Rafinha Bastos estreia novo espetáculo; veja entrevista

Rafinha Bastos estreia novo espetáculo; veja entrevista

Atualizado: Terça-feira, 22 Março de 2011 as 9:10

O Comediante Rafinha Bastos estreia na próxima quinta-feira (24) seu novo espetáculo de stand-up comedy, o "Apenas Uma Boa Pessoa". A peça segue a tendência estabelecida pelo prestes a ser lançado em DVD, "A Arte do Insulto", e traz o comediante fazendo piadas sobre situações cotidianas e assuntos polêmicos. "Acho que ficar testando o limite do bom gosto e o limite do preconceito é a graça da brincadeira", explica o humorista..

A peça é uma das atrações do Risadaria, evento que acontecerá entre os dias 24 e 27 de março, em São Paulo, e reúne comediantes consagrados e novos talentos em diversas apresentações. Além de Rafinha, destaque para a presença dos norte-americanos Avner The Eccentric e Michael Winslow – aquele que faz os barulhos com a boca na série de filmes "Loucademia de Polícia".

Em conversa com o IG Jovem, o apresentador do programa "CQC" da Band falou um pouco sobre a nova empreitada, filosofou a respeito da arte de fazer humor e ainda deu a dica para quem quer ver a nova apresentação: "Não é um show convencional, ninguém vai ver piadinhas simples sobre assuntos convencionais". Confira a entrevista na íntegra:     

Seu último espetáculo solo era "A Arte do Insulto", o novo, em tom irônico, se chama "Apenas Uma Boa Pessoa"... Você sempre fez o tipo mau humorado?

Eu não acho que nenhum dos dois espetáculos procure passar que eu sou mau humorado, mas sim que meus textos são mais pesados e que as temáticas que eu trato são um, pouco mais densas. Neste novo espetáculo, por exemplo, eu trato de assuntos que vão desde situações da minha vida pessoal até opiniões que tenho a respeito de igreja, estupro... Eu coloco esses títulos para as pessoas se prepararem que não é um show convencional, ninguém vai ver piadinhas simples sobre assuntos convencionais.

O que muda nessa nova apresentação?

O estilo é similar, eu continuo sendo eu mesmo. É praticamente uma continuação do espetáculo anterior. 100% do show é novo, faço questão de destacar isso: tudo que eu apresento é completamente autoral, é meu mesmo, eu que desenvolvo, eu que escrevo.

As piadas dos espetáculos são as mesmas em todas as cidades?

Como a minha comédia surge do meu dia-a-dia, fala muito do meu cotidiano, posso fazer alguma adaptaçãozinha ou outra, mas nunca escrevo piadas específicas sobre São Paulo, sobre o Rio de Janeiro, não vejo muita graça no cotidiano da grande metrópole. Eu vejo sim humor nas pessoas, eu já crio meus textos pensando em Brasil, pensando em viajar com o espetáculo.

Já aconteceu de o público não reagir como esperado?

Milhões de vezes. A maior parte das vezes que as pessoas não se agradam é por ficarem chocadas com alguns assuntos que eu trato, o que é extremamente natural. Quando eu toco em alguma ferida, em algo que a pessoa não está habituada a discutir, eu acabo despertando nesta pessoa um desconforto, talvez por um preconceito que ela mesmo carregue sobre certos assuntos. Acho que ficar testando o limite do bom gosto e o limite do preconceito é a graça da brincadeira.

Tem alguma situação engraçada que já aconteceu?

Já teve grupo de pessoas levantando, senhoras evangélicas que levantaram durante o espetáculo e me chamaram de herege, por exemplo. Algumas pessoas não conseguem rir da própria desgraça ou tem opiniões muito reacionárias a respeito de alguns assuntos. Eu tento fugir do óbvio o tempo inteiro, e isso pode acabar dificultando um pouco a compreensão de algumas piadas, que precisam de um pouco de referência, que precisam de um raciocínio mais rápido... tem vezes que as pessoas não entendem, mas isso é natural. Não posso diminuir a força da minha comédia para agradar mais gente.

O que é mais difícil, o humor mais espalhafatoso, com mais gente, cenários e palhaçadas, como o dos vídeos da Página do Rafinha ou o humor de "cara limpa" que você faz hoje?

Nem se compara, o humor de "cara limpa" é muito mais difícil. Eu nunca fui bom com caretas, não sou um cara engraçado 24 horas por dia. Eu sou aquele cara que fica geralmente no fundo da mesa, fazendo comentários engraçados, não sou aquele que sobre na mesa e conta piadas. Esse cara costuma ser mais divertido no dia-a-dia. Desde a Página do Rafinha que não faço mais essas coisas, foi uma maneira que encontrei de fazer humor com os recursos que eu tinha disponíveis. Hoje é diferente, tenho vontade de falar, de me expressar, tem coisas que eu quero dizer. Eu amadureci também e já não vejo muita graça no humor performático, sem dizer que um seja superior ou inferior ao outro, mas realmente acho mais difícil bolar um texto do que fazer uma careta. Não tenho mais vontade de me fantasiar e fazer o bêbado, o drogado ou o caipira... não tenho absolutamente nenhum talento para isso.

O Paulo Bonfá comentou uma vez sobre um comediante que ele estava certo que tinha roubado uma piada dele, depois ele descobriu que a pessoa tinha escrito o texto antes. Você já teve alguma experiência parecida?

Muitas vezes. Chegou a acontecer coisas similares até mesmo dentro do Clube da Comédia, que eram quatro pessoas. Teve uma vez que eu bolei um material e fiz duas piadas que eram absolutamente iguais do outro colega meu do clube. Ele fez as mesmas piadas na mesma noite e teve gente achando que um tinha roubado do outro. Existem coincidências sim, elas acontecem, mas isso é natural, faz parte da comédia. O problema é que tem também muita gente por aí pegando piada de americano, pegando piada da internet... Sempre tem um safado ou outro pegando cinco minutos de textos do Bill Crosby, do Seinfeld, ou até mesmo de um comediante de sua cidade, e o público é sempre o último a saber..

Você mencionou alguns artistas americanos, como você vê a stand-up comedy brasileira de hoje em comparação com os Estados Unidos, eles ainda são muito superiores?

Não são. Quando fomos montar o Comedians eu estive em Nova York duas vezes, vendo uns clubes de comédia para pegar umas referências de espaço e tudo, e a gente não está atrás mesmo, tem muita gente boa aqui. A diferença é que tem comediantes que fazem isso há 20, 30 anos nos Estados Unidos, então é outro preparo, é outra descoberta. Eu, que fui um dos primeiros a fazer, faço isso há sete anos. Ainda estou me descobrindo, me conhecendo como pessoa, desenvolvendo meu raciocínio. Para levar isto para o palco com naturalidade é um processo que demora anos, não acontece de uma hora pra outra.

Para o jovem que quer também se tornar um hit do humor na internet, ficar rico, famoso e ter um programa na televisão, quais as dicas?

A primeira dica é não ter este objetivo, porque estar na internet e querer ter um programa de televisão é um passo pra trás, na verdade. Acho muito mais legal vencer na internet do que vencer na televisão. Eu, às vezes, invado a casa das pessoas através da televisão, mas ninguém invade o seu computador - você vai atrás daquele conteúdo, tem muito mais mérito nisso. Para dar certo na internet, a pessoa tem que buscar algo diferente, algo que não esteja sendo feito, independentemente da plataforma: vídeo, áudio, blog... Não adianta querer simplesmente se tornar um sucesso do stand-up comedy na internet, ou fazer videoclipes musicais sensacionais... Se destacar em um meio que já está bastante carregado é muito difícil, o legal é criar um meio para fazer alguma coisa que ninguém está fazendo. Não sei o quê.

Risadaria 2011

Local: Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera

Data: de 24 a 27 de março, com horários variados de apresentações

Mais informações no telefone 4003-1527

Programação completa no site oficial do evento

veja também