as 8:48

Uma cabeleireira não sabe mais o que fazer para continuar o tratamento do filho, dependente de crack há nove anos.

Ela está sem dinheiro, endividada e busca a conciliação com o plano de saúde, com a clínica onde o filho esteve internado e até com o ex-marido.

"O que eu quero é uma maneira de pagar e que tenha uma maneira de tratar o meu filho. Eu sei que eu não vou ter o meu filho por muito tempo", explica a cabeleireira Rosalina Arantes.

Há 15 anos, o filho caçula da cabeleireira Rosalina vive o drama da dependência de drogas. Começou aos 13, com maconha. Aos 19, conheceu o crack. O jovem, hoje com 28 anos, perdeu emprego, amigos e a noiva, depois de roubá-la para comprar droga. Os dois irmãos do rapaz dormem trancados no quarto, com medo de que ele furte objetos e aparelhos.

"Você não pode confiar em nada. Ele perdeu toda a referência familiar. Esse não é o meu filho, com esse caráter", lamenta Rosalina. "Estou brigado com a minha irmã. Meu irmão. Meu olho enche d'água de falar dele, porque eu já o prejudiquei demais. Minha mãe e meu pai também", desabafa o jovem.

Na conciliação, Rosalina vai lutar para que o tratamento do filho, interrompido por falta de dinheiro, seja retomado. Quem comanda a negociação é a conciliadora Priscila Nogueira, voluntária do Tribunal de Justiça de Minas.

Com uma renda de R$ 800 por mês, Rosalina não consegue bancar sozinha o tratamento do caçula. Além dos remédios caros, ele necessita de acompanhamento psiquiátrico constante. Por isso, em agosto de 2009, Rosalina fechou contrato, em nome do filho, com o plano de saúde Unimed-BH. Era um convênio de co-participação, ou seja, a cabeleireira pagava parte das despesas.

Menos de um ano depois, no entanto, o plano foi cancelado. Motivo: uma das mensalidades ficou em aberto por mais de dois meses. Pela lei, um atraso superior a 60 dias, consecutivos ou não, no decorrer do ano, dá à operadora o direito de rescindir o contrato. O plano de saúde agiu de acordo com a legislação, mas, dependendo do caso, o juiz pode desconsiderar a regra dos 60 dias, afirmam os juristas.

Hoje, a família deve R$ 1,8 mil ao plano e esse não é o único dos problemas. Rosalina tem uma dívida de R$ 4,5 mil com uma clínica para tratamento de dependentes químicos, em Cajamar, interior de São Paulo. Em 2009 e 2010, o filho da cabeleireira passou duas temporadas de cinco meses. Só que eles não quitaram as três últimas parcelas. Hoje, os cheques encontram-se protestados e os dois estão com o nome sujo. Combater o vício do crack, em alguns casos, exige medidas extremas.

O governo não vê a internação como a única forma de tratar a dependência, explica o Ministério da Saúde em nota. De acordo com o texto, a rede pública de saúde oferece ampla assistência, sem necessariamente isolar o paciente. Para Rosalina, porém, não existe outra maneira de afastar o filho do crack.

"Eu sempre fui louco por música, sabe? Na maioria das vezes, para mim, a música é o meu socorro maior. Quero falar para o meu irmão que eu amo ele demais. Para minha mãe, para o meu pai. Minha irmã, independente que ela está mordida comigo, está brava, eu amo ela também demais", diz o jovem dependente.

Sem plano de saúde há nove meses, o jovem continua se drogando. Todas as noites, fuma crack na região da Pedreira Prado Lopes, a cracolândia de Belo Horizonte. Rosalina se desespera. "Hoje não sei mais de que maneira eu vou receber o meu filho amanhã, se eu recebo ele preso, se eu recebo ele morto, sabe? É muito complicado para uma mãe chegar nessa situação", desabafa.

Como último recurso, antes de abrir um processo, ela decidiu pedir conciliação. Chamou o plano de saúde, a clínica e o ex-marido, de quem está separada há oito anos. Embora o rapaz não queira voltar para a clínica, ele diz que foi maltratado lá, a mãe está convicta: é de uma nova internação que o filho precisa.

"O Tribunal de Justiça tem investido na pacificação social, resgatando, assim, a dignidade e a cidadania das pessoas", explica a gestora do núcleo de conciliação do TJ-MG.

Rosalina e Murilo pedem que as empresas dêem uma nova chance ao filho deles. Logo de cara, uma boa notícia. O representante da clínica de reabilitação anuncia: "Eu proponho perdoar a dívida total. A gente se sensibilizou com a situação, sabemos que são pessoas de boa índole, porque eu conheço a dona Rosalina. Eu vou perdoar e devolver todos os cheques para eles", declara o supervisor da clínica de reabilitação Fernando Bittencourt.

A negociação, agora, é com o plano de saúde. Mas, no caminho, existe um débito de R$ 1,8 mil. O advogado da operadora oferece desconto. A conciliadora Priscila pergunta se a empresa pode melhorar a proposta.

"A operadora se encontra disposta a tentar formalizar o acordo, porque a intenção da operadora é sempre ter o cliente ao seu lado. Nós já estamos concedendo um desconto. O que eu estou propondo é que esse valor pode ser pago parcelado. Doze parcelas de R$ 140,94", sugere Ricardo.

"Não pode ceder mais um pouquinho para entender mais a situação dos pais?", pergunta a conciliadora. "Eu não posso tratar as pessoas, os nossos clientes, de uma forma desigual", responde o advogado da Unimed.

O plano não abre mão dos R$ 1,6 mil, em 16 vezes. Murilo fica indignado. "Não é que ele vai comprar fiado. Nós queremos pagar porque nós somos dignos, somos pais, temos honra para saldar a dívida do nosso filho. Eu não vou aceitar 16 parcelas. Só aceito 14 parcelas. É a minha proposta final", propõe Murilo.

"A nossa proposta final seriam as 16 parcelas", rebate Ricardo. Fim da conciliação? Ainda não. O representante da clínica abre uma exceção e faz uma oferta surpreendente. "Eu proponho estar fornecendo um tratamento, todo o acompanhamento psiquiátrico, psicológico, terapêutico. A clínica vai fornecer um tratamento de seis meses", diz Fernando.

Encorajada pela mudança de rumo, a advogada de Rosalina sugere ao plano um meio termo: 15 parcelas de R$ 100. O advogado concorda: "15 parcelas, doutora".

Assinam acordo, com juiz careca na cabeceira da mesa final da seq. Conciliação

Acordo firmado e homologado pelo juiz. A dívida original encolheu e o filho de Rosalina ganhou outra oportunidade de se livrar do crack. Mais aliviada, a cabeleireira só tem uma queixa. "Fico triste de saber que meu filho ainda sai sem um plano de saúde", lamenta Rosalina.

Murilo resolve assumir sozinho as prestações e se emociona. "E as milhares de famílias que estão por aí? Não somos únicos. Tem muita gente precisando", diz.

Para ele, a caminhada está longe de terminar. "Vamos correr atrás de um plano de saúde. Desistir, nunca", completa.

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