Vou fazer...

Vou fazer...

Atualizado: Segunda-feira, 4 Outubro de 2010 as 1:46

Na escolha de uma carreira, habilidades e personalidade nçao são os únicos fatores que devem ser considerados

A adolescência, dizem os especialistas, é caracterizada como uma fase das mais confusas na vida das pessoas. Incertezas em relação a sua própria personalidade, dúvidas sobre o caminho a ser seguido e as pressões exercidas por pais, amigos e pela escola fazem deste um período difícil para qualquer um. E é justamente durante essa fase de muitas indefinições que a maioria dos jovens deve tomar uma das decisões mais difíceis de sua vida: escolher sua profissão.

A psicóloga Norma de Fátima Garbulho, do Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Faculdade de Ciências da UNESP, campus de Bauru, diz que essa escolha depende de fatores que foram incorporados pelo jovem ao longo dos anos, segundo as experiências vividas. "Durante toda a vida, acontece um processo de internalização de princípios e mitos, valores sociais e econômicos, que acabam por ser determinantes na escolha", diz.

Para alcançar a realidade concreta sobre uma profissão, torna-se necessário procurar todas as informações disponíveis sobre a área em que se deseja atuar e o curso que se torna necessário fazer. Deve-se, inclusive, conversar com profissionais da área escolhida – eles já vivenciaram aquilo que o jovem ainda vai passar. "É importante tentar fazer um exercício, perguntando-se ‘como eu me imagino atuando nessa profissão, considerando os aspectos bons e os desagradáveis dela?’", afirma o psicólogo Cláudio Edward Reis, do Centro de Pesquisa e Psicologia Aplicada (CPPA), da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, campus de Assis. "Com as informações obtidas, cada um deve tentar fazer uma combinação daquilo que encontrou com a sua personalidade, com o seu estilo", completa Reis.

Gostar e fazer

Norma Garbulho lembra que a profissão, no entanto, é apenas uma parte da escolha que o jovem deve fazer. "Nesse momento, ele está escolhendo quem pretende ser como profissional e como vai se inserir na sociedade pelo trabalho", diz. A pedagoga Maria Beatriz de Oliveira, do Centro de Pesquisas sobre a Infância e a Adolescência (Cenpe), da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, campus de Araraquara, acredita que talvez esse não seja o momento de escolher uma profissão específica, mas sim uma carreira. "Não basta apenas vislumbrar as próprias habilidades e a personalidade. O indivíduo deve se preparar para ser um cidadão do mundo", afirma.

Fazer algo de que se goste é fundamental para o sucesso, em qualquer área e em qualquer profissão. Essa opinião é compartilhada inclusive por profissionais responsáveis pela seleção das empresas, como é o caso da gerente-geral de recrutamento e seleção do grupo Santander, Helena Camacho, que lembra a importância de sentir-se bem em relação ao que se faz para conquistar um bom espaço no mercado de trabalho. "Se o profissional não tem satisfação em um trabalho ao qual se dedica durante oito ou mais horas por dia, ele não agüenta e o abandona", afirma.

Além das habilidades específicas de cada profissão, há outros fatores importantes que fazem com que um profissional ganhe destaque sobre os demais. Helena ressalta pontos que são observados em relação aos estagiários da empresa onde trabalha. "Os estagiários que dão certo são aqueles que têm predisposi-

ção para o aprendizado, capacidade de adaptação, habilidade para trabalho em equipe, facilidade em dividir responsabilidades, vontade de aprender, capacidade de lidar com a frustração e maleabilidade de relacionamento", explica.

E para alcançar tudo isso, apenas a formação obtida no curso escolhido não é suficiente. O presidente-executivo do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), Luiz Gonzaga Bertelli, lembra que, hoje, as empresas buscam jovens com conhecimentos de informática e de um idioma estrangeiro. "Os processos seletivos também valorizam habilidades e características como iniciativa, comunicação, ética, aptidão para trabalhar em grupo, criatividade e disposição para aprender e colaborar com as metas da empresa", enumera.

Conversa em família

Para dar início a uma carreira, no entanto, muitos jovens, têm dificuldade em obter a autonomia necessária para a tomada de decisão. As pressões exercídas pelos pais, amigos e pela escola acabam por dificultar ainda mais a escolha profissional. "Os pais devem preparar os seus filhos para as frustrações, pois é a partir delas que se supera obstáculos", diz Maria Beatriz. A melhor maneira de ajudar os filhos durante esse período é buscar o diálogo com eles e, principalmente, escutar aquilo que têm a dizer. "O pai não deve ver no filho uma continuidade de si mesmo. Ele deve atuar como companheiro, sendo transparente e incentivador, por meio de um diálogo claro e aberto", diz Cláudio Reis. O psicólogo completa, dizendo que, embora a decisão possa ser influenciada por pessoas próximas, ela deve ser tomada tendo em vista a individualidade do jovem. "Esse não é um projeto de família, é um projeto de vida", diz.

Saber qual é o seu projeto de vida e o seu projeto profissional é essencial na hora de tomar a tal decisão. Embora seja difícil definir um projeto de vida durante essa fase turbulenta, o que se pode fazer é traçar um plano a longo prazo. A psicóloga Norma Garbulho diz que esse projeto se concretiza sob a forma de princípios e valores a serem alcançados. "Uma vez definidas as metas, é necessário revê-las constantemente, não deixando que esse projeto se torne uma camisa-de-força", conclui.

Ocorre, porém, que enquanto alguns têm certeza do que querem fazer, outros percorrem um longo caminho para encontrar a sua vocação, trajeto que muitas vezes acaba em desistência e frustração. A pedagoga Maria Beatriz de Oliveira acredita que a frustração com o curso escolhido acontece, principalmente, quando o aluno percebe que a profissão não é exatamente aquilo que ele imaginava. "Nesse momento, o adolescente tenta adequar a realidade à sua idealização", diz.

A desistência nem sempre é encarada de uma maneira tranqüila, natural, não só pelos próprios jovens como também por seus pais, já que o aluno teve de enfrentar uma verdadeira batalha para passar no vestibular. "O diploma não é um atestado de condenação. Se não estiver gostando do curso, há sempre a alternativa de parar e recomeçar. Nessa hora, deve-se tentar eliminar a culpa, a obrigação e o medo, para construir um caminho que vai levá-lo a fazer o que gosta", diz Maria Beatriz.

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