Comfort Food: tendência gastronômica age no cérebro como o namoro, ajuda no combate à depressão

Comfort Food: tendência gastronômica age no cérebro como o namoro, ajuda no combate à depressão

Atualizado: Sexta-feira, 14 Maio de 2010 as 3:02

Arrepios, segurança emocional, lembrança da infância, felicidade. Ao consumir frango cozido com quiabo, o mineiro Samuel Verazani, 23, que há um ano trocou Minas Gerais por São Paulo, é bombardeado, inconscientemente, por todas essas sensações. "Quando vejo quiabo nas prateleiras dos supermercados ou nos restaurantes, logo lembro do tempo em que vivia com a familía em minha terra natal", conta emocionado o jovem. Assim como Samuel, grande parcela da população é acometida por este bem-estar ao provar certos tipos de pratos que remetem a uma determinada época da vida. Para estes alimentos, a gastronomia utiliza o termo "comfort food" ou comida do coração, um estilo que acaba de virar tendência entre os restaurantiers e que para alguns especialistas pode ser comparado à paixão. "Tanto o namoro, quanto este tipo de refeição estimulam a produção de serotonima, substância responsável pelo prazer e conhecida no combate à depressão", alerta o nutrólogo José Alves Lara Neto, vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

A "comfort food" sempre existiu, mas caiu nas graças dos chefs e virou termo gastronômico de um tempo pra cá. As tais comidas do coração nada mais são do que pratos que nos levam à tenra infância, associados a aromas e sabores que nos fazem viajar no tempo e dão a sensação de segurança emocional, mesmo que por alguns momentos e de forma inconsciente. "A nutrologia desconhece esta termologia, porém é compravado que quando provamos algo que nos faz lembrar bons momentos, o cérebro se organiza e surgem sentimentos de euforia e/ou alegria", explica Lara Neto.

Cada país - e cada indivíduo - possui a sua "comfort food". E ela pode variar de acordo com a época e o lugar em que se viveu. "O frango com quiabo sempre foi feito pela minha mãe que mora lá em Minas. Lembro que comíamos toda semana e quando ele não entrava no cardápio, eu sempre chorava", relata Samuel Verazani.

A Comfort Food é considerada uma derivação da comida caseira. Lembra? Vai do simples bolinho de chuva ao famoso brigadeiro. Ou ainda inclui aquela pizza quentinha, a canja de galinha e aquele suculento cozido. "Minha família sempre foi ligada à cozinha e os temperos eram destaques. Por este motivo, hoje utilizo em meu restaurante os mesmos segredos que usávamos em nossos pratos", confessa a chef Carla Elage, 47, responsável pelo Brilat Bistrô, que fica na capital paulista. Filha de pai libanês e mãe de origem italiana, Carla sempre lembra de sua infância em torno do fogão e trouxe este sentimento para o seu negócio, conhecido por aguçar sentidos e utilizar receitas simples que conquistaram os fregueses.

Inspirada no 'Comford Food', Eunice Morgado Pinto comanda, em São Paulo, o restaurante Rico Sabor. O local, aberto há 19 anos, mantém decoração parecida com a casa da avó e elenca mais de 70 pratos feitos com produtos naturais. "Nossa preocupação é estimular os frequentadores. Aqui eles se sentem protegidos, pois parecem que estão em casa", comenta Adriano Pinto, sócio do estabelecimento.

Na televisão, Edu Guedes, chef e apresentador do programa "Hoje em Dia" da Rede Record, também investe na "comfort food" ao informar receitas simples e bem caseiras. O resultado? O quadro comandado por Guedes é um dos vistos na emissora.

Segundo o nutrólogo Lara Neto, ao ingerir estes tipos de alimentos, como os informados por Edu Guedes, há um incentivo para a produção de serotonina, substância do cérebro ligada ao prazer e responsável por aliviar a depressão e a ansiedade. "A serotonina é a mesma substância ligada ao namoro, ou seja, comer pratos caseiros produzem as mesmas sensações de estar apaixonado".

A serotonina, que é estimulada pela "comfort food", influencia sobre quase todas as funções cerebrais, inclusive estimulando o sistema GABA (ácido gamaminobutírico), ou seja, os níveis de serotonina determinam se a pessoa está deprimida, propensa à violência, irritada, impulsiva ou gulosa.

Assim como a serotonina pode elevar o humor e produzir uma sensação de bem-estar, sua falta no cérebro é relacionada a condições neuropsíquicas bastante sérias, tais como o Mal de Parkinson. Com essa base fisiológica, alguns pesquisadores afirmam que aumentando-se os precursores naturais da serotonina pode-se, seguramente, elevar seus níveis e aliviar a depressão e até certos tipos de dor. "Posso estar triste, deprimido, mas quando experimento pratos que me fazem lembrar a infância, melhoro na hora", diz Samuel Verazani.

Para Lara Neto, este tipo de refeição pode ser benéfico ao organismo, mas não cura quadros de depressão profunda. "Não adianta a pessoa consumir grande quantidade de 'comfort food' e pensar que seus problemas serão curados. É importante ressaltar que o bem-estar é apenas momentâneo", sublinha o nutrólogo.

Em relação a comfort food, o que importa é a individualidade e o reconhecimento instantâneo pelo cérebro assim que se depara com o alimento familiar. "O ato de comer preenche espaços, inclusive os do coração. Mata a saudade e engana a angústia", declara a chef Carla Elage.

É preciso então redobrar a atenção em relação ao "comfort food", porque o que alimenta a alma nem sempre é bom para o corpo. "A tal refeição do coração pode ser perigosa, pois uma vez que proporciona prazer, pode viciar. O resultado será então a obesidade e outros problemas de saúde", destaca Lara Neto.

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