Vida em república pode ser uma forma divertida de amadurecer

Vida em república pode ser uma forma divertida de amadurecer

Atualizado: Quinta-feira, 5 Maio de 2011 as 8:49

Terminar o colégio implica em um monte de mudanças na vida. Em um dia você chega da aula, encontra o almoço pronto na mesa, estuda, assiste Malhação. E, no outro, a escola chegou ao fim e está na hora de deixar de ver os melhores amigos todos os dias, dirigir, procurar um emprego e começar uma carreira.

Embora pareça muita novidade para pouco tempo, essas podem ser só mais algumas das mudanças do pacote. Quem opta por cursar uma universidade longe dos pais também ganha uma nova casa. As repúblicas, casas ou apartamentos divididos por estudantes, são opções baratas e práticas de moradia para quem acaba de chegar a uma cidade.

A estudante de ciência política Thailana Teixeira, de 19 anos, deixou a casa dos pais em Petrópolis em fevereiro deste ano para morar na República Vila Severiano, no Rio de Janeiro. "O bom de morar em república é que você está sempre com pessoas da sua idade. A gente se ajuda nos estudos e quando sente saudade", conta.

Tamyrez Barbosa, de 17 anos, divide a casa com Thailana e mais onze meninas desde o começo do ano, e também se diverte com as novas amigas. "A gente fala muita besteira e fica até tarde conversando", relata a estudante de sistemas de informação, que embora ainda se sinta morando em duas casas, já considera a república o lar principal. "A maioria das minhas coisas está aqui, então eu tenho que levar roupas quando vou para a casa dos meus pais, e não ao contrário", comenta.

Mudanças drásticas

A sensação de conforto na nova casa pode vir com a ajuda dos novos amigos, mas geralmente ela só chega depois de um breve choque de realidade. "A gente tem problema com louça na pia, banheiro molhado, e quando uma pega as coisas da outra. E eu sou filha única, então estou vivendo isso pela primeira vez", conta Tamyrez, que saiu da casa em que morava só com os pais, em Realengo, para dividir o quarto com mais três meninas.

O susto com a novidade pode ser ainda maior se a casa for bem diferente. "Você chega com a maior alegria porque está livre dos pais e vai conviver com a molecada, mas depois de um tempo percebe que tem que aguentar coisas dos outros que você não vê na sua casa, tipo gente que come e larga o copo e o prato pela casa", conta Leandro Molina, de 22 anos, que cursa pós-graduação em farmacologia na Universidade de São Paulo (USP) e mora na república Bacamarte.

Nada de brigas pelo controle remoto: todos gostam dos mesmos programas

O engenheiro de materiais Diego Estrozi, de 26 anos, que também mora na Bacamarte, confirma. "Quando eu cheguei aqui todo mundo estava na sala conversando. Tirei a mochila, olhei ao redor e não tinha nem uma quina da mesa para apoiá-la. Era prato, copo, flyer de festa...", recorda. "Mas os mais porcões foram saindo da república e ela melhorou bastante!"

Por essas divergências e pelas contas a pagar no fim do mês, viver em república é, também, uma ótima maneira de amadurecer. "Sou muito impaciente e os horários sempre foram do meu jeito", conta Tamyrez, que agora tem que esperar o banheiro desocupar de manhã e tomar banhos rápidos. "Estou aprendendo a ter mais jogo de cintura, mais compreensão e a respeitar mais os outros", afirma.

Para Diego, da Bacamarte, que mora em república há seis anos, a experiência vale a pena. "Viver com gente diferente foi o maior aprendizado que eu tive", diz. As responsabilidades também são um ponto positivo. "No começo você faz o que quer, na hora que quer, mas aí vê que tem que aliar a liberdade à responsabilidade, e é aí que começa a crescer", afirma.

Regras de boa convivência

Os meninos dividem a casa com mais quatro estudantes e estão procurando mais dois moradores. Na república Bacamarte, eles dividem os custos do aluguel, da Tia Bete (a faxineira que limpa a casa duas vezes por semana) e da Bandida, labradora mascote da república, e cada um paga R$ 500 por mês. Eles têm liberdade para chegar e sair quando quiserem, levar a namorada para dormir em casa e fazer festas, desde que não incomodem um ao outro. "As regras da casa são meio intuitivas, mas a convivência é boa", diz Diego.

Estudantes dividem os custos de Bandida, mascote da casa

Mas nem toda república funciona desse jeito. Algumas têm tantas regras quanto a casa dos pais, o que pode ser ruim para quem quer mudar para ter mais liberdade, mas também pode ser uma vantagem na hora de convencê-los. Ingrid Adriene Neves, de 17 anos, ainda cursa o Ensino Médio e deixou a casa da mãe, em Belo Horizonte, para viver em São Paulo. "Eu já conhecia São Paulo, tinha namorado aqui e queria mudar para cá, mas minha mãe não queria deixar", conta. "Aí eu insisti e, como ela mudou para Porto Seguro e eu não quis ir junto nem ficar em Belo Horizonte com a família, ela acabou permitindo".

Embora pareça uma mudança drástica, principalmente para quem nem concluiu o colégio, Ingrid mudou-se para o Cortiço da Mooca, uma república feminina em que não é permitido fazer festas, consumir bebida alcoólica, receber visitas ou fazer barulho após as 23 horas. "Não quero sair daqui, pelo menos até terminar os cursos que quero fazer. Aqui sempre tenho alguém para conversar e me divirto com as meninas", diz a filha única, que quer estudar gestão empresarial no fim do ano e entrar para a Escola de Aviação.

Ingrid não costuma freqüentar baladas, e se diverte em casa. "A gente vê filme, faz almoço coletivo, escuta música...", conta. E a mãe recebe todas as notícias sobre a filha diariamente, tanto por Ingrid quanto por Tamara Luciane, de 29 anos, que administra o Cortiço da Mooca. "São quatro repúblicas e 72 meninas para cuidar. Tenho muito contato com os pais delas e digo que tenho um monte de filhas", afirma.

Para quem está terminando o Ensino Médio e vai prestar vestibular para faculdade em outras cidades, os estudantes dão dicas para encontrar um lugar legal e conviver numa boa com os roommates:

- Não tenha vergonha de fazer perguntas. É preciso saber pelo menos o básico sobre cada república, antes de se mudar para uma delas. "Tem que saber quantas pessoas moram na casa, quanto custa por pessoa e o que o valor inclui", diz Leandro;

- Procure um lugar em que morem pessoas parecidas com você. "Não adianta ir para um lugar em que todo mundo só estuda se você gosta de balada, ou ao contrário", aconselha Vinícius, outro morador da república Bacamarte;

- "Fique na sua", recomenda Tamyrez. Não chegue na casa fazendo a íntima de todos os moradores, falando alto e fazendo bagunça;

- Respeite o que não é seu. Para Tamyrez, é importante não mexer nos pertences dos outros sem pedir e manter a cozinha e o banheiro limpos.

Por: Nathália Ilovatte

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