A história da moda no Brasil

A história da moda no Brasil

Atualizado: Quinta-feira, 18 Agosto de 2011 as 9:02

  Há tempos, a identidade brasileira vem sendo investigada, perscrutada e desejada por várias áreas da cultura e do conhecimento, todas elas tentando entender do que seria feita essa "alma" brasileira. Clichês como a alegria e a espontaneidade, imagens recorrentes como o futebol e o Cristo Redentor nos assombram, ao mesmo tempo que nos orgulham: pertencer ao mundo "rico e civilizado" ou incorporar as idiossincrasias do Brasil?

Discutida na literatura, no cinema, na música e na arte, a busca da identidade brasileira também tem sido um assunto recorrente no campo da moda. Esse é um dos objetivos de" História da moda no Brasil: das influências às auto referências",   de João Braga e   Luis André do Prado, lançado no Rio de Janeiro na última segunda (15) e em São Paulo em meados de junho passado.  Mostrar como a moda brasileira evoluiu de simples cópia da moda francesa para se tornar independente, com o lançamento de nosso próprio calendário e o surgimento de diversas faculdades de moda, o que nos possibilita começar a enxergar uma criação original.

Com sete capítulos, mais introdução, inicialmente o livro pretendia contar a história da moda no Brasil desde os tempos do descobrimento. A ideia, no entanto, mostrou-se complexa demais, e os autores acabaram por focar suas pesquisas no período que vai da "Belle Époque" (1890 – 1918) aos dias atuais. Isso não é pouco, pois são os 120 anos mais importantes para a moda, já que no século 19 se iniciou o sistema da moda como conhecemos hoje, e no século 20 a moda teve seu período de maior florescimento.

O desejo de abarcar todo esse período histórico possivelmente vem do fato de os autores sentirem, assim como todos aqueles que estudam moda, grande dificuldade para encontrar material de pesquisa bem feito, em especial os que tratam do Brasil. A documentação é escassa, os materiais são dispersos e mal organizados. O livro de João Braga e Luis André do Prado, portanto, é motivo de alívio e alegria para os estudiosos do assunto e para quem apenas se diverte com a moda. Para conseguir realizar o volume foram necessários 126 entrevistas, 420 itens de consulta, entre livros, teses, periódicos e sites, o que o torna, desde já, fonte obrigatória para qualquer pesquisa histórica ou acadêmica na área.

A obra é toda ilustrada com imagens divertidas de anúncios antigos, revistas que já foram referência da moda brasileira e que não existem mais ou croquis de estilistas que nos deixaram cedo, como Zuzu Angel e Conrado Segreto. Oferece, ainda, ótimos boxes explicativos, como, por exemplo, “O que foi a Belle Époque”, “Os mascates”, “Imigrantes e comércio de roupa em SP”, “As máquinas de costura”, “Índios já conheciam o algodão” (tudo isso logo no primeiro capítulo), “Rhodia lança sintéticos”, “Elle, a revista mais vendida do mundo”, “Produção têxtil e meio ambiente” (nos capítulos posteriores), o que reforça o conteúdo principal sem tornar o texto pesado, facilitando a leitura e a localização dos assuntos.  

A “fúria desbravadora” dos autores fica evidente quando se percebe que eles não se furtaram a definir terminologias (de onde vêm e o que são as modistas? Quando podemos usar o termo alta-costura?) ou a descrever momentos fundamentais da história da moda não incluídos no período abordado, como o surgimento da moda na passagem da Idade Média para o Renascimento.

Algumas relações da história de nosso país com a moda dão graça ao texto, como o fato de que o nome do Brasil tenha origem no pau-brasil, madeira usada para tingir tecidos, e a de que o início das trocas entre portugueses e índios tinha como base ornamentos e espelhos.  Outros trechos nos ajudam a compreender por que é tão difícil conseguirmos nos desenredar da influência estrangeira, como é o caso do alvará assinado por Dona Maria 1ª em 1785, proibindo a manufatura de tecidos, confecções e bordados nas terras brasileiras.

Enfocando a moda do ponto de vista do negócio, articulando as implicações econômicas e as situações históricas, ao mesmo tempo em que relacionam as mudanças sociais e estéticas com o espírito da época, os autores proporcionam reflexão sobre os significados da moda: “ a roupa era (como continuou sendo), acima de tudo, uma forma de estratificação e um código de pertencimento a grupos sociais: daí o dito popular “fulano se veste com distinção” - ou seja, a roupa distingue bem a camada ou grupo social ao qual quem a veste pertence”.

Ao longo do volume, são analisados acontecimentos de grande porte, como a implantação da indústria do jeans, e iniciativas individuais que geraram mudanças significativas no cenário da estética da moda, como a Semana de Moda Casa de Criadores ou a Cooperativa Paulista de Moda, de onde saíram talentos importantes como Walter Rodrigues ou Ronaldo Fraga.

Com fôlego e conhecimento, os autores nos levam de volta aos tempos em que a carioca era branquela (“As mulheres cariocas são figuras de marfim ou cera...") ou aos tempos da influência americana ("Não é tarde de recepção, é de   tea   ou de   cocktail   nas embaixadas”). Mas se você ainda quer saber mais sobre o século 16 ou 17 aguarde, pois os autores nos prometem continuar o trabalho.

" História da moda no Brasil: das influências às auto referências"

Autores: João Braga e Luis André do Prado

Editora: Disal

Preço: R$120,00

Edição: 2011

Número de páginas: 640

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