Não sois máquinas....

Não sois máquinas....

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:32

Experimentamos hoje, as maiores transformações ocorridas em toda história no menor espaço de tempo possível. Basta olharmos para os meios de comunicação. Há 50 anos, seria impossível falar com alguém em outra parte do mundo em tempo real e de qualquer lugar. Hoje, isso é possível através do celular. O que dizer então de termos imagem e áudio nas comunicações? Os satélites proporcionaram isso. E a alimentação? Hoje não existe mais a idéia de saborearmos algumas frutas somente em determinada época do ano. Você pode comer praticamente qualquer fruta, em qualquer época do ano, em qualquer lugar do planeta que tenha condições econômicas para isso.

Percebemos em nosso mundo, mudanças que trazem benefícios maravilhosos e problemas terríveis. Dentre os problemas, um dos que considero pior é a despersonificação do ser humano. Este se dá pelo esfriamento do amor e conseqüente ausência de relacionamentos. Primeiro com o criador, fonte de todo amor, e segundo com o ser humano, local onde se evidencia o verdadeiro amor recebido de Deus. Pois se alguém diz que ama a Deus a quem não vê e não ama a seu irmão que está do lado, como pode amar a Deus?

Se o planeta Terra é o palco onde expressamos o amor de Deus à raça humana e o meio são os relacionamentos, então, estamos em problemas, visto que, a cada dia temos um número maior de pessoas aglutinadas em pequenos espaços com grandes possibilidades e mais isolados e solitários nos sentimos. E a tecnologia criada para ajudar a manter contatos com pessoas a distância e com baixo custo, tem se tornado um inimigo daqueles que vivem próximos. E ao invés de disponibilizarem mais tempo para relacionamentos, tais pessoas tem vivido enclausurada em frente ao amigo despersonalizado e inseparável - o PC - o Computador pessoal.

Analise, por exemplo, os programas de bate-papo: Messenger, Skype, Voip e chats, dentre outros. Ao relacionarmos com outras pessoas a partir destes, em primeiro lugar não estamos de corpo presente. O olho no olho, o toque tão mágico, ou melhor, tão milagroso, o cheiro, a expressão facial e corporal que se torna o intérprete e dão significado real as palavras. Segundo, não temos a atenção dispensada exclusivamente a quem você se dirige. Isso pode acontecer também numa conversa entre duas ou mais pessoas sem os intermediários, computador, telefone, entre outros, contudo é muito mais difícil não estar presente neste ambiente pessoal.  

Em terceiro lugar, normalmente enquanto você tecla com alguém, realiza duas, três ou mais atividades ao mesmo tempo, a não ser que você conscientemente se disponibilize somente para o bate-papo. Existe maior falta de respeito para com quem fala? E as inúmeras vezes que as falhas no meio (PC, internet, energia) interrompem a conversa e ficamos sem saber se a pessoa nos deixou na mão, ou se foi uma falha rotineira. Seria complicadíssimo e quase impossível tal situação acontecer num relacionamento de corpo presente.  

Gostaria então de dar dicas aos "independentes", aos filhos e aos pais. Aos "independentes", aqueles que estudam ou trabalham fora e por isso vivem sozinhos. Diria a vocês que devem estar atentos e mui responsavelmente pensar sobre tais questões para não virarem máquina, cheio de impessoalidade, sentimentos confusos e depressivos, ausência de compaixão e posteriormente com dificuldade nos relacionamentos da vida profissional, familiar, eclesiástica e amorosa, especialmente. Sabemos que hoje as empresas demitem mais funcionários por inabilidade relacional do que por incapacidade profissional.

Aos filhos, vocês que têm pais ou amigos que os ajudam a não ficarem viciados em tais meios, precisam vê-los como parceiros e não como podadores de prazeres. Para que vocês não pareçam um zumbi, conectado com o mundo, mas desconectado da vida.  

E aqueles que responsavelmente cuidam de filhos, sobrinhos, parentes e afins precisam ver os benefícios e malefícios que a tecnologia traz. Assim sendo, saberão o limite do uso do computador ou mesmo dos videogames, que os considero mais maléficos ainda, se não usado dentro dos conformes.  

As gangues, grupos e tribos que hoje se formam e saem em busca de relacionamentos, mesmo que com motivações e pressupostos totalmente deturpados são, creio eu, uma reação aos relacionamentos vazios, despersonificados e robotizados de nossos dias. Com dizia Paulo Freire, estamos vivendo a coisificação do ser humano.  

Precisamos nos cuidar. É necessários termos limites, tomar uma decisão radical de optarmos pelo coerente, pela vida em comunidade, apesar de todas dificuldades que esta carrega, contudo nenhuma dificuldade inerente a esta é pior que o isolamento e despersonalização da outra.

Não sois máquinas, homens é que sois. Nos advertia Chaplim e o grito ainda vale para hoje.  

Heliel Carvalho é pastor e professor de teologia em Goiás.

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