Paulistanos se formam em design de videogames

Paulistanos se formam em design de videogames

Atualizado: Terça-feira, 27 Julho de 2010 as 11:02

Quando eles começaram a jogar videogame, o Atari já era peça de museu. Jaspion e Mega Man são suas referências mais remotas de super-heróis. Nascidos nos anos 1990, chegam à fase adulta (e ao mercado de trabalho) num momento em que ser nerd é legal. Facílimo entender, portanto, o que levou os mais de mil jovens que cursam design de games em cinco universidades paulistanas a transformar seu hobby predileto em profissão.

Depois de passar os últimos anos testando os jogos desenvolvidos por “tiozinhos” trintões, os futuros designers de videogames e programadores de jogos digitais querem criar eles mesmos o game perfeito. “Desde pequeno, eu reparava em detalhes dos jogos que ninguém mais via”, diz Daniel Delayte, de 20 anos, aluno do quinto semestre da Anhembi Morumbi. “Quando cheguei ao final de Prince of Persia, assisti aos vídeos que mostram como os designers e programadores trabalham. Aí vi os caras modelando os personagens, e a ficha caiu: era isso que eu queria fazer.” Mas, para se tornar um criador da nova geração de jogos, o repertório construído em toda uma infância - e adolescência – com o joystick na mão não basta. “Os alunos precisam passar a pensar como especialistas, e não só como jogadores”, diz Donizetti Louro, professor de evolução dos games da Pontifícia Universidade Católica (PUC). “Eles precisam ter elementos técnicos para analisar criticamente o mercado e pensar em produtos melhores que os oferecidos hoje.”

Para incutir essa nova mentalidade nos alunos, as faculdades exigem uma ampla carga de trabalhos práticos. O resultado? Quase não sobra tempo para o videogame. “Antes da faculdade, eu jogava pra caramba. Agora, só nos fins de semana”, conta Daniel. “Nos próximos dois meses tenho de entregar quatro jogos e umas sete animações, fora os trabalhos escritos.” A proposta geral do curso é formar profissionais capazes de conceber, projetar, programar e administrar jogos eletrônicos para internet, computadores, celulares e todos os tipos de consoles.

Daí o currículo ser uma abrangente mescla de disciplinas de exatas, humanas e áreas técnicas. Aulas como hipermídia e narratividade, evolução de games e mitologia ajudam os alunos a ampliar o repertório para além das fronteiras da cultura pop. Em planejamento de sistemas, matemática aplicada e programação, aprendem os mecanismos que permitem o funcionamento de um jogo. Às disciplinas técnicas, como story boarding, modelagem 3D e concept art, cabe ensinar a operação dos softwares utilizados para criar personagens e o layout dos jogos.

A primeira universidade paulistana a oferecer a graduação em game design foi a Anhembi Morumbi, em 2003. Desde então, formou 120 profissionais. Seu curso tem duração de oito semestres. Nas outras quatro instituições de ensino da capital, é chamado de jogos digitais. O da Unicsul, criado em 2005, tem quatro semestres e 20% das aulas são ministradas a distância, on-line. O da PUC, de 2007, formou 30 alunos no final do ano passado e dura seis semestres. Criados em 2009, os cursos da FMU e do Senac ainda não são reconhecidos pelo MEC e duram, respectivamente, quatro e cinco semestres.

Fantasias sob medida

Em todas essas faculdades, os alunos se dividem entre laboratórios de computação e salas de aula convencionais. Os trabalhos são apresentados em competições ou eventos internos. Leonardo de Oliveira Leite, de 19 anos, criou com outros colegas o conceito de um jogo para Atari que misturava referências de Pac Man e Space Invaders. Com ele, venceu a disputa das turmas de terceiro semestre, em maio. “Vou focar minha carreira em game design, game play e concept”, diz. Ele se refere às etapas de criação de um jogo que determinam o ritmo, as regras, o tom da narrativa, os personagens e suas respectivas habilidades. Para desenvolver os projetos da faculdade, Leonardo diz que estuda de quatro a oito horas diárias, além do período de aulas. E ainda faz um curso livre na Saga - School of Art, Game and Animation para aprofundar seus conhecimentos na operação dos softwares de design de armas e de personagens.

As disciplinas práticas são as preferidas das turmas. Durante uma aula de desenho de ambiente na Anhembi Morumbi, o professor Ricardo Troula discutia os elementos que combinam com cada personagem enquanto rabiscava exemplos no tablet e os projetava na parede. “Você precisa sacar o sujeito”, dizia Troula. “Monstros não podem esboçar qualquer aspecto positivo. Não são caras para quem você vai apresentar sua filha.” Em suas aulas, os alunos criam personagens que serão transpostos para o computador e, no semestre seguinte, transformados em objetos tridimensionais.

Essa é a área que interessa a Rebeca Zanardo, de 21 anos, aluna do quinto semestre da Anhembi Morumbi. No começo do curso, ela descobriu que quer trabalhar com modelagem 3D, criando cada traço de um personagem. “Gosto mesmo de desenhar vampiras e mulheres”, diz Rebeca. Um tanto encabulada, ela conta que participou de concursos de cosplay na adolescência. E que ainda guarda duas fantasias, feitas sob medida, das personagens que interpretava nesses eventos: Lara Croft, a heroína da franquia Tomb Raider, e Hinata, a tímida guerreira do desenho Naruto.

Postado por: Felipe Pinheiro

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