Chefs trazem na mala produtos proibidos pelo Ministério da Agricultura

Chefs trazem na mala produtos proibidos pelo Ministério da Agricultura

Atualizado: Terça-feira, 10 Novembro de 2009 as 12

Começou a temporada de trufas, os raros cogumelos subterrâneos chamados por Bril lat-Savarian de "diamante da cozinha". Caçadas por cachorros treinados, marcam, nesta época, menus sazonais lançados em diversos restaurantes na cidade.

O que pouca gente sabe, no entanto, é que, antes do início da temporada, alguns chefs de cozinha viajam até a Itália para trazer o fungo na mala... escondido. A lei proíbe a entrada de produtos de origem vegetal e animal no país sem autorização prévia do Ministério da Agricultura. "A agropecuária é extremamente importante para a economia brasileira. Precisamos evitar a disseminação de doenças e pragas", diz o coordenador-geral do Vigiagro (Serviço de Vigilância Internacional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), Oscar Rosa de Aguir Filho.

Fabrízio Fasano, 74, presidente da Associação Brasileira de Bebidas, que hoje importa legalmente ingredientes da Itália para o grupo Fasano, relembra os tempos em que trazia trufas "na mão, no bolso, na mala, em caixinhas de isopor..."

E as trufas não estão sozinhas. Toneladas de alimentos são apreendidas por ano nas alfândegas - e depois incineradas. Desde janeiro, só no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, foram confiscadas 20 toneladas. No Rio, uma apreensão de caviar imperial iraniano, que tinha por destino o restaurante Eñe, em São Paulo, contribuiu para as estatísticas.

Flávio Miyamura, 25, chef da casa, contou que a importação foi barrada no aeroporto em agosto, pois "a marca não tinha os papéis necessários para a importação". O prejuízo foi grande: cerca de 10 mil.

Apreensão

A Folha acompanhou a chegada de três voos internacionais, no Aeroporto de Cumbica, em outubro. Alguns viajantes que tiveram suas bagagens vistoriadas não tinham conhecimento da lei de importação de gêneros alimentícios. Segundo o ministério, há "grande esforço para divulgar a legislação".

Vindo da Bolívia, um passageiro pediu para levar sua mercadoria: "É a primeira vez que venho de avião para cá. De ônibus, eu sempre trouxe. De avião não pode? É pouquinho, por favor...?" Da Espanha, chegaram itens como frutos do mar enlatados, presunto cru espanhol, salames.

Voos vindos da China, no entanto, têm recorde de ocorrências. "No auge da gripe aviária, com gente morrendo, uma passageira trouxe para o Brasil dois quilos de língua de frango da China. O produto foi apreendido e destruído imediatamente", conta o coordenador-geral do Vigiagro, que também diz que, em países como Austrália e Chile, passageiros pegos na alfândega com produtos proibidos de ingressar no país devem pagar multas, diferentemente do Brasil, onde só há apreensão.

Malas feitas

"Eu fui "preso" uma vez. Voltei da Itália com uma mala de alcachofras e tive de passar pelo Ministério da Agricultura. O fiscal, que riscava as bagagens vistoriadas com um giz, foi chamado para uma ligação. Não sei o que deu em mim: peguei o giz, risquei minha mala e fugi. (...) Me pegaram, me trouxeram com as pernas para o ar e eu perdi a mercadoria. Foi tudo incinerado."

É assim que Rogério Fasano, 45, do grupo Fasano, relembra a cena de 1997, quando ainda não importava alcachofras por vias legais.

Nos anos 1990, ele vivia "de favor", pedia para quem viesse da Itália para trazer ingredientes na mala. Hoje, depois de uma década, o grupo importa oficialmente trufas, vinhos e até alcachofras. "Demorou um ano para conseguirmos todos os registros para trazer as alcachofras castraure. O produtor abraçou a causa. Ele saía de Veneza de trem e seguia até Padova por uma hora para ir ao Ministério da Agricultura local. Depois, chá de cadeira. Sempre faltava um registro."

Para Fabrízio Fasano, "a burocracia impera no Brasil. Para importar um laticínio ou um embutido da Itália, por exemplo, não basta a autorização do Ministério da Agricultura de lá. É preciso que o ministério brasileiro faça a vistoria do estabelecimento in loco, se não, não é possível importar."

Chefs internacionais

Uma lista enorme de ingredientes deixou à beira de um ataque de nervos os organizadores do Jantar das Gerações, realizado no último dia 26, no hotel Grand Hyatt (SP). "Vários ingredientes não encontramos aqui no Brasil. Tentamos importar, mas é impossível. Gastamos o triplo para comprar aqui mesmo", diz a organizadora Mariella Lazaretti, 47.

Relatos sobre o jantar do ano anterior, que trouxe Ferran Adrià ao país, e os perrengues para trazer alguns ingredientes estão reunidos no livro "O Jantar do Século", recém-lançado pela editora Senac (R$ 120).

Outro lado

Questionado sobre a desinformação de passageiros em relação à lei que proíbe a entrada de produtos de origem vegetal ou animal no país sem autorização prévia, o Ministério da Agricultura, Agropecuária e Abastecimento (Mapa) diz que está intensificando a divulgação com a distribuição de folders, a de fixação banners em aeroportos e a veiculação de mensagens de áudio nas áreas de embarque.

As queixas dos profissionais da área de gastronomia sobre a burocracia da importação, por outro lado, são contestadas pelo órgão. "Os procedimentos de responsabilidade do Mapa, de modo geral, são ágeis. É preciso identificar em que órgãos a burocracia é um problema."

Sobre as dificuldades de trazer alcachofras da Itália, o ministério diz que "a importação de alcachofras e de outras espécies vegetais não necessitam de autorização prévia. Tão logo ocorre o desembarque da mercadoria, é feita a inspeção e, de forma rápida, o produto é liberado".

Já sobre a dificuldade de mandar um técnico ao país produtor de laticínios, apontada por Fabrízio Fasano, o Mapa diz que procedimentos adotados pelo Brasil para permitir a importação de produtos de origem animal da Europa são os mesmos dos países da União Europeia.

"O Brasil realiza missões ao exterior para avaliar as condições técnicas, higiênicas e sanitárias de estabelecimentos e produtos, para assegurar tanto a sanidade agropecuária como salvaguardar os interesses da saúde pública."

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