Crianças de paladar sofisticado fogem de cachorro-quente e hambúrguer

Crianças de paladar sofisticado fogem de cachorro-quente e hambúrguer

Atualizado: Sexta-feira, 6 Novembro de 2009 as 12

"Humm, adoro pato. Sempre gosto de pedir o magret, com aquele molho. Como é mesmo o nome?" Marina Cheng Pereira abre um sorriso ao lembrar do prato degustado recentemente no restaurante La Brasserie Erick Jacquin, em Higienópolis (região central da capital paulista), com molho rôti. À base de carne e vinho, o caldo concentrado rega finas fatias de um peito de pato malpassado, que chega à mesa com sua capa de gordura também quase crua.

Marina tem dez anos, mas ostenta um paladar de adulto. A primeira vez que experimentou magret foi aos seis anos, no La Casserole, tradicional bistrô no largo do Arouche. Aos quatro anos, provou escargot. "É uma lesma", explica, mostrando que, desde a mais tenra infância, já era bastante destemida no quesito comida. Sua curiosidade só cresce com o passar dos anos. "A gente vai para a África no fim do ano e quero comer carne de crocodilo", explica ela, que, tão logo conclua a quinta série em dezembro, vai viajar com os pais. O menu exótico foi desencorajado por uma colega. "Uma amiga comeu e não gostou. Mas eu quero provar." A lista do que Marina experimentou (e gostou) é grande --sopa de barbatana de tubarão, steak tartar, pekin duck, massas, sashimi, sukiyaki ("você mergulha a carne no ovo cru e ela fica com um gosto muito bom").

O paladar faz da garota paulistana, filha única, parte de uma turminha diferente. São crianças que não querem mais saber de cardápio infantil, acham bobagem essa história de macarrãozinho na manteiga e fogem do McDonald's. Estimulados pelos pais, esses pequenos gourmets são apresentados a um vasto mundo gastronômico em restaurantes das mais diversas culinárias --em São Paulo ou em viagens ao exterior.

Situações desse tipo se tornam mais comuns entre filhos únicos dessa geração, explica a educadora Maria Angela Barbato Carneiro, coordenadora da Brinquedoteca da PUC-SP. "Às vezes, os pais levam a criança para o restaurante porque não têm com quem deixar. Em outros casos, fazem isso por companheirismo mesmo."

Parte fundamental na transformação desses pequenos gourmets, os pais também devem ser os responsáveis por apertar o freio, frisa a professora Maria Angela. "É bem interessante a criança ter um paladar mais apurado, mas os pais devem observar se elas comem demais, se as porções são adequadas a elas."

Isso porque, se o cardápio é de adulto, a quantidade de comida também é. Para não haver sobras, muitas vezes a família divide os pratos. É o que acontece com os irmãos Rafael e Thomas Ejnisman. "Eles dividem a comida entre eles e, às vezes, comigo", conta a mãe, a advogada Marcela Waksman Ejnisman. Mas ela confessa que eles não gostam de compartilhar a mesma escolha.

É uma questão de preferência. Se Thomas, 8, dá uma escorregada e diz que no Ritz, restaurante moderninho dos Jardins, gosta de pedir o hamburguinho, Rafael, 10, dispara: "Eu não peço. Lá não é lugar para comer hamburguinho". Por quê? "Tem coisas mais gostosas, como macarrão com molho de camarão."

Se a pergunta é qual sua culinária preferida, ele faz suspense. "Argentina, em terceiro lugar. Japonesa, em segundo. Em primeiro... O que você acha?" Acertou quem pensou em francesa --o prato preferido é o magret.

Esses pequenos apreciadores da boa comida também não perdem a oportunidade de escolher o restaurante. "A gente corta um pouco porque o Rafa gosta de dar palpite em tudo. Se deixarmos, ele define onde temos de ir", se diverte Marcela, a dona do cartão de crédito.

Na sexta-feira 2 de outubro, não foi diferente. Era o aniversário de Rafael e ele queria almoçar com a mãe no sofisticado Ici Bistrô, em Higienópolis. O pedido não foi atendido porque eles não teriam tempo suficiente para uma refeição à francesa, demorada --e cara: só o magret custa R$ 61. "Entre os nossos amigos, ele é conhecido como Rafa Gourmet. Adora falar de comida, quer experimentar tudo, mesmo que não goste", afirma ela.

O chef do Ici, Benny Novak, se delicia com esse público em formação. "Eu tenho como cliente criança que adora salada de tutano, bife de fígado." Mas ele lembra que restaurantes como o dele não são playground. "Não dá para ter piti. Os pais devem saber se o comportamento do filho combina com o lugar."

De restaurante em restaurante, Giancarlo Cappelli Wong, 7, sempre quer ir no Tatini, nos Jardins. "A gente vai até demais lá. O Gian adora um prato que é feito à mesa", conta a mãe, a administradora de imóveis Carla Cappelli Wong. Viciado em comida italiana, o menino fica hipnotizado quando chega seu prato preferido: penne à moda.

A explicação fica por conta dele: "O garçom mistura os molhos na nossa frente, em uma panela. O macarrão ainda está sem nada. Depois é que tudo vai para o prato". No rechaud, a mistura é de molho sugo, molho bolonhesa e creme de leite. Se não for no Tatini, onde até os garçons sabem o que ele come, Gian gosta de dar uma espiada no menu. "Leio primeiro as massas, depois as saladas e a sobremesa." Nada de cardápio infantil. "Eu até vejo o cardápio de criança. Mas não me interesso muito." Nessa hora, é preciso olhá-lo de novo para lembrar que só tem sete anos.

A mãe, que tem duas filhas mais velhas de outro casamento, se surpreende com a curiosidade gastronômica do caçula. "Com elas, eu tenho de ler o cardápio na porta antes de entrar no restaurante. Com ele, entramos em qualquer um." Bem, a não ser que seja uma lanchonete --Gian não curte um hambúrguer.

Pé na cozinha

Não é uma relação obrigatória, mas algumas dessas crianças adquirem também gosto pela cozinha. Interessadas na preparação dos pratos, as irmãs Camila e Julia di Gianni Mora Valdesoiro passaram a frequentar aulas de culinária. O primeiro curso, na Escola Wilma Kövesi de Cozinha, foi há três anos. O próximo será em dezembro.

As aulas, conta Betty Kövesi, que pilota esse curso há 18 anos, são uma boa oportunidade para a meninada perder preconceitos, porque conhece ingredientes e acompanha o processo de transformação dos alimentos. "Além disso, esse contato aumenta a chance de a criança recusar produtos industrializados, que possuem um gosto diferente."

Nesse mundo das panelas, Camila e Julia saíram do primeiro curso com receitas debaixo do braço. No Natal, é a vez de cada uma fazer o prato que se tornou o predileto de toda a família. "Eu faço torta de palmito todo ano", conta Camila, 11. A sobremesa fica por conta de Julia, 14: cheesecake com geleia de framboesa, receita aprendida há três anos.

Esse tipo de experiência gastronômica em casa, afirma a terapeuta de família Magdalena Ramos, traz mais benefícios para a criança que a ida a restaurantes. "Não acho que seja um programa para uma criança de sete anos, por exemplo, ficar duas horas sentado num lugar que exige um comportamento de adulto."

De acordo com a autora do livro "E Agora, o que Fazer? A Difícil Arte de Criar os Filhos" (ed. Ágora), os adultos devem ficar atentos para levar os filhos para o ambiente infantil, em vez de só puxá-los para seu próprio mundo. "O problema não é a comida, é o ritual à mesa."

Os pais dos pequenos gourmets tentam levar em conta o conselho. "Nós separamos os programas de adulto, fazemos coisas sem os meninos", afirma Marcela. "Sempre dizemos que não é para o bico deles quando é um restaurante mais sofisticado. Não é toda hora que os levamos."

A experiência gastronômica das crianças pode se tornar mais fácil em casa se um dos pais gosta de surpreender paladares. Na cozinha de Camila e Julia, quem pilota o fogão é o pai, o operador financeiro Julio Félix Mora Valdesoiro, "especialista em risotos".

A mãe, a psicóloga Françoise di Gianni Valdesoiro, admite, entre risos, que não cozinha nada. Mas gosta de experimentar, o que estimula as meninas. "Eu e o Julio participamos de uma confraria de vinhos. Também por isso adoramos conhecer restaurantes." Assim, as garotas provaram comida mexicana, italiana, japonesa, árabe, francesa etc. "Em restaurante, a gente gosta de fazer um rodízio dos pratos. É muito bom porque todo mundo prova tudo", diz Camila.

Em casa, ela gosta de pôr a mão na massa. "Adoro ajudar meu pai quando ele está cozinhando. Ele me pede para experimentar, para eu dizer como está a comida." Tanta paixão a levou a falar em profissão. "Se eu não for atriz, quero ser chef de cozinha."

E o sonho vai além. Ela sorri timidamente, faz uma pausa. E fala de novo, cheia de resolução. "Já tenho até o nome do restaurante. Vai se chamar Félix. O desenho vai ser um gato, o rabo vai formar o 'i'. Só vai ter comida italiana." Mas é bem brasileiro o que a faz salivar: "Baião de dois com torresmo", revela, rindo, o prato preferido. A internacional Marina, que ostenta no passaporte carimbos de viagens gastronômicas por países como Japão, Alemanha e França, também gosta de se arriscar. Em Paris, há dois anos, encarou uma opção à primeira vista indigesta para menores. "Quando entramos, um velhinho comia joelho de porco com lentilhas. Comia com tanto gosto que fiquei com vontade."

Ela pediu o prato e a opção foi seguida pelos pais. "Era tão bom que numa segunda viagem voltamos lá por causa do joelho", conta Marina, que torce o nariz para o feijão servido na escola. "Ela é muito exigente", diz a mãe, a empresária Ramona Cheng Pereira. "Pode ser arroz e feijão, mas tem de ser bem feito."

Postado por: Felipe Pinheiro

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