Pular de empresa em empresa não é bem visto por recrutadores

Pular de empresa em empresa não é bem visto por recrutadores

Atualizado: Quinta-feira, 4 Agosto de 2011 as 10:36

Quem assistiu ao programa "CQC", da Rede Bandeirantes, na segunda-feira, viu o apresentador José Luiz Datena como âncora, substituindo o titular Marcelo Tas. Datena, que mudou cinco vezes de emissora e acaba de voltar para a Band, fingia a todo o momento que se esquecia em qual emissora estava. "Ontem era Record, hoje é Band", dizia Rafinha Bastos, um dos apresentadores.

Na vida real, as constantes mudanças de empresa em um curto espaço de tempo, geralmente, não são bem vistas pelos recrutadores, avalia Monika Hamori, professora de administração e recursos humanos na IE Business School.

Falácias

Em um artigo publicado na revista Harvard Business Review, em 2010, a professora identificou quatro falácias na carreira, sendo que uma delas dizia, justamente, que "quem troca sempre de emprego, sobe". Segundo Monika, a lealdade é uma coisa boa.

Em seu estudo sobre a rotatividade na carreira, a professora diz que os executivos que permaneciam na mesma companhia eram promovidos mais rapidamente do que aqueles que saíam em busca de outras oportunidades. "Uma provável razão para o desempenho melhor de candidatos internos é que a empresa sabe mais sobre eles. Promover alguém de dentro traz menos riscos do que contratar alguém de fora, por mais extenso que seja seu currículo ou mais detalhadas, as referências", explica Monika.

A professora cita que um recrutador do setor financeiro comentou com ela que seu mercado gosta de pessoas que têm em seu currículo duas ou três empresas. Depois disso, eles olham o tempo que esse candidato ficou em cada companhia. É bem aceitável ter ficado dez anos em uma empresa, depois dois ou três anos na seguinte e ter novamente uma longa permanência de uns oito anos.

Um estudo da rede profissional ExecuNet, de 2009, concluiu que o executivo, hoje, fica em média 3,3 anos numa organização antes de buscar outros ares – em sua passagem pela Record, Datena ficou menos de dois meses.

Fideldade consigo mesmoi

Em sete anos de carreira, o executivo do setor de compras A. L., que preferiu não se identificar, mudou de emprego quatro vezes. Foi trainee em uma emissora de televisão, depois trabalhou em uma companhia de informática, em uma siderurgia e, atualmente, trabalha em uma empresa de cosméticos. "Eu busco o crescimento na minha carreira com responsabilidade, mas nunca deixei um ‘buraco’ por onde passei. Ou seja, antes de sair, eu alinhava os processos com meus superiores e preparava um sucessor", conta.

Apesar de a rotatividade de empregos não ser muito bem vista, ela é compreendida como uma característica inerente, principalmente, à geração Y. "Eles são mais autônomos, mais independentes, vivem mais para si, a lealdade deles é com eles mesmos e não com a empresa", classifica Aline Souki, professora de comportamento organizacional e gestão de pessoas em cursos de pós-graduação da Fundação Dom Cabral.

Retenção de talentos

E essa falta de "fidelidade corporativa" está fazendo com que muitas empresas adotem medidas para reter os profissionais considerados mais talentosos. Uma pesquisa da Câmara Americana de Comércio (Amcham) aponta que como parte da estratégia para reter talentos, mais de 40% das empresas adotam a flexibilidade de horários e 34,5% criam planos de carreira específicos para esses jovens.

Segundo Eduard Schein, autor do livro "Career Anchors Revisited: Implications for Career Development in the 21st Century" (Âncoras de Carreira Revisitadas: Implicações para o Desenvolvimento na Carreira no Século 21, em tradução livre do inglês), para reter esses talentos, as empresas precisam oferecer atrativos que os segurem.

Schein identificou oito "âncoras" de carreira. As principais, segundo o levantamento, são autonomia e independência; e segurança e estabilidade. Para o autor, a âncora predominante é aquela de que o profissional não abrirá mão mesmo em processos difíceis de tomada de decisão e pode ser identificada a partir de experiências reais.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a rotatividade de jovens de 15 a 18 anos no mercado, no período de 12 meses, aumentou 73,5% em dez anos: a taxa passou de 41,2%, em 1999, para 71,4%, em 2009. A conta equivale a dois em cada três brasileiros nessa faixa etária, com carteira de trabalho assinada, trocassem de emprego em um ano.

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