"Você pode usar a internet com o mesmo cuidado que usaria um livro", diz ganhador do Nobel

"Você pode usar a internet com o mesmo cuidado que usaria um livro", diz ganhador do Nobel

Atualizado: Segunda-feira, 26 Julho de 2010 as 11:38

O neurocientista austríaco, naturalizado norte-americano, Eric Richard Kandel, 80, é uma das autoridades mundiais quando o assunto é memória. Em 2000, o professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, recebeu o Nobel de Medicina pelas descobertas sobre como o cérebro decodifica memórias de curto e longo prazo - o prêmio foi dividido com dois colegas:  Arvid Carlsson e Paul Greengard. Galileu conversou com Kandel para a reportagem de capa do mês de agosto, sobre a influência da internet em nosso cérebro. Confira o bate-papo completo:

A internet causa algum problema em nosso cérebro?

Ela certamente reduz a atenção do usuário. Faz a pessoa ficar multitarefa, a obriga a pular de uma coisa para outra o tempo inteiro. O smartphone é fantástico. Só acho que não devemos encorajar uma pessoa a andar na rua, dirigir ou pedalar enquanto checa seus e-mails. Sinceramente, não há um estudo científico confiável que relate as conseqüências da internet sobre o funcionamento intelectual e social de jovens. Até agora, só especulamos sobre as possíveis conseqüências. Certamente há boas coisas e potencialmente perigosas por vir.

Quais seriam as conseqüências boas e ruins?

A viabilidade da informação ao alcance de nossos dedos é extraordinária. Há uma diferença enorme em escrever um livro há 15 anos e hoje. Posso conseguir referências imediatas a qualquer artigo de jornal nos últimos 20 anos e livros, em vez de buscar numa biblioteca. A internet facilitou as pesquisas. Algumas das fontes não são confiáveis, mas ao menos dão uma pista inicial.

Um lado negativo é que, à medida que o computador vira um padrão em nossas vidas, nossa relação com livros e como adquirimos conhecimento pode mudar, assim como a confiança em nossa própria memória pode ser menor do que no computador. Outro ponto é que censuramos muito nossas crianças.

Há vantagens e desvantagens. Em cada estágio em que uma nova explosão de informação ocorre há um enorme ganho e certa perda. A oratória desapareceu com o surgimento dos livros. Com a invenção do computador, as habilidades de escrever desapareceram. Antes passávamos muito tempo escrevendo lindas cartas manuscritas. Agora ninguém mais presta atenção, porque você pode digitar tudo na hora. Quando você ganha algo, perde algo. Isso vai acontecer aqui. A questão é: os ganhos superaram as perdas? E meu palpite é sim. Mas precisamos ficar de olho nisso.

É perigoso confiar nossas vidas e memórias em gadgets?

O mais importante é ter acesso à informação. Quem disse que a memória é tão maravilhosa se você não tem nenhum uso para ela? Você lembra de um monte de lixo. Agora, é possível que isso não seja mais necessário, cada um poderia ter acesso completo às suas memórias. Quando éramos crianças, aprendemos como recitar poesia. Não creio que as escolas vão parar de fazer com que crianças aprendam a memorizar. Mas não é a memória em si que é tão bonita. É a recitação dela, a sensualidade, o prazer em recitá-la. E acho que podemos manter isso.

A internet afeta a nossa capacidade de aprendizado?

Uma das características principais da memória é que, para você lembrar algo a longo prazo, é preciso prestar atenção e processar a informação profundamente. Isto é chamado de decodificação. Não sabemos até que grau isso é comprometido quando usamos a internet, eu mesmo não sei se ela necessariamente atrapalha isso.

Devemos separar as coisas. Se eu navegar na internet, o que faço na maioria dos dias atualmente, e dou um “google” no New York Times, que é meu jornal diário, para saber o que está acontecendo. Vou prestar a mesma atenção que prestei de manhã com o jornal impresso. Você pode usar a internet com o mesmo cuidado que usaria um livro. Fazer várias coisas ao mesmo tempo, ser multitarefa, é diferente de usar a internet. Você pode conversar com um amigo e tomar uma taça de vinho ao mesmo tempo.

Pessoas multitarefa não prestam tanta atenção às tarefas que fazem como se estivessem fazendo apenas uma coisa. A maioria precisa sacrificar algo para prestar atenção. Se você está jogando dois games diferentes enquanto faz uma prova online e escreve um e-mail para um amigo, isso comprometerá as duas coisas realmente importantes. É estúpido.

Com esse conhecimento “fácil” em nossas mãos, ficamos mais rasos como indivíduos?

É um erro achar que a dificuldade em ter acesso ao conhecimento aumenta a profundidade dele. É o oposto disso. Muita gente acha Ciência entediante. Se você puder fazê-la mais interessante, as crianças gostarão mais e teremos mais cientistas no mundo. Para o bem da sociedade, é interessantíssimo oferecer conhecimento acessível a todos.

Crianças pobres que não têm acesso a livros podem desfrutar disso. Compreendo que existe o lado negativo. Mas estou escrevendo um livro agora e me impressiono com a capacidade da internet para facilitar as coisas. Se você usar a internet de maneira inteligente, é uma ferramenta interessantíssima. No momento, não acho que temos motivo para nos preocuparmos com o nosso futuro. E repito: a internet oferece muitos benefícios em potencial, e, assim como todas as mudanças grandes, nós precisamos ficar de olho nela.

O que é melhor para nós: sermos multitarefa com o Google ou ter o conhecimento enciclopédico em nossas mentes?

Os dois são muito valorosos. O Google não é confiável como uma enciclopédia, mas não há razão para acreditar que continuará assim. Ele é infinitamente mais fácil. Minha Encyclopedia Britannica, uma edição especial de 1910, está numa prateleira alta da minha biblioteca. É preciso sempre escalar em um pequeno banco para alcançá-la. Não preciso mais disso. Estou na minha mesa e cadeira, que são confortáveis, e tenho acesso fácil à informação. Sendo que há pouco tempo digitalizaram todos os volumes dela por uma mixaria.

As pessoas criticam os e-books, falando que não são a mesma coisa que livro normal, porque você não mexe as páginas. Mas isso é uma coisa de geração. Depois de cinco anos, todo mundo vai ter essa sensação gostosa usando um gadget.

Kandel pergunta se este repórter usa muita internet (sim) e questiona se ele percebeu algum tipo de emburrecimento causado por isso (não que ele saiba).

Não? Está vendo? Se você estivesse sentindo alguma deterioração intelectual, nós não estaríamos tendo essa conversa magnífica agora.

Por Felipe Pontes

Postado por: Felipe Pinheiro

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