Redes sociais podem gerar transtornos de personalidade

Redes sociais podem gerar transtornos de personalidade

Atualizado: Segunda-feira, 7 Novembro de 2011 as 11:51

A semelhança entre o usuário do Facebook que sempre publica sua imensa felicidade com o internauta que só divulga comentários negativos - e de autopiedade - é que ambos podem fazer desta rede de relacionamento uma ferramenta para aguçar um transtorno de personalidade cada vez mais presente nos consultórios clínicos.

O narcisismo – patologia que está de mãos dadas com outras manifestações físicas, como gastrite, depressão e perfeccionismo exagerado – vai além da paixão sem limite por si próprio e pode estar por trás também das pessoas que não suportam pequenas frustrações cotidianas, como um atraso em um compromisso profissional ou uma nota baixa na pós-graduação.

“As redes sociais de um modo geral, seja Youtube, Facebook, Twitter ou Orkut, são ferramentas para o individualismo e para o desenvolvimento da personalidade narcísica”, acredita a psicanalista clínica Andrea Vaz, mestre em psicologia e cultura pela Universidade de Brasília (UNB) e pesquisadora da influência da televisão e internet nos transtornos psíquicos.

“Quanto mais amigos conectados, ou quanto mais seguidores, mais bem vista é aquela pessoa, mais reconhecida socialmente e mais chance de compartilhar a sua imagem idealizada ela tem. A existência, ou seja, o nosso valor, passa a ser atrelada ao grau de visibilidade que obtemos e tudo isso contribui para o narcisismo patológico”, define Andrea.

O que é isso?

O termo narcisismo, explica o presidente da Sociedade Paulista de Psicanálise, Plínio Montagna, é emprestado do mito grego de Narciso. A história é sobre um jovem de beleza tal que se comparava a um deus. Ele, por isso, repudiou o amor da ninfa Eco e foi punido com a condenação de apaixonar-se apenas pela sua imagem refletida no rio. Sem alcançar o seu ideal, afogou-se nas águas ao tentar atingir o reflexo.

A psicanálise então definiu o indivíduo com personalidade narcisista como aquele que, em geral, se superestima. “A pessoa imagina-se como especial e nutre fantasias superdimensionadas de poder, sucesso ilimitado, brilho, beleza. Ela acredita ser superior e especial, incompreendida pelos outros ou que necessita da admiração de todas as pessoas”, diz Montagna

Mas como o termômetro de sucesso é sempre a opinião dos outros, também está enquadrado como portador deste transtorno o eterno insatisfeito, aquele que não consegue ficar contente com suas conquistas e sempre precisa de um desafio ou metas inalcançáveis.

“Muitos procuram ajuda perto da casa dos 30 anos, pois é um marcador etário de insucessos”, afirma Andréa Vaz. “Se não está na posição de sucesso profissional planejada, sua imagem narcísica é ferida. Mas se já alcançou esta meta, pode também sentir-se frustrado, pois não vê mais sentido no esforço. A sensação de ser incompleto pode vir por ainda não ter casado ou tido filhos, mas também porque o casamento ou paternidade foram realizados, eles podem se sentirem excluídos da vida social, do mercado e sofrerem por isso.”

Reconhecimento

Estes padrões de felicidade, beleza, sucesso e realizações são disseminados pela publicidade, programas de televisão ou livros de autoajuda, afirmam os especialistas. As manifestações nocivas da busca eterna pelo prazer, enraizadas na personalidade narcisista, podem aparecer de várias formas que prejudicam a saúde e o bem-estar.

"Ansiedade extrema em atender às expectativas dos outros, depressão por não conseguir o ideal, até mesmo transtornos alimentares (anorexia, bulimia) podem ter ligação com o narcisismo", cita alguns exemplos a psicanalista Andrea Vaz.

As redes sociais são terrenos férteis para instigar os indivíduos a mostrar seus feitos e seus fracassos e - ainda que sirvam de indícios para a influência do narcisismo nos usuários - o reconhecimento e a busca por ajuda terapêutica nem sempre é simples. “Não há protocolos terapêuticos e são de terapêutica difícil”, diz o presidente da Sociedade. “Mas a meu ver um processo psicanalítico, levado a efeito por alguém experiente e capacitado, pode ajudar muito uma pessoa”, acredita Plínio Montagna.

Além de reler os posts do Facebook, Twitter ou qualquer outro e também avaliar quais são as suas reais motivações ao divulgar fotos, eventos ou conquistas podem direcionar se é preciso procurar ajuda terapêutica ou não.

Outra dica dos especialistas é tentar reconhecer prejuízos sociais. Deixar de ir a uma festa por medo do que os outros vão falar, não assumir compromissos pessoais ou profissionais – ou ao contrário não dividir tarefas e depois não dar conta – exagerar nas dietas, malhação, cobrança, podem configurar transtornos narcisistas.

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