Violência entre adolescentes: para onde caminha a nossa sociedade?

Violência entre adolescentes: para onde caminha a nossa sociedade?

Atualizado: Quinta-feira, 26 Maio de 2011 as 8:59

O recente caso de agressões entre adolescentes - numa zona problemática de Lisboa, junto a uma grande superfície comercial (Colombo) - é um (péssimo!) sinal dos nossos tempos. É a confirmação da degradação de valores societários e das regras mínimas de tolerância, respeito e solidariedade que devem orientar a vida em comunidade. Tão chocante e repugnante como as agressões violentíssimas que a jovem sofreu, foi a atitude dos seus colegas que - em detrimento de prestarem auxilio - continuaram a filmar a cena como se de um espetáculo se tratasse. Ora, esta situação merece-nos três reflexões sociológicas. A saber:

a) O abandono escolar e o insucesso são causas imediatas de exclusão social (problema da educação como integração). Efetivamente, desse o 25 de Abril, que o sistema de ensino tem sido construído para um aluno padrão, da classe média, com uma situação familiar estável. Construído para formar doutores, na lógica de que todos pudessem alcançar o nível superior de ensino. Ora, se este raciocínio, no plano abstrato e ideal seria de aplaudir, na realidade, revela-se bastante complexo e insuficiente. É que esta arquitetura do sistema de ensino esquece-se um significativo número de jovens que não pretendem ingressar no ensino superior, não se sentem atraídos para estudar nos moldes tradicionais - mas que, simultaneamente necessitam, neste mundo globalizado e competitivo em que vivemos, de qualificação profissional. A pergunta que se colocar é: o que fazer com eles? Deixá-los desamparados? Esta não pode ser a solução - assim só se estará a promover a exclusão social, o descontentamento para com a vida que gera fenómenos de violência extrema e a falta de educação cívica. Como já se viu que os cursos de formação profissionais actualmente disponíveis não chegam, urge restabelecer o ensino técnico, com escolas vocacionadas para este tipo de ensino, com professores especialmente habilitados para ministrar conhecimentos de cariz prático que visa dar ferramentas aos jovens para ingressarem mais cedo no mercado de trabalho. Assim, prossegue-se o interesse público de duas formas: formam-se cidadãos mais responsáveis, ativos, integrados na comunidade com consciência das regras da convivência social - e, por outro lado, o país erá gente mais qualificada. Estranho que os ministros da Educação dos sucessivos governos desde o 25 de Abril não perceberam esta realidade (julgamos) tão elementar!

b) O meio familiar e social influencia os comportamentos dos adolescentes, que reproduzem acriticamente a violência a que assistem. Este ponto encontra-se relacionado com o primeiro: se os adolescentes não têm um veículo de difusão dos valores societários, uma educação para a cidadania, com perspectivas de futuro melhores que as do presente - então, vão exteriorizar a raiva, frustração, reproduzindo a violência a que assistem em casa ou no meio próximo. Porque, não havendo educação, para estes adolescentes, a regra é a violência - e não a tolerância. É o mais bárbaro desrespeito pela vida humana - e não a convivência pacífica. Exige-se, pois, um sistema de protecção de jovens e adolescentes em risco mais eficaz, mais atuante (com a vénia para os atuais responsáveis que tentam fazer o seu melhor, no presente quadro financeiro e legal), de verdadeira proximidade. Que verifique os problemas na origem e que tenha essa função educativa que a escola, por si só, não tem conseguido dar;

c) A sociedade mediática em que vivemos tornou a vida de todos nós num espetáculo, num entretenimento. As redes sociais e a internet em geral permitiram o acesso a uma vasta informação, de forma célere e fácil. Ao mesmo tempo que deram a oportunidade a cada um de se transformar num "personagem" cibernético, construindo a sua imagem à medida da forma como quer que os outros o queiram ver. No fundo, hoje, vivemos todos num imenso jogo de ficção, em que é difícil destrinçar a realidade da mentira. Por outro lado, a ânsia de ser o mais popular no facebook ou no youtube, levaram a que, neste caso, adolescentes perdessem a noção dos limites, reproduzindo a tendência do jornalismo sensacionalista que começa perigosamente a dominar. Há, pois, um culto mediático da violência, que é encarada como um meio de atrair atenções e audiências. Hoje todos - principalmente os jornalistas, professores e intervenientes da ação social - devemos refletir sobre o caminho que a nossa sociedade está a tomar. Não é irreversível: há soluções e a escola ocupa um papel central.

Por João Lemos

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