Titi Freak: "A pichação nunca vai perder seu espaço"

Titi Freak: "A pichação nunca vai perder seu espaço"

Atualizado: Sexta-feira, 16 Setembro de 2011 as 9:34

Se você se distrai ao tentar reconhecer o artista pelo traço quando vê algum grafite espalhado pela cidade, certamente o nome Titi Freak não lhe soa estranho. Com rostos vivos em cores e elementos da cultura pop japonesa, a arte de Hamilton Yokota, dono do pseudônimo, cativa. E mais, gera reconhecimento. Não é à toa que esse paulista, nascido e criado no bairro da Liberdade, já foi convidado a expor em Tóquio, Londres, Nova York e, agora, segue rumo à Paris para deixar os rastros de suas tintas na galeria Le Feuvre, em uma exposição que também contará com os trabalhos dos conceituados JonOne e Space Invader, que passou recentemente pelas ruas de São Paulo.

A relação de Titi com os desenhos começou cedo. Antes mesmo de se aventurar no universo da arte urbana, aos 13 anos, ele realizou o sonho de muitos fãs da ilustração – trabalhar nos Estúdios Maurício de Souza. “Nem conhecia direito a Turma da Mônica. Minha mãe comprou uma revista do Cebolinha e falou: ‘Desenha esses personagens que eu vou mandar pro Maurício de Souza’. No mês seguinte virei estagiário de desenhista lá”, ele lembra.

Próximo de embarcar para a francesa Cidade Luz, Titi Freak conversou com iG Jovem. No papo, ele conta como foi desenhar também para o Universo Marvel e migrar seus trabalhos das pranchetas para os muros, comenta a atual invasão dos grafites nas galerias de arte e, ao ser questionado sobre uma possível perda de espaço da pichação, ele dispara: “A pichação nunca vai perder seu espaço. Ela é a tatuagem da cidade. Na real? É a própria street art que vai perder espaço pra pichação”. Confira:

iG: Pelo visto você sempre gostou de desenhar, tanto que ainda criança foi ilustrar para o Maurício de Souza. Como isso aconteceu?

Titi Freak: A minha mãe me convenceu de mandar uns desenhos para ele, mas a gente não tinha a pretensão de arranjar um trabalho. Era mais para saber uma opinião. Eu gostava de super-heróis. Não conhecia direito a Turma da Mônica. Então, ela comprou uma revista do Cebolinha e uma da Mônica e falou: “Desenhe esses personagens que eu vou mandar pro Mauricio de Souza”. Fiz três folhas de desenho à lápis e mandamos. Uma semana depois recebi uma carta de próprio punho do Mauricio dizendo querer me conhecer. Fui ao estúdio visitá-lo. No mês seguinte virei estagiário de desenhista lá. Trabalhei sete anos com ele.

iG: E a oportunidade de desenhar também para o Universo Marvel, como surgiu? Quais personagens você desenhava pra eles?

Titi Freak: Eu já estava com uns 18 anos e, além de desenhar para o Mauricio de Sousa, eu também fazia uns freelancers para a Editora Abril. Desenhava umas histórias para a Disney, fazia o Zé Carioca. Nesta época apareceram novos estúdios que terceirizavam este trabalho de quadrinhos com artistas brasileiros. Muitos desenhistas nacionais ficaram famosos nos EUA como o Mike Deodato e o Roger Cruz. Eu cheguei a fazer algumas páginas de Wolverine e X-man.

iG: Você acompanha o trabalho de algum quadrinista?

Titi Freak: Os quadrinistas da nova geração eu não conheço muito. Gosto dos trabalhos do John Byrne, Will Eisner, Frank Miller. Entre os brasileiros, meus amigos Roger Cruz, o Vilela e o Mike Deodato.

iG: Para encerrarmos esse papo de quadrinhos e começar a falar do grafite, qual o super-herói que você gostaria de ter criado?

Titi Freak: Não é muito um herói, mas o “Akira”, do Katsuhiro Otomo, para mim é uma das mais incríveis criações da década de 1980 nos quadrinhos. Criou o Akira, não precisa criar mais nada.

iG: Por qual motivação você foi pintar nas ruas?

Titi Freak: Eu já observava estes trabalhos na cidade e não estava muito mais interessado em desenhar super-heróis e a Turma da Mônica. Queria fazer meu próprio desenho, buscar minha arte. Pedi demissão para o Maurício e fui fazer meus desenhos. Fiz capas de discos, flyers para festas, estampas. Nessa época eu vivia na Galeria do Rock (no centro de São Paulo). Eu ficava mais na rua do que em casa e percebia a pichação, o grafite. Em um fim de semana eu vi OsGemeos pintando um muro perto de casa. Vendo eles em ação eu senti um grande incentivo. No fim de semana seguinte eu comprei um latex e uns sprays. Fui pra rua fazer o meu primeiro grafite sozinho. Isso era em 1996...

iG: Passou por alguma situação de repressão?

Titi Freak: Passei. No começo ninguém aceitava. Era criminoso! Mas repressão nunca é uma história para guardar. Humilhação e abuso de autoridade sempre teve. A diferença é que hoje as pessoas e a própria polícia aceitam mais o trabalho.

iG: Como você enxerga o fato do grafite invadir as galerias e ser rotulado de arte urbana?

Titi Freak: Acho que o grafite não invadiu galerias de arte. É tudo um processo. Esses convites (de curadores para grafiteiros) acontecem há muito tempo, uma consequência do trabalho destes artistas. O reconhecimento e a valorização deles chegaram à nova etapa da historia da arte. Como tudo no mundo muda e evolui, a arte também passa por isso. Rótulos as pessoas adoram criar! Na rua são grafites, colagens, interferências. Dentro da galeria são pinturas, fotografias, esculturas. Street art é para leigos!

iG: No seu trabalho há muitos elementos da cultura pop japonesa. Dá pra dizer que isso é uma marca sua ou você pretende ir além e explorar outros traços?

Titi Freak: Na verdade eu não vejo muitos elementos da cultura pop japonesa em meu trabalho. Eu costumo pintar retratos. Talvez os rostos sejam uma marca. Eu sempre pintei pessoas. Agora que eu percebo uma mudança em meus traços e combinações de cores e texturas. Eu quero pesquisar mais sobre a arte japonesa. Eu gosto da antiga arte do Japão – as gravuras, os biombos e toda a arte em templos e kimonos. Minha ideia é experimentar sempre.

iG: Você realizou um trabalho em prol das vítimas do terremoto do Japão. Como surgiu essa idéia?

Titi Freak: Além de eu ser mestiço, meus avós são de Hiroshima. Eu já fui algumas vezes ao Japão. Os trabalhos, as amizades, o amor e tudo que aprendi foi o Japão me deu. Com a tragédia eu me senti no dever de ajudar. Minha esposa (Yumi Takatsuka) também é japonesa e artista. Decidimos criar duas gravuras ligadas à cultura e crenças japonesas. Todo o dinheiro com a venda das gravuras será doada para Cruz Vermelha.

iG: Qual a maior contribuição que o grafite pode dar para a sociedade?

Titi Freak: A contribuição maior do grafite talvez seja para o próprio grafiteiro. O artista faz o trabalho pra ele mesmo. Pelo próprio prazer de estar fazendo aquilo. É o resultado que acaba refletindo nas pessoas que se identificam ou percebem aquela pintura.

iG: A pichação está perdendo espaço com a fomentação da arte urbana?

Titi Freak: Nunca! A pichação nunca vai perder seu espaço nas grandes metrópoles. Ela é a tatuagem da cidade. Na real? É a própria street art que vai perder espaço pra pichação.    

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