Aslam e o pastorzinho

Aslam e o pastorzinho

Atualizado: Quinta-feira, 8 Dezembro de 2011 as 1:13

Quando Aslam entra no templo, o pastorzinho nem cogita encará-lo nos olhos, pois lhe falta coragem. O pastorzinho sabe o que tem feito e sabe que isso não condiz com a presença do leão.

A chegada de Aslam faz com que as falhas do pastorzinho floreiem, e isso encomoda profundamente o pastorzinho.

A visita de Aslam traz sorrisos àqueles que enchem os bancos, mas não ao pastorzinho, dentro deste um desdém tão grande e tão enorme toma conta que tudo o que ele exala é aquela velha e vergonhosa covardia, aquela covardia como a de um bobo da corte que se ajoelha na frente do rei esperando a oportunidade de alimentá-lo com veneno.

Coitado do pastorzinho, lhe falta a coragem, é pior que um diabo, pois o diabo ao menos teve os culhões para em frente ao próprio Deus querer ser maior que Deus, mas esse pastorzinho, que internamente quer ser o próprio Deus — nem imagina a possibilidade de tentar assumir isso para a comunidade que acompanha, muito menos assumir para si mesmo. Aslam, obviamente, sabe das vontades do pastorzinho, porém, como cavalheiro gentil e generoso que é, permite que o pastorzinho viva por seu ódio e covardia, pois sabe dos medos e da fraqueza que consomem o pastorzinho, Aslam não exige nada do pastorzinho, e espera que o pastorzinho num dia qualquer queira ir além de suas limitações, pare de alimentar sua covardia e viva por aquilo que acredita, não pelos medos e pela fraqueza que insiste em sustentar dentro de si.

Se o pastorzinho suspeitasse da imensa misericórdia que Aslam sustenta dia após dia, ah se ele soubesse! Se soubesse saberia que no momento que o pastor oferecesse o cálice de veneno, Aslam o beberia com gosto, e não só beberia, como ainda brindaria e declararia que ama o pastorzinho e toda aquela comunidade, morreria como sacrifício vivo em favor de todos os que habitam ali — mesmo que só alguns poucos veriam Aslam na próxima vinda.

Aslam tem batido a porta diariamente, mas nada faz além disso, pois sabe, melhor que que o próprio pastorzinho, que ele não passa de um covarde e que, enquanto o pastorzinho viver de sua covardia, nada mudará…

Por: Gustavo Nering

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