Velejador

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Atualizado: Segunda-feira, 24 Dezembro de 2012 as 11:54

Juro que não sei dizer em qual latitude da minha vida a bordo desse ‘Avoante’ carregado de sonhos, fantasias e reflexões consegui enxergar e decifrar as estrelas. 

Os poetas se repetem em provar que a conversa com as estrelas foi reservada para os que têm no amor a tábua de salvação para a vida. Dizem os poetas, que não se conversa com estrelas sem ter no coração pelo menos uma gotinha de amor. Não conseguimos nem enxergar as estrelas se o coração não estiver aberto e pronto para receber os mais suaves suspiros do amor. 

Pode até ser que você ache que tudo isso são fantasias tão próprias da cabeça dos poetas, mas hoje posso dizer que mesmo não sendo poeta, vejo as estrelas com outros olhos e até consigo retirar daquele brilhozinho tão distante segredos que a vida consegue esconder tão a nossa vista. 

Foi olhando para elas que numa Noite de Natal, em que navegávamos a milhas e milhas da costa, vislumbrei como é bonita uma Noite de Natal. Não era aquela noite tão típica a qual fomos acostumados a ver ao longo da vida. Não tinha os abraços calorosos de boas festas. Não tinha o calor dos familiares e amigos ao redor de uma mesa farta e colorida. Não tinha nem o pinheirinho verde rodeado de presentes. Não tinha também as tradicionais fotos para a almejada posteridade, com largos sorrisos a esconder mazelas e desilusões.  

Lá em meio ao nada de um tudo, havia sim uma bela Noite de Natal cravejada de estrelas verdadeiras. Lá abraçamos um mundo de vida real e com todos aqueles mistérios que somente uma Noite de Natal é capaz de nos mostrar. Lá o Natal tinha outro sentido e parecia até que o mundo era mais mundo. Lá em meio ao nada de um mundo tão peculiar entre o mar e o céu, vi o quanto não éramos nada, além do que verdadeiramente somos. 

Naquela noite brilhante de céu natalino, que nunca tinha visto, pude ver o quanto às estrelas tem a nos dizer e o quanto eu havia desperdiçado. Não era o Natal dos presentes empacotados, mas sim o Natal da reflexão e olhando ao longe para um mundo tão incapaz de aplacar suas atrocidades. 

Naquela imensidão de mar me perguntei quantas pessoas naquele momento estavam olhando para as estrelas. Perguntei-me quantas pessoas haviam ao menos se lembrado que foi olhando para as estrelas que três Magos receberam o sinal que uma vida iria nascer e que eles tinham que reverenciar. Mas lembrei-me que das cidades não conseguimos ver as estrelas. Toda a intensidade brilhante daqueles pontinhos prateados fica ofuscada pela plasticidade urbana com seus clarões. 

Lembrei-me que no tempo dos Magos os homens eram sábios e sabiam decifrar a voz das estrelas.  Lembrei-me que aquele era um tempo das profecias e os profetas sabiam das coisas. Veio-me a lembrança que a estrela avistada pelos Magos anunciava a chegada do maior dos profetas e depois dele nenhum outro viria mais ao mundo. Aquele era o último e por isso a estrela era tão brilhante e por isso mesmo ele passou tão rápido. Rápido como um cometa, mas com um rastro tão brilhante que até hoje se consegue enxergar. Coisa de profeta! 

Naquela Noite de Natal, navegando naquele mar de vida, me esmerava mirando as estrelas e suas muitas facetas brilhantes, mas não conseguia ver aquela estrela tão brilhante avistada pelos Magos, mas dava para sentir a sua presença tão viva entre nós. Que estrela teria sido aquela que tão boas novas trazia em seu brilho? Porque somente aqueles três homens conseguiram avistá-la? O certo é que procurei, procurei, continuo procurando, mas não consigo ver aquela estrela. Apenas, e felizmente apenas, reconheço toda a sua força e conheço toda a sua mensagem de amor e vida.

O certo mesmo é que apenas os Magos viram e apenas eles sabiam que aquele era o anúncio. Anúncio de um mundo mais humano em meio aqueles vastos desertos de desesperanças. Anúncio que o mensageiro da paz e do amor estava para chegar ao mundo. Anúncio que os homens nunca mais seriam os mesmos. Anúncio de plantar palavras e colher bons frutos para o sempre. Anúncio que em alguma época mais para frente os homens duvidariam da sua palavra e tentariam mudar seus escritos, mas eles seriam eternos e verdadeiros. Tão verdadeiros que tudo ainda esta lá, por mais que os homens do futuro tentem duvidar.

Continuo a navegar acreditando em tudo o que as estrelas têm a me dizer e atento aos sinais de seus brilhos. Continuo a acreditar na paz das Noites de Natal e na sabedoria daquele menino simples que se tornou o maior dos Reis. Sei que não estou só, mas, infelizmente, das cidades os homens não conseguem enxergar as estrelas.

Feliz Natal sempre!

estrelas

 

com informações de: Tribuna do Norte

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