Vampirar, estranho verbo da saga Crepúsculo

Vampirar, estranho verbo da saga Crepúsculo

Atualizado: Segunda-feira, 5 Julho de 2010 as 11:20

Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse são filmes que têm sido contemplados com salas de cinemas lotadas. Por adolescentes, principalmente.

As opiniões sobre a saga, entre a moçada, são variadas. A princípio achava que a maioria estava recebendo o filme como sendo o máximo. Não é bem assim. Conversei com vários adolescentes, - já sei que minhas conversas não são pesquisas científicas, mas, consideremos...- uns amaram, outros odiaram, uns acharam ridículo, outros acharam tosco, uns disseram não entender o motivo da liderança nas bilheterias, outros disseram: é fraco, mas é bonitinho. Por aí. De qualquer forma é estimulante notar o desenvolvimento de filtros em jovens adolescentes. Filtros que ajudam a construir um saudável diálogo com a cultura, a fim de, na medida do possível, aproveitar-se apenas o melhor dela.

Crepúsculo fala de vampiros. Existem os bons e os maus. Os maus comem gente. Os bons decidem não comer gente, apenas animais, embora preservarem o instinto de comer gente e lutarem para não fazê-lo. No filme, uma adolescente e um vampiro bom se apaixonam. Para preservá-la, o vampiro bom nada faz com ela além de beijinhos, pois a ama. Por sua vez, a garota declara, nos dois filmes, seu desejo de que seu amado a transforme numa vampira, para poder finalmente viver para sempre com ele. No segundo filme as coisas ficam mais fantásticas. Além de vampiros, também surgem lobisomens. Um deles, também é apaixonado por Bella, a adolescente apaixonada pelo vampiro. Os dois a defendem e escolha qual escolher, com ambos, ela corre o risco de um dia, em algum momento, eles cederem aos seus respectivos instintos e darem fim a vida da garota.

Por que o sucesso? Porque o amor que tantos tentam extinguir é garantia de sucesso. Temos sede de amor. O cinema fantástico, carregado de seres mitológicos, vem sendo testado e introduzido há décadas. Aceitá-lo hoje é normal, principalmente com o infalível ingrediente do amor. Pense no estrondoso sucesso de bilheteria que foi Titanic, na história real, segundo os melhores relatos, é improvável o romance do casal central, pelo menos na forma como foi narrado. Mas, tire o romance, o que sobra? Apenas um documentário bem feito sobre um navio que afundou.

A aventura do amor impossível e proibido seduz multidões de todas as épocas e culturas, Romeu e Julieta que o digam. O mistério é provocante e sempre desafiador, como bem comprovou Dalila. O perigo, com suas adrenalinas garantidas é algo, para dizer o mínimo entre jovens, excitante. Tudo isso está lá no Crepúsculo da manhã ou da noite, muito bem comunicado por vampiros e consumido por humanos. Na sua maioria adolescentes, sonhadores, contestadores, descobridores.  Toda essa mistura pode ser a coisa boa de um avassalador amor que precisa viver uma contida castidade, tensões tão comuns nos anos dourados da adolescência. Mas, não é só isso, para transitar na saga de Crepúsculo é necessário vampirar.

Bella é filha de pais separados. Logo no início, a narrativa deixa claro os desequilíbrios de sua mãe. Seu pai esta perto, mas é uma pessoa distante. A vida amorosa com o vampiro é ocultada da maioria das pessoas. É preciso mentir para manter as aparências. Sexo só não acontece porque o vampiro não quer. Pelo vampiro, ela sugere e afirma que morreria. Nos filmes, várias vezes o tema morte é tratado como algo normal, bom, aceitável, dependendo da causa. No segundo filme, Lua Nova, após o vampiro decidir se afastar dela, para que pudesse seguir uma vida normal, ela descobre que sempre que se expõe ao perigo, em visões ele aparece para tentar defendê-la. Assim, para poder vê-lo, ela coloca sua vida nas piores situações. E os pais? Alheios, nada sabem das escolhas da filha. Vampirando, ou seja, cometendo as mais impensáveis loucuras em nome dos seus sentimentos e desejos, ela segue até o final do último filme, quando a família do vampiro vota para atender o desejo dela, de transformá-la numa vampira. O filme termina com o vampiro pedindo pelo menos três anos antes de levar a cabo a transformação e, que meigo, ele faz um último pedido, o de casamento. Neste momento, na tela, sobem os créditos e teremos que esperar a sequência.

O verbo vampirar tem marcado as ações de muitos desta geração. Nunca adolescentes se suicidaram tanto como no presente. Nunca se mentiu tanto aos pais. Nunca adolescentes se entregaram tanto a aventuras loucas como atualmente fazem em baladas, raves, orgias grupais e bacanais de todos os tipos. Nunca adolescentes beberam tanto quanto agora. Com seus efeitos perfeitos, atores belos e convincentes, o vampirismo de Crepúsculo seduz multidões de adolescentes e reafirma as extravagâncias de seu universo particular. Um universo que olha apenas para sua satisfação pessoal, curiosidades, vontades, taras. Não importam riscos, perigos, conseqüências e sofrimentos provocados naqueles que de fato os amam. Obcecados e hipnotizados vale serem engolidos por vampiros para se chegar ao cúmulo de viver como eles.

Pais que me leem, entendem. Depois de anos embalando os filhos, de repente aparecem vampiros em forma de traficantes, viciados, promíscuos, querendo sugar o sangue dos nossos herdeiros. Alertamos, censuramos, aconselhamos e, nada, é como se estivéssemos falando com paredes! A resposta pronta da moçada é: calma, você está exagerando, eu sei me cuidar, o pessoal é gente boa, me esquece... Infelizmente, com sua arte bem executada, Crepúsculo espalha valores confusos, egoístas e liberais, fazendo um bom número aceitá-los sem perceberem a fragilidade de tais valores. Vida casta, não é ideia de vampiros, é orientação do céu. Sonhos impossíveis, com aventuras, com surpresas de tirar o fôlego e consequências boas na continuidade, somente com Aquele que não exige seu sangue. Porque, na verdade, Ele deu seu sangue perfeito, para que você vivesse como resultado de outro verbo, o verbo amar.

Paz!

Pr. Edmilson Ferreira Mendes é teólogo. Atua profissionalmente há mais de 20 anos na área de Propaganda e Marketing. Voluntariamente, exerce o pastorado há mais de dez anos. Além de conferencista e preletor em vários eventos, também é escritor, autor de quatro livros: '"Adolescência Virtual", "Por que esta geração não acorda?", "Caminhos" e "Aliança".

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