A fábula da nossa loucura

A fábula da nossa loucura

Atualizado: Quarta-feira, 13 Abril de 2011 as 10:14

Assustado, o Ratinho foi falar com a Dona Galinha. A senhora precisa me ajudar, algo terrível aconteceu na fazenda. O que foi? O dono da fazenda comprou uma ratoeira! A galinha, indiferente, disse: Isso não é problema meu. Então o ratinho foi até o carneiro e contou sobre a ratoeira. O carneiro alegou não ter tempo para bobagens. Já em pânico, o ratinho foi até o boi e fez sua última tentativa. O boi sequer respondeu, virou as costas e continuou a comer. Amedrontado, o ratinho correu para sua toca e lá ficou. Naquela noite, o estalar da ratoeira e um grito de pavor cortaram o silêncio da fazenda. Na verdade uma cobra é que havia sido presa pela ratoeira. O grito ouvido foi o da esposa do fazendeiro. Pensando que o rato tinha sido pego, ela foi checar, porém se deparou com a cobra que, apesar de presa e ferida, ainda conseguiu dar-lhe uma mordida. Imediatamente o fazendeiro a levou para o hospital da cidade, onde ela ficou internada por uns dez dias.

Vamos dar uma pausa na fábula. Enquanto a esposa do fazendeiro está internada, na fazenda parece que tudo segue normalmente. Rato, galinha, carneiro e boi seguem cada um sua rotina. Nosso mundo também segue sua rotina, apesar de Hiroshima, apesar do 11 de Setembro, apesar de Realengo. O massacre no Rio de Janeiro simplesmente tornou a sociedade consciente a respeito da globalização da violência. Assassinar crianças em escolas não acontece apenas lá fora, pode acontecer aqui, aí, acolá, em qualquer lugar.

Realengo existe em todos os países, cidades e guetos. Realengo coloca nosso Brasil nas agências de notícias do mundo inteiro. Estamos crescendo, consumindo mais, exportando e importando, fabricando carros melhores, nossa economia ganha respeito e influência pouco a pouco, a expectativa de vida aumenta, o futebol encanta, a próxima Copa será aqui, elegemos pela primeira vez uma mulher para nos governar, conquistamos autonomia em petróleo, sem falar no pré-sal, enfim, temos muitas conquistas e realizações, mas também temos Realengo.

Realengo grita e exige atenção. Mas Realengo não está só no quesito sobre tragédias. Este país também cresce em abortos, abandono de crianças, divórcios, abandono de famílias, chacinas, desvios de verbas públicas, impostos pra lá de abusivos, tráficos, prostituições, aberrações, mortes no trânsito provocadas pela farra do álcool e dos lucros incessantes dos produtores que aniquilam toda uma geração de jovens, depressivos, suicidas, neuróticos, psicopatas, desmotivados, alucinados. Todos vivendo no seu particular Realengo, assistindo a globalização do espetáculo econômico e cultural, mas também a globalização da decadência, do descaso com a fé, do deboche com a religião, enfim, a globalização de uma violência cruel, gratuita, altamente letal e zombeteira de valores, morais e respeitos.

Voltemos a fábula. A esposa do fazendeiro melhorou e pode voltar e continuar sua recuperação em casa. Logo nos primeiros dias, devido a dieta passada pelos médicos, seu marido deu a seguinte ordem para os funcionários da fazenda: Nestes primeiros dias, no almoço e no jantar, minha esposa só pode comer canja, matem a galinha. Chegou o final de semana e toda a família veio visitar a mulher, vendo a sede da fazenda com mais de cinqüenta pessoas entre parentes e amigos, o fazendeiro não teve dúvida: Matem o carneiro e preparem uma boa refeição para todos! Em três semanas a mulher estava completamente recuperada, o fazendeiro, agradecido a Deus, não poupou: Chamem os amigos, parentes, vizinhos, os médicos e os irmãos da igreja, vamos comemorar com um churrasco, matem o boi!

Enquanto isso, o ratinho se manteve bem seguro na sua toca junto a sua família. Esta é a fábula da nossa loucura. Loucura em achar que nada da dor do outro possa nos causar dano. A criação geme, o Espírito geme, o mundo geme. Mesmo que não tenhamos consciência, estamos interligados pela cruz de Cristo. Em favor de todos seu sangue foi derramado. Na parousia conheceremos o fim deste tempo tão inflamado por injustiças e dores inexplicáveis. Um pouco de nós sempre morre quando um semelhante nosso morre, mas também vive quando se revive. A comunhão pede passagem para estabelecer sua santa loucura e abandonarmos a ilusão do nosso maluco e inconseqüente individualismo. Comecemos na nossa toca, junto do calor afetuoso de nossa família.

Paz!

Pr. Edmilson Mendes

Edmilson Ferreira Mendes é teólogo. Atua profissionalmente há mais de 20 anos na área de Propaganda e Marketing. Voluntariamente, exerce o pastorado há mais de dez anos. Além de conferencista e preletor em vários eventos, também é escritor, autor de quatro livros: "Adolescência Virtual", "Por que esta geração não acorda?", "Caminhos" e "Aliança".

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