Sucessos do jovem brega pernambucano fazem apelo ao erotismo

Sucessos do jovem brega pernambucano fazem apelo ao erotismo

Atualizado: Terça-feira, 3 Maio de 2011 as 9:02

A noite está apenas começando. O ritmo frenético toma os corpos como uma onda. As meninas dançam sobre saltos, expõem jeans de marca, mostram decotes e pernas, piercings. Requebram até o chão. Os homens atendem ao chamado, aproximam-se, esfregam os corpos nos das garotas. Os MCs Metal e Cego põem fogo na noite, instigam uma multidão. É início de abril, gravação do DVD no Clube Internacional do Recife, na Madalena. Show de tecnobrega escrachado, apelativo, que cola nos ouvidos. O repertório que virou fenômeno está na boca das adolescentes de todas as classes sociais, convida à prática de sexo com "as novinhas", como são chamadas as meninas menores de 17 anos. Chama de pente e tchecquinha os órgãos sexuais masculinos e femininos. Fala de um assunto que fervilha na cabeça dos adolescentes. "Passou dos 17 para mim já é coroa", diz um trecho de uma das canções mais famosas.

Experimente perguntar ao seu filho adolescente se ele já ouviu ou assistiu a um show de Metal e Cego, ou quem sabe de Sheldon e Boco Prostituto. Os espetáculos promovidos pelos novos artistas da cena do tecnobrega local acontecem nas casas de show da periferia e aportam pelas boates da Zona Sul, como a Nox. São repletos de adolescentes, sem a companhia dos pais ou responsáveis, como determina uma portaria estadual, que cantam um sexo sem censura, mas que também consomem bebida alcoólica, cigarros, drogas e presenciam brigas.

Não se surpreenda se você não sabia de tamanha repercussão. Talvez os adolescentes se sintam pouco à vontade para falar sobre sexo tão abertamente com os pais. "Se eu mato, eu vou preso, se eu roubo, eu vou preso, se é para pegar novinha, eu vou preso satisfeito", diz um outro refrão conhecido dos jovens, que faz menção à lei que prevê como crime de estupro presumido o sexo, mesmo que permitido, com menores de 14 anos.

"As meninas estão transando mais cedo. Ninguém quer saber se tá certo ou errado. A gente faz isso porque é bom", explica uma fã dos MCs, 15 anos. Com a sexualidade à flor da pele, os adolescentes que vão aos shows das duplas contam que querem aproveitar o momento para namorar, curtir, sentir prazer. Na frente do clube, uma jovem pede, em público, que o namorado lhe faça sexo oral. Chega a abrir o short. A menina logo desiste do cenário. O casal segue para um lugar mais reservado.

Cena de um dos clipes de Metal e Cego

No salão, uma loura dança. O vestido branco e transparente colado aos seios e nádegas balança junto com a jovem de 17 anos enquanto ela simula a "posição da rã", quando a mulher acocora-se e se movimenta ao mesmo tempo sobre o parceiro, que está deitado. "Adoro as músicas, pois falam dos adolescentes."

Na entrada do clube, meninos e meninas se espremem para entrar. Um deles, com 16 anos, termina com a camisa rasgada. "A gente só não pega menina de 7 a 10 anos. O resto pode", comenta um garoto com 16 anos. Para uma jovem de 15 anos, a autorização dos pais para ir às festas não é problema. "Eles sabem que bebo", conta. Os MCs uniram as Zonas Norte e Sul. Na matinê da Nox, em Boa Viagem, as meninas de classe média e alta gritavam por Sheldon e Boco junto com as da periferia. "Sei que as letras falam coisas erradas, mas não vou fazer o que cantam", diz uma garota de 13 anos.

As letras das músicas dos MCs fazem culto ao corpo e citam o sexo sem censura com as chamadas "novinhas". Apesar disso, os compositores demonstram conhecimento da lei no que se refere à prática de relações sexuais com menores de 18 anos. "As músicas retratam a realidade dos jovens da periferia porque a classe mais baixa trata o tema de forma mais aberta. Na classe média, o assunto também é falado, mas através de códigos menos evidentes", explica a doutoranda em sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora do consumo e produção musical, Cynthia Campos.

Se eles cantam a realidade das comunidades, nem por isso deixam de agradar às patricinhas ou intelectualizadas. "Na faculdade, meus amigos me criticam porque adoro esses MCs. Gosto do ritmo", comenta uma estudante de filosofia da UFPE, com 18 anos.

O problema, na opinião de Cynthia, é que as canções reforçam o discurso de que a mulher perde o atrativo sexual com o avanço da idade e as meninas jovens não passam de objeto de prazer.

Para o professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e mestre em comunicação pela UFPE, Fernando Fontanella, a valorização da juventude não é encontrada apenas no brega. "Isso acontece  em propagandas e em desfiles", ressalta. "As adolescentes estão fazendo sexo, com música ou não. Essas letras só refletem a situação que elas vivenciam", acrescenta.

Na opinião da doutoranda em sociologia da UFPE, Ana Paula Portela, as músicas ajudam a reforçar o sentimento de desvalorização dos vínculos afetivos.

Músicas com apelo à erotização juvenil ou que transgridem padrões sociais não são privilégio dos MCs e sempre foram alvo de polêmica. "Isso me lembra o surgimento do funk, o rock dos anos 1950 e o maxixe do final do século 19. Elvis Presley, por exemplo, não podia ser filmado da cintura para baixo por causa do rebolado. Existe até um conto de Machado de Assis onde ele citou o maxixe, mas sem escrever o nome do ritmo", lembra Felipe Trotta, professor e pesquisador do Departamento de Comunicação da UFPE.

Por Marcionila Teixeira e Mirella Marques

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