Quando eu ficar mais velho serei igual aos meus pais?

Quando eu ficar mais velho serei igual aos meus pais?

Atualizado: Segunda-feira, 10 Maio de 2010 as 2:26

Você tem muito mais coisas em comum com seus antepassados do que o jeito com que franze a sobrancelha e o timbre da voz. Isso porque a grande maioria das doenças possui um componente genético. Algumas, inclusive, são exclusivamente causadas por mutações no DNA - como o albinismo e a síndrome de Down. “E mesmo as que pensamos ter origem em fatores ambientais podem ter um gene por trás”, diz a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, da Universidade de São Paulo.

Comparando animais que vivem mais aos que vivem menos, os cientistas descobriram algo comum a todas as espécies: é campeão de longevidade quem mantém com maior eficiência a integridade de seu DNA. Isso porque o tempo todo nossas células sofrem danos, em que uma pequena parte de nossos genes se altera. Nosso organismo possui mecanismos naturais para reparar muitos desses erros, mas não todos. E essa capacidade de conserto cai à medida que a população envelhece - em 1910, uma mulher nascida no Brasil tinha expectativa de vida de 34 anos; em 2000, de 72; e, segundo o IBGE, em 2050, chegará aos 81 anos.

As falhas genéticas hereditárias passam de geração para geração. Podem ter tanto origem materna quanto paterna - ou ainda precisar que a mutação exista no DNA dos dois lados da família para se manifestar. A boa notícia é que todas as enfermidades recorrentes na velhice, como o infarto e o diabetes, não são totalmente determinadas pelos genes. O fator genético é uma condição necessária para a predisposição à doença, mas não é suficiente por si só.

É como se a carga genética fosse uma fechadura e os fatores ambientais (o cigarro, o sedentarismo...), a chave. Hoje você pode jogar fora a chave e nunca mais abrir a fechadura. “No futuro, vamos poder colocar um esparadrapo nela, para que, mesmo na existência de fatores de risco, a doença não se manifeste”, diz o cardiologista Marcelo Sampaio, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo.

Enquanto isso, descubra se você corre risco de desenvolver alguma doença hereditária e comece já a vencer a genética.

Herança genética

Praticamente todas as doenças cardíacas, como hipertensão e infarto do miocárdio, têm alguma vinculação genética. São genes que sofreram uma alteração e produzem substâncias de mais ou de menos. Até pouco tempo atrás, os cientistas não conseguiam determinar os genes envolvidos, porque eram muitos que pareciam interagir entre si.

Mas a equipe do Instituto Dante Pazzanese conseguiu chegar a oito deles que estão ativos do início ao fim do processo de infarto. Todo paciente que chegava ao hospital com a queixa passava por um exame de sangue. Esse sangue ia para um aparelho que mapeava quais os genes em ação no exato momento do ataque cardíaco. Os médicos compararam os resultados de dez pessoas e chegaram a 320 genes ativados em algum momento do processo de infarto, oito em ação do princípio ao fim. “Quase todos eram responsáveis por formar ‘ganchos’ que prendiam substâncias nocivas à célula, causando uma infl amação”, explica Sampaio, um dos autores do estudo.

Drible o seu DNA

O fator genético está provavelmente presente na sua família se houver um parente de primeiro grau que tenha tido uma doença cardíaca com menos de 55 anos, sendo homem, ou menos de 65 anos, sendo mulher. Nesse caso, comece já a prevenção. Caminhe diariamente durante uma hora - se você seguir isso à risca, não há necessidade de exercícios extenuantes. Elimine fatores de risco: o cigarro aumenta de quatro a seis vezes a chance de um infarto; pressão alta, de três a cinco vezes; colesterol alto, três vezes.

Câncer de mama

Herança genética

Todas as formas de câncer são genéticas, porque são causadas por uma mutação. E todas as mulheres correm 10% de risco de desenvolver câncer de mama. “Quem tem a mutação hereditária vê essa chance subir para 80%”, afirma Mayana. Já conhecemos, no entanto, dois genes associados à enfermidade: o BRCA1 e o BRCA2, que podem ser passados por um lado só da família, tanto faz se materno ou paterno (sim, homem também pode carregar o gene e inclusive ter câncer de mama). Uma pesquisa da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, descobriu outra leva de genes perigosos, porém menos agressivos: FGFR2, TNRC9, MAP3K1 e LSP1.

Drible o seu DNA

Se você tem pelo menos dois casos de câncer de mama na família em mulheres com menos de 50 anos, fique alerta. Conte ao seu ginecologista. Ele vai recomendar exames de mamgrafi a anuais, mesmo se você tiver menos de 30 anos. Caso esteja acima do peso, considere levar mais a sério a academia. Um estudo do Instituto Americano do Câncer demonstrou que obesas produzem mais estrogênio e por isso estão mais vulneráveis. Segundo a pesquisa, mulheres que viram o ponteiro da balança subir de 10 a 20 kg entre os 35 e os 50 anos também veem o risco aumentar em 41%. Existe ainda uma opção extrema: a mastectomia profilática (remoção de parte da mama como forma de prevenção da doença). “Comum nos EUA e na Europa, isso ainda é um tema controverso”, diz o médico Carlos Gil Ferreira, consultor de oncologia do Hospital Copa D’Or, no Rio de Janeiro.

Herança genética

De 5 a 10% dos casos são hereditários. Mais uma vez os vilões são os genes BRCA1 e BRCA2. “Por algum motivo ainda desconhecido, esses genes reduzem a capacidade do organismo de reparar mutações do DNA”, explica Ferreira. Como os genes são os mesmos, ter pessoas na família com câncer de mama é um alerta para o risco de câncer de ovário, e vice-versa.

Drible o seu DNA

Se você tem predisposição à doença, precisa ser seguida de forma especial pelo médico, até porque essa é a forma de câncer ginecológico mais difícil de ser diagnosticado. Como não é detectado pelo exame papanicolau, a doença pode se alastrar antes que você sinta os primeiros sintomas. Realize regularmente ultrassom e tomografia abdominal. E procure um especialista em oncogenética para acompanhá-la também. Se pretende ter fi lhos, saiba que a decisão pode ajudá-la a passar longe da doença. Os médicos ainda não sabem exatamente por quê, mas engravidar reduz o risco da doença (e também do câncer de mama). Mulheres que já tiveram filhos e não desejam ampliar a família têm a opção de retirar os ovários como medida profilática.

Doenças respiratórias

Herança genética

Se você tem pai ou mãe alérgico, sua chance de ter que andar com lenços de papel na bolsa aumenta 50% em relação à população comum. Se ambos são alérgicos, o risco salta para 80% - é melhor virar sócia de uma empresa que fabrique os lenços. Há, no entanto, pessoas que passam a vida inteira fumando e, mesmo assim, não sofrem de nenhum problema respiratório, como asma ou enfisema pulmonar. Elas possuem uma variante de um gene responsável por produzir a proteína MMP-12, que degrada a elastina do pulmão. É o que aponta um estudo publicado na revista especializada New England Journal of Medicine. “Esse gene é ativado pelo cigarro”, diz Mayana. Mas há quem tenha uma variante do gene que produz a proteína em uma quantidade muito menor. São como a francesa Jeanne Calment, a mulher que viveu mais tempo até hoje. Morta em 1977, aos 122 anos, ela fumou por quase um século. Mas não se anime. “Somente 10% da população é portadora desse gene”, alerta a geneticista.

Drible o seu DNA

Comece jogando fora todos os cinzeiros - o cigarro contém cerca de 4 700 substâncias tóxicas ao organismo, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Já existe um consenso médico de que o alcatrão, uma dessas substâncias nocivas, favorece a formação de tumores. O cigarro aumenta em cinco vezes o risco de câncer de pulmão e não fumantes têm de 20 a 30% a mais de chance de ter a doença se ficam expostos à fumaça.

Alzheimer

Herança genética

Todas as pessoas possuem genes apo-E, responsáveis por regular a transmissão de informações entre os neurônios, principalmente as relacionadas à memória. “Está provado que os portadores de uma das versões desse gene, o apo-E4, têm de 15 a 20% a mais de chance de sofrer de Alzheimer”, diz o neurologista Renato Puppi Munhoz, vice-coordenador do departamento de neurogenética da Academia Brasileira de Neurologia. Outros genes que predispõem à doença são o CR1, o CLU e o PICALM, identificados no ano passado com base em um estudo com 16 mil amostras de DNA que envolveu cientistas das maiores universidades britânicas, como as de Londres e Oxford. Quando normais, esses genes agem protegendo o cérebro, processando o colesterol e combatendo inflamações. Se sofrem mutações, no entanto, eles se rebelam e atacam o organismo.

Drible o seu DNA

O melhor modo de manter sua mente em forma é malhar: explore comidas, lugares e sensações inéditas. Jogue diariamente sudoku, o quebra-cabeça numérico de origem japonesa que estimula o raciocínio lógico e exige concentração. Se você foi ao show da Beyoncé, comemore: um estudo da Faculdade de Medicina Albert Einstein, nos EUA, apontou que dançar reduz em 76% o risco de demência. Realize um checkup anual a partir da meia-idade e, havendo alguma queixa de memória, solicite a um neurologista, geriatra ou psiquiatra o miniexame do estado mental (teste que checa se o paciente está orientado no tempo e no espaço, se presta atenção no que está fazendo, se consegue decorar uma lista de palavras...). Cuide-se para não desenvolver outros fatores de risco, como diabetes, hipertensão, colesterol e triglicérides altos.

Parkinson

Herança genética

A segunda doença neurodegenerativa mais frequente tem uma relação direta com o metabolismo de dopamina, neurotransmissor que regula o movimento, a rigidez e o equilíbrio do corpo. Uma função inadequada leva à enfermidade. “E uma mutação nos genes PARK2 e RRK2, produtores da proteína precursora de betamiloide, um formador das paredes dos neurônios, determina a doença mesmo sem nenhum fator ambiental para despertá-la”, diz Munhoz. Independentemente do gene envolvido, quando hereditária, a doença chega mais cedo: antes dos 60, mas pode ser até na casa dos 30. No resto da população, prevalece em indivíduos na faixa dos 80 anos.

Drible o seu DNA

Não existem formas de prevenção, mas há tratamentos melhores do que para o Alzheimer, com medicamentos que estabilizam a doença. “Há estudos experimentais nos EUA na tentativa de fazer com que o organismo volte a produzir dopamina. Mas estamos longe de um tratamento efetivo”, afirma Munhoz. Uma pesquisa da Universidade Pierre e Marie Curie, na França, apontou que agricultores expostos diretamente a agrotóxicos tiveram 50% mais chance de desenvolver a doença. Ainda não há estudos significativos, mas suspeita-se que a contaminação indireta, por meio da água e dos alimentos, favoreça a doença.

Diabetes

Herança genética

Há pelo menos dez genes já conhecidos com algum papel no desenvolvimento de diabetes. Mas os cientistas não têm a menor ideia se existem mais outros dez ou 800. “Também não sabemos quanto eles são responsáveis para o desenvolvimento da doença - pode ser 5 ou 95%”, diz o geneticista Salmo Raskin, professor da PUC-Paraná e presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica.

Drible o seu DNA

Muito mais exata é a convicção dos médicos de que o sedentarismo e o sobrepeso favorecem a manifestação desses genes. O Programa de Prevenção de Diabetes do governo americano preconiza 2 horas e meia por semana de exercício e redução da ingestão de gordura para no máximo 27,5%. Assim você reduz o risco pela metade.

Postado por: Cristiano Bitencourt

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