Três garotas superam o preconceito e aprendem a gostar do corpo cheinho, da alta estatura e dos cabelos cacheados

Como aprendi a aceitar meu corpo

Atualizado: Terça-feira, 10 Janeiro de 2012 as 11:22

Quando o canal Disney exibiu uma piada sobre anorexia, a cantora Demi Lovato não poupou a empresa em que trabalhou durante a infância e a adolescência e, criticando o texto do programa “No Ritmo” pelo Twitter, levantou uma discussão sobre a obsessão pela magreza. Pouco tempo antes, Miley Cyrus foi chamada de gorda e, também no Twitter, proclamou: “curvas são bonitas”.

Mais do que se defender das críticas, as estrelas pop levantam uma bandeira importante para o público: a da autoaceitação. Em vez de estimularem adolescentes a sofrerem para entrar em padrões de beleza, as celebridades incentivam os fãs a se aceitarem como são.

A opinião de Demi e Miley sobre os padrões de beleza é bem-vinda em uma idade em que o comum é deixar que a autocrítica excessiva predomine. “A adolescência é uma fase de mudanças físicas e emocionais, e é natural que o jovem sinta um estranhamento em relação a si mesmo”, diz a psicóloga Bruna Vaz, do centro de psicologia CPPL.

Embora esse estranhamento seja característico da idade, pode se tornar um problema quando acontece em excesso. “Quando é uma questão grave o adolescente se afasta da família e dos amigos e se mantém isolado. Evita sair e participar de atividades da escola”, diz Bruna. Esses casos podem evoluir para depressão ou anorexia, como foi o caso de Demi Lovato, e aí é necessário buscar ajuda profissional. 


Mas, de modo geral, é possível transformar aquilo que é alvo de piada entre os colegas de classe em qualidade. Basta adotar uma nova postura e criar uma outra imagem de si mesmo.
Ser diferente é legal


A modelo Andrea Boschim passou boa parte da adolescência brigando com a balança e se sentindo “de fora” da turma por ser gordinha. “Eu me cobrava para emagrecer. Na época do colégio fiquei muito apaixonada por um cara e decidi perder peso para fazê-lo se interessar por mim”, conta. “Emagreci 12 quilos e, na viagem de formatura, ele quis ficar comigo. Foi aí que eu percebi que tinha feito um sacrifício muito grande por causa de um cara e que aquela não era eu, e não quis saber do garoto”, lembra Andrea.


Foi nessa época que a modelo percebeu que era legal ser diferente e começou a aceitar o próprio corpo. “Eu queria ser igual a todo mundo e não tinha nenhuma referência. Não existe uma apresentadora de TV jovem gordinha, por exemplo. As gordinhas são mais velhas e fazem programas caretas”, queixa-se.

 

Hoje, ela vive dos trabalhos como modelo plus size, já foi eleita a gordinha mais sexy do Brasil e fez campanhas publicitárias importantes. “Recebo mensagens no Facebook de meninas gordinhas que querem ser modelo, ou que começaram a olhar para a vida de um jeito diferente quando conheceram minha história. E essa é a parte mais legal do meu trabalho”, conta Andrea.

 

Tornar-se referência é, de fato, uma maneira de ajudar quem se sente mal com o próprio corpo da maneira que a modelo plus size se sentia na adolescência. Ter alguém para se inspirar pode minimizar as crises típicas da idade. “Independentemente de ser bonito o adolescente vai se sentir feio e apontar defeitos em si mesmo”, explica Bruna.
Fonte de inspiração


Passar de minoria a referência não é exclusividade de Andrea. A jornalista e autora do blog "So Shopaholic" Fernanda Alves, de 26 anos, publica os próprios looks no blog e exibe, com orgulho, a cabeleira volumosa e cacheada, que nem sempre foi assim. “Comecei a fazer relaxamento no cabelo aos 10 anos. Passei a infância e a adolescência com ele praticamente liso”, conta. Na época, Fernanda encarava a química como um jeito de “domar” as madeixas, e só na idade adulta foi entender que não precisava disso para ter cabelos bonitos.

 

Depois de mostrar os cachos naturais no blog, ela se tornou inspiração para outras meninas. “Recebo e-mail de leitoras perguntando o que as pessoas vão falar se deixarem os cabelos ao natural, se vão achar que estão desarrumadas no ambiente de trabalho. Existe um preconceito, uma ideia de que cabelo crespo é incontrolável”, afirma.


Aceitar uma característica física antes vista como um defeito depende de uma dose de autoestima. E, embora isso seja claro na teoria, na prática não é tão óbvio fazê-la ficar maior. “A partir de quanto o adolescente se vê dessa maneira? Por que isso começou? São esses os pontos que tentamos descobrir e trabalhar”, explica a psicóloga Bruna Vaz. De acordo com a profissional, o primeiro passo para se aceitar é entender por que existe a dificuldade em se gostar.

 

Para a modelo Jessica Ludwig não foi nada difícil achar a origem do trauma. Com 1.75 m de altura, magérrima, ruiva e dotada de traços exóticos e uma beleza incomum, ela foi vítima de piadas na escola desde a infância. “Me chamavam de foguinho, boca de peixe e pit Bull. Eu era excluída nos trabalhos de classe. Quando tinha dança nas festas da escola eu não participava porque todos os meninos da turma eram menores do que eu. E os garotos gostavam das mais baixas e com curvas”, conta.Foi graças a um vizinho, ninguém menos que o cabeleireiro Celso Kamura, que a beleza de Jessica foi descoberta e ela entrou para o mercado da moda. “Hoje eu faço parte de um mundo ao qual poucas pessoas tem acesso e me dizem que sou linda”, comemora.
Jessica foi escolhida por Amir Slama para fazer a campanha do estilista e conta que hoje tem poucos, mas bons amigos. “Acho que ter passado por isso na escola me deixou mais forte, com mais personalidade e caráter”, conta.


A quem sofre bullying na escola por ser diferente, a modelo aconselha não esmorecer: “É um obstáculo que você pode passar por cima e receber algo bom no final. Tudo passa”.

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