Pesquisa mostra que 55% dos jovens pegam carona com motoristas que beberam

Pesquisa mostra que 55% dos jovens pegam carona com motoristas que beberam

Atualizado: Sexta-feira, 7 Maio de 2010 as 4:02

A poucas semanas do segundo aniversário da Lei Seca (11.705), sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 19 de junho de 2008, pesquisa do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) mostra que o texto elaborado para pôr fim à carnificina no asfalto causada por embriaguez ao volante ainda é desprezado por muita gente. O estudo, batizado de A balada, o carona e a Lei Seca, ouviu 868 jovens, de 15 a 17 anos, e revela uma situação antagônica: apesar de 88,5% deles defenderem a proibição da mistura álcool e direção, 55% voltam para casa, depois da diversão noturna, de carona com motoristas que beberam cerveja ou destilados. O levantamento foi feito em Belo Horizonte, Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Brasília (DF), Recife (PE) e Porto Alegre (RS).

A parcela de adolescentes que arriscam a vida ao lado de pessoas alcoolizadas ao volante preocupa os especialistas em segurança no trânsito, pois o estudo mostra que os jovens são bem informados, mas incapazes de reverter uma situação crítica. "É um dado que nos assusta", lamenta a coordenadora de educação-substituta do Denatran, Rita de Cássia Ferreira Cunha. Ela acrescenta que a pesquisa detectou também outro aspecto importante e que pode direcionar o rumo de campanhas educativas: "Meninos e meninas agem de forma diferente quando o assunto é trânsito".

O levantamento mostra ainda que a vulnerabilidade dos garotos é mais acentuada, pois a maioria deles (61,2%) retorna para casa com um embriagado na direção. No caso das moças, o indicador é menor (50,7%), porém não menos preocupante. O estudante Felipe de Oliveira, de 16 anos, já perdeu um amigo que pegou carona com um motorista bêbado. Para não ter o mesmo fim, ele e os colegas andam de ônibus quando saem para se divertir em BH. "Não corremos o risco de ser a próxima vítima. Vamos e voltamos de ônibus. Quando o dinheiro permite, retornamos de táxi", assegura o rapaz.

Por outro lado, ele conhece muitos jovens de sua idade que não se incomodam em entrar em carros conduzidos por pessoas embriagadas. A estudante C.S.N., que faz 16 anos neste sábado, é outra que se preocupa com a segurança, mas admite que já voltou para casa com alguém embriagado ao volante. "Foi um voto de confiança, pois ele é meu parente e eu não tinha dinheiro para pagar um táxi. Mas, hoje não entro mais em carro de quem bebe. Minha mãe costuma me levar e o meu namorado para passear nos fins de semana à noite. Depois, a gente telefona e ela nos busca. É mais seguro."

A consciência que a garota tem, contudo, é desprezada por muitos jovens. "Psicologicamente, o adolescente não tem segurança para fazer algo que a turma dele não quer. De maneira geral, se os colegas manifestam o contrário, ele vai na onda dos amigos. Vai muito da psicologia do grupo, que sinaliza de um lado e o jovem vai junto. É preciso uma campanha com o grupo, como alguém que diga ‘vamos todos de ônibus ou vamos dividir o táxi’. Mas o que mais me chama a atenção é o fato de 85% concordarem com a lei. Indica que eles têm uma escala de valores correta. O problema é levá-la adiante no dia a dia", avalia Ronaro Ferreira, supervisor da Gerência de Educação da BHTrans.

O Denatran não detalhou os números cidade por cidade, mas dados de 2009, do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MG), mostram que muitos moradores de BH assumem a direção depois de alguns goles. Trata-se das 427 carteiras de habilitação suspensas na cidade no ano passado, por causa da mistura álcool e direção.

Nota dez

A pesquisa abordou a importância que os jovens dão ao chamado motorista da vez, como ficaram conhecidos aqueles que não ingerem bebida alcóolica e que dão carona para os colegas que abusam de cervejas e destilados. É o caso do funcionário público e estudante de direito Alexandre Pires, de 30 anos. Há duas décadas, ele não bebe uma gota de álcool, motivo que valoriza seu passe entre os amigos de faculdade.

"Sou sempre requisitado. É a questão da segurança, pois o motorista que bebe põe em risco a própria vida e a de terceiros. Muitos acidentes envolvem pessoas que têm toda precaução (com a Lei Seca), mas que são vítimas daqueles que não têm. Há duas situações: a das pessoas que seguem as normas e a das que as desprezam", diz o rapaz, que já perdeu um amigo num acidente na BR-381, perto de Santa Luzia: "Ele havia bebido e entrou debaixo de uma carreta".

Por: Paulo Henrique Lobato

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