Desempregados e inempregados?

Desempregados e inempregados?

Fonte: Atualizado: sábado, 29 de março de 2014 03:29

Um tema predileto de muitos profissionais na atualidade é discutir a relação entre o trabalho e a patologia. Afinal, até que ponto o trabalho, de fato, adoece o trabalhador? Minha função não é advogar nem a causa do empregador, tampouco assumir a defesa do empregado, mas suscitar reflexões sobre este tema.

O primeiro homem que a Bíblia menciona foi designado com uma dupla função: lavrador e sentinela do jardim no Éden. Isso merece duas observações: a primeira diz respeito ao nome do local: jardim "no" Éden e não jardim "do" Éden, como muitos afirmam (a ênfase parece recair sobre a natureza do local e não a sua localização propriamente dita); a segunda se refere à ressalva da dupla jornada já implantada nos primórdios da raça humana (e tem gente pensando que mais de uma função no ambiente de trabalho é novidade!).

Foi o próprio Deus quem plantou o jardim e depois "contratou" Adão para ser o seu "gerente" (muitos gurus empresariais deveriam incluir a Bíblia como um manual de consulta).

A sentença de Deus a Adão pelo pecado de desobediência, ou na linguagem corporativa, pelo não cumprimento do contrato celebrado, foi a seguinte: "com dor comerás dela (a terra) todos os dias da tua vida" (Gênesis 3.17). O Criador continua: "Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo" (v.18). A sentença divina finaliza com os seguintes dizeres: "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra" (v.19).

Profética e historicamente, este quadro tem-se agravado, com especial ênfase nos tempos da modernidade. Saber que a doença e o trabalho estão de certa forma emparelhados não é nenhuma novidade. Mas o que questiono aqui não é exatamente onde deparamos com a doença ou o padecimento. E sim: onde não há doença ou sofrimento?

Afinal, de um lado os trabalhadores alegam que o trabalho produz sofrimento (a bem da verdade, até os empregadores admitem sofrer com a dinâmica do labor), do outro lado, os desempregados também afirmam sofrer pelo fato de estarem fora do mercado de trabalho. Vá entender...

Os trabalhadores registrados reclamam da exploração a que são submetidos, das horas-extras não pagas, da inconveniência da classe patronal, do período de férias que geralmente não coincide com a agenda familiar, do escasso aumento real do salário, das escassas oportunidades de crescimento profissional, dos parcos cursos oferecidos, dos colegas de departamento, do ambiente de trabalho, e por aí vai.

Os trabalhadores informais também têm a sua lista: reclamam da diminuição de oportunidades no mercado formal, da demora governamental em estabelecer leis claras e estimulantes para este nicho de mercado, do descaso e até da inexistência de uma política pública específica, do tratamento diferenciado por parte do governo, do desprezo, e de outras mazelas.

Os desempregados podem não ter emprego, mas tem sua reivindicação. Isso, às vezes é questionável, mesmo porque alguns preferem continuar sem emprego, por diversas razões. Para mim, parece que existem duas classes bem distintas: os desempregados e os inempregados. Enquanto aqueles não "encontram" o emprego desejado, estes, por sua vez, não "aceitam" o emprego ofertado.

Os sindicalistas até que continuam protestando, mas não admitem abandonar a teta geradora de recursos. Reclamam da diminuição do número de "companheiros" que saem às ruas para reivindicar os (seus?) direitos e os da classe reclamante. É bem verdade que à vezes falta classe para a dita classe. Se me permitem o trocadilho.

Até mesmo os políticos entraram no jogo ao pleitearem a redução da jornada de trabalho. A questão é saber se a tão propalada redução vai reduzir apenas a jornada ou no pacote inclui também os salários. Dessa forma, é mais sofrimento à vista.

A lista parece não ter fim. E no seu sopé não poderia deixar de figurar os empresários, os quais também detém a sua gama de reclamações: da concorrência desleal, da inconstância cambial, dos funcionários faltosos, do peso da carga tributária, da invasão dos produtos de fabricação chinesa, entre outros queixumes.

O sofrimento, como se vê, extrapolou o ambiente de trabalho: tanto quem emprega e quem é empregado, aquele que paga e o que recebe; quem manda e quem cumpre. Todos sofrem.

Então, se não é possível evitar o sofrimento, parece que o abrandamento dele é o mais indicado, mesmo que a conta-gotas de um instrumento denominado salário mínimo. A rigor, no Brasil o salário continua mínimo.

Se de um lado os empregados sofrem pelo "mini-salário", aos desempregados e inempregados, fica o consolo de não sofrer especificamente do padecimento da "SRI - Síndrome da Renda Insuficiente".

Chega de sofrimento...

Neir Moreira é teólogo, pós-graduado em docência do Ensino Religioso pela Faculdade Batista, acadêmico em psicologia pela UFPR e pós-graduando em Educação.

Siga-nos

Mais do Guiame

O Guiame utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência acordo com a nossa Politica de privacidade e, ao continuar navegando você concorda com essas condições